
Nos últimos tempos tem se falado do episódio do confronto entre Michelle Bolsonaro e seu enteado, Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência do país. Não me interessa entrar nos meandros dessa briga nem nos motivos dela, mas digo que, desde o início, a Michele estava fadada a perder pelo simples fato de ser mulher.
Como declarado pelo Instituto Clarice, um estúdio de inteligência e de imaginação sobre mulheres e poder, “poder é para quem a sociedade reconhece como legítimo para exercê-lo”. Esse reconhecimento e legitimidade ainda não existem nas mãos das mulheres. Cultura forma imaginários e imaginários definem o campo do possível.
O Instituto Clarice, assim nomeado em homenagem a Clarice Lispector, fez o estudo “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, utilizando-se de variadas metodologias e no âmbito nacional, trazendo resultados que não surpreendem para um país machista como o Brasil, mas que trazem consistência a sentimentos que não conseguimos nomear, que ficam no subjetivo, pois permeiam a cultura das instituições, sobre o qual trato a seguir.
Nesse estudo, a esmagadora maioria, 96% dos brasileiros, consegue descrever as características de uma pessoa poderosa, como podem ler abaixo. Esse padrão atravessa homens e mulheres, todas as idades, raças e territórios do país.
· 36% sabe se expressar com clareza.
· 30% demonstra respeito em sua fala.
· 29% fala com calma e tranquilidade.
· 27% parece confiante.
· 25% fala em tom de voz firme.
· 22% É autêntico e não esconde quem é.
· 12% têm a palavra final.
· 11% não se cala.
No entanto, quando se pede para nomear uma mulher poderosa no Brasil, 4 em cada 10 pessoas não conseguem responder. E, quando consegue, o nome citado aparece associado a alguma figura masculina, como primeiras-damas. Das mulheres independentes dos homens, a primeira a aparecer com relevância nas respostas é a ministra Carmen Lúcia, a única mulher no Supremo Tribunal Federal.
· 10,1% Primeira-dama / Janja
· 6,1% Carmen Lúcia
· 4,8% Michelle Bolsonaro
Nenhuma mulher poderosa como Anitta, Luiza Trajano, Marina Silva, Simone Tebet, por exemplo, que construíram carreiras sozinhas, independentes e sem associação de qualquer homem, constou nesse ranqueamento. Junta-se a esse aspecto o alto índice de pessoas em geral que não conseguiram nomear mulheres poderosas (40%), das próprias mulheres (45%) e dos jovens em especial (49%). As mulheres poderosas estão invisibilizadas. Nós não as percebemos, porque não legitimamos e validamos seu poder.
E aqui vou abrir um parêntese para comentar o embate entre Michelle e Flávio, posto que, nessa briga, apesar de ela ser apontada como essa mulher poderosa, a todo momento — ela, seus aliados e nas reportagens — era afirmado, especulado, informado que seu marido estava a seu lado, chancelando suas atitudes, aprovando seu comportamento. E, perdendo o enfrentamento, recolheu-se para o espaço de cuidado da família, espaço no qual se espera que “uma boa mulher” esteja, como veremos a seguir. Já imaginou algum homem poderoso fazendo isso? Jamais, né?
Prova disso é que, ao pedir aos participantes da pesquisa que indiquem quais palavras estão ligadas aos homens quando os enxergam no poder, são apontadas: Liderança / Autoridade / Poder / Superioridade e Sucesso / Conquista Vitória / Merecimento.
Quando solicitados aos respondentes da pesquisa que também indiquem as palavras que lhes vêm à cabeça quando veem uma mulher no poder, eles citam: Liderança / Empoderamento / Poder e Sucesso / Vitória / Superação.
O que se aprende com isso?
