
São tempos em que as pessoas clamam por simplicidade e franqueza. Ninguém aguenta mais os delírios que uma suposta intelectualidade que desgasta pautas importantes pelas banalizações e exageros e se afunda na irresponsabilidade antissemita. O cara entra numa faculdade de Humanas e não consegue permanecer cinco minutos diante da toxicidade dos despautérios em um ambiente pestilento sedizente culto e sofisticado. Se algumas situações que vemos por aí parecem tiradas de um livro do Kafka, a histeria leviana, superficial e sem noção em boa parte dos centros acadêmicos, por vezes criminosa de forma inafiançável, parece tirada de um filme do Borