
As lágrimas de Neymar após a eliminação do Brasil para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, dividiram opiniões. Houve quem enxergasse ali a dor genuína de um atleta que dedicou quase duas décadas à Seleção. Outros entenderam que o choro não foi suficiente para apagar anos de comportamentos que, em muitos momentos, colocaram o indivíduo acima da instituição. A discussão ganhou força na imprensa e nas redes sociais, com análises que contrapuseram a forma como Neymar e Lionel Messi lidam com vitórias, derrotas e o peso de liderar uma equipe.
Independentemente da posição de cada um, talvez estejamos olhando para o lugar errado.
Na administração, aprendemos que organizações bem-sucedidas não dependem exclusivamente de talentos extraordinários. Elas constroem processos, formam sucessores, fortalecem a cultura e distribuem responsabilidades. Quando o resultado de uma instituição parece sempre depender de uma única pessoa, o problema dificilmente está apenas nessa pessoa. Está, sobretudo, no modelo de gestão.
Durante muitos anos, o futebol brasileiro alimentou a expectativa de que Neymar resolveria sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de uma equipe inteira. Depositamos sobre ele o peso de uma geração, de uma camisa histórica e de um país acostumado a vencer. Quando isso acontece, cria-se uma dependência perigosa: o líder deixa de ser parte do sistema e passa a ser o próprio sistema.
Nas empresas, conhecemos bem esse fenômeno. Há organizações que concentram decisões, conhecimento e relacionamentos estratégicos em um único executivo. Enquanto tudo funciona, parece uma demonstração de força. Mas basta uma crise, uma saída inesperada ou um resultado negativo para que fique evidente o quanto aquela estrutura era frágil.
A Seleção Brasileira oferece um exemplo claro desse risco. Desde 2002, passaram técnicos, dirigentes e diferentes gerações de jogadores. Mudaram esquemas táticos, comissões e discursos, mas permaneceu a expectativa de que um craque devolveria sozinho o protagonismo ao país. A eliminação diante da Noruega apenas reforçou que o problema é maior do que qualquer camisa 10.
Liderança também não se resume ao talento.
Um líder inspira pelo exemplo, fortalece o coletivo, prepara outras pessoas para assumir protagonismo e entende que o reconhecimento individual só faz sentido quando está conectado ao resultado da equipe. Isso vale para empresas, governos, entidades de classe e também para seleções esportivas.
Messi talvez seja lembrado menos pelas lágrimas que derramou nas derrotas e mais pela transformação de sua postura ao longo da carreira. Depois de anos sendo questionado, tornou-se um líder capaz de colocar a seleção argentina acima da própria imagem. Não foi apenas uma mudança técnica, mas uma evolução de liderança e maturidade. É essa construção que costuma separar grandes talentos de grandes legados.
No ambiente corporativo, esse aprendizado é permanente. Os melhores gestores sabem que competência técnica abre portas, mas é a capacidade de formar equipes resilientes, criar confiança e desenvolver pessoas que sustenta resultados duradouros. Empresas que sobrevivem por décadas não são aquelas que encontraram um “Neymar”. São aquelas que aprenderam a funcionar mesmo quando o seu maior talento não está em campo.
Por isso, o debate não deveria ser se Neymar chorou demais ou de menos. Emoções fazem parte da condição humana e não diminuem ninguém. A pergunta mais importante é outra: por que seguimos construindo organizações que dependem de heróis para alcançar seus objetivos?
A derrota para a Noruega pode representar mais do que o fim de uma campanha. Pode ser a oportunidade para repensarmos a forma como entendemos liderança no Brasil. Menos personalismo, menos salvadores da pátria e mais instituições fortes, equipes preparadas e lideranças capazes de desenvolver outras lideranças.
No futebol e na gestão, as vitórias mais consistentes nunca são obra de um único talento. Elas são resultado de um projeto coletivo, disciplinado e sustentável. É justamente isso que, há muito tempo, está faltando ao Brasil.