Para nossa cultura, o homem, quando ocupa o poder, parece que chegou aonde devia. Tanto que as palavras escolhidas são “merecimento”, “autoridade”, “superioridade”. Sua hierarquia não é questionada. Suas ordens existem para serem cumpridas. Porém, a mulher, quando chega ao lugar do poder, parece que venceu uma prova. Não à toa uma palavra escolhida é “superação”, porque a sociedade sabe que ela precisou passar por muitas dificuldades e necessita enfrentar muitos desafios para ocupar aquele espaço. Outra palavra apontada é “empoderamento”. E, se pensarmos, empoderamos quem antes não possuía poder. Mas quem concede esse poder? E quem concede também é quem pode retirar. E, como vimos, quando se trata de poder na nossa cultura, dá-se ao homem essa legitimidade, quando o percebemos como o “superior” e o “merecedor” quando ocupa esse espaço.
Qual é o lugar em que nos colocam?
Como somos educadas e socializadas para cuidar da casa, da família, da maternidade, do marido, porque o entendimento da nossa cultura é o de que a mulher “pode trabalhar desde que deixe todo o resto em ordem”, é natural que sejam nessas áreas de cuidado que sejam mais naturais reconhecer nossos espaços de poder, como pode compreender abaixo.
Espaços naturais para as mulheres ocuparem lugares de poder:
· 38% Saúde
· 35% Educação
· 32% Família
Espaços estranhos às mulheres para ocupar lugares de poder
· 42% Política (A faixa etária de 18 a 24 anos registra 44% em política como espaço de estranhamento).
· 33% Finanças e negócios.
· 28% Esporte.
· 28% Tecnologia e inovação.
Esses números revelam que, quanto mais público, competitivo e institucional o espaço, maior a estranheza de ver uma mulher numa posição de poder, distante do imaginário “feminino” do ser mulher, ou seja, o espaço do cuidado.
Essa pesquisa expõe o imaginário e os modelos de pensamento que formam a cultura na qual vivemos e estamos inseridos. Regras não ditas, mas que todos sabemos quais são. Como tal, elas agem interiormente, no que cada mulher sente sobre suas capacidades e no que consegue imaginar para si mesma. Posso ser cientista? Posso chegar a ser deputada federal? Consigo ser promovida a diretora financeira da empresa? As leis não faladas indicam que o caminho para transformar o sonho em realidade é quase intransponível. E o custo é alto.
Para entrar neste mundo do poder, uma em cada três mulheres afirma que é preciso se encaixar. Esse ajuste não é escolha, é custo de entrada. Essas mulheres declararam que realizaram as seguintes mudanças para caber:
· esconder a personalidade para se encaixar (37% negras / 29% brancas).
· mudar a maneira de falar para ser ouvida (37% negras / 32% brancas).
· mudar o tom de voz para ser levada a sério (37% negras / 32% brancas).
· controlar expressões faciais e gestos para ser ouvida (40% negras / 34% brancas).
· encobrir o corpo para não ser julgada (45% / 31% brancas).
E o preço mais alto que se paga é o da autenticidade não exercida e o da voz que não sabe que existe. Como fala uma das entrevistadas da pesquisa: “A mulher é ensinada assim: ‘Ó, fecha a boca, fecha as pernas. Seja pequenininha. Seja magrinha, cinturinha fina, alisa o cabelo, se possível.’ Existe uma castração na educação feminina, em tudo. ‘Casa com o cara mais importante, que ganhe mais.’ É essa ideia de diminuição contínua. E um dos principais pontos é não ter raiva. Porque ‘mulher brava é feio’.”
Nesse ambiente, uma erosão lenta ocorre. A menina que um dia quis ser astronauta, engenheira civil, presidente do país, vai sofrendo um lento e contínuo processo de desgaste. “Um aprendizado para o apagamento, do aprender a caber, como escrito no report do Instituto Clarice. A se reduzir, a se adestrar para ser molde, a não transbordar. É o processo silencioso de deixar de ter opinião própria, de não se expressar, de virar a eterna coadjuvante da própria história.” Até quando?
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.