
Invejar é humano, já disseram os maiores psicanalistas e para-choques de caminhão. Sou humano, logo invejo. E não pouco. Se não sou, quero ser; se não tenho, quero ter e, neste sentido, a inveja me ajuda, como uma espécie de guia dos meus desejos mais verdadeiros.
Certa vez, o escritor e psicanalista Cyro Martins me disse que não invejava nada nem ninguém. Eu o invejei. Como, na época, eu tinha vinte e muitos anos, e ele sessenta e poucos, desejei que, um dia, eu pudesse ser como ele. Já tenho sessenta e poucos, e não sou. Eu o invejo ainda.
De todas as minhas invejas, a maior é a que sinto pelo meu cachorro. De hoje. Tive outros, mas não os invejava. Eram cachorros de antigamente. Comiam os restos, moravam em casa de porta aberta, no pátio, adoeciam cedo, tinham muito trabalho na vida, passavam o dia na rua, fora do pátio, disputando território. Até sarna tinham e muito medo da “carrocinha”.
O meu cachorro de hoje, não. Ele tem acesso aos melhores brinquedos e uma rotina invejável. Acorda à hora que quer e sai de uma cama quentinha ou fresca, de acordo com a estação do ano. Toma um bom café com ovo frito e biscoito. Brinca e sempre tem com quem brincar. Depois almoça ração especial, descansa, brinca, depois janta e dorme na cama fresca ou quentinha. E, antes disso, passeia.
Andou tendo uns problemas na coluna, mas a fisioterapeuta dele o trata melhor do que a minha. Não que eu reclame da Lu. Ela é atenta, querida e mesmo empática, mas pega pesado comigo e nunca me recompensa. Ela, um dia, foi firme com os meus músculos mais fracos. Já a Bruna, além de atenta, querida e empática, passa toda a sessão fazendo carinho no Boris e o recompensa com biscoitos suculentos. E nunca, nem nos seus piores dias, reclamou de um músculo preguiçoso. Eu gosto da minha fisioterapeuta; ele ama a sua.
Está nas nossas caras quando elas chegam. Eu recebo a Lu respeitosamente e até com um sorriso verdadeiro. O Boris recebe a Bruna fazendo piruetas, abanando o rabo, chorando de emoção. Não se compara.
Não se comparam também os níveis do estresse do Boris e do meu. Zero, no caso invejável dele. Imensuráveis, no meu, e seus pesos de amor, de trabalho, de filha, de o raio que o parta. Amo o que faço e as pessoas com quem convivo, incluindo o cachorro e o raio que o parta, quando ele eclode de forma bela, mas confesso que a leveza nem sempre está presente.
Já o Boris ama tudo e todos com quase toda a leveza possível deste mundo, sem estresse nenhum. A bem da verdade, cada um ama o seu mundo, e os dois mundos parecem o mesmo. Mas não são. O dele é eterno, porque, apesar de uma vida mais curta, ele não pensa na morte. O meu, não, e isso é o que mais invejo.