
1 – No fim de semana encontro o Sapo, meu amigo de longa data, mais oficialmente o artista plástico Guilherme Dable, para que aceite ilustrar meu novo livro, que será de fábulas.
2 – Como as da antiguidade. Ao menos em ideia, claro, como algo que ambiciona ser.
3 – Esopo, Fedro, La Fontaine.
4 – Fábulas para adultos.
5 – O segredo das fábulas está em seu caráter moralmente contestador, em sua capacidade de nos assombrar pela constância dos comportamentos humanos e também por fazer rir de nossas fraquezas.
6 – Os bichos mais bem cumprem seus papéis quanto mais humanos se nos parecerem. Temas conflitivos, asperezas das personalidades das gentes podem
ser transpostas para a natureza de certos animais, que em nossa cultura ganharam traços fixos, pelo olhar humano que neles reconhece semelhanças.
7 – Por sorte o Sapo, ou Guilherme, prometeu-me seus desenhos, que há anos admiro (já são duas capas com detalhes de suas obras), embarcou no projeto, que sairá pela Casa de Astérion, agora no segundo semestre.
8 – Uma das vantagens da fábula sobre outros tipos curtos de escrita é essa certa constância de cenário e mesmo de caracterização. Também o tempo em que a história se passa é quase sempre indefinido, como se os eventos tivessem valor atemporal, ao modelo das verdades sobre nossa espécie.
9 – O que importa é dar a linha moral, que pode estar oculta, um valor de exemplo, de manifestação, de verdade que só pode ser constituída a partir de uma fabulação.
10 – Por fim, vale lembrar, ao início de nossa conversa, que algumas fábulas, mesmo nos autores clássicos, podem contar com pessoas como personagens ou mesmo propor a convivência entre personagens humanos e bestiais.
11 – Já definia Theon, um antigo retórico, que “uma fábula é uma história fingida que dá uma imagem da verdade”.
12 – Verdade talvez seja demais. Mas aspectos da verdade, o fabulista haverá de buscar.
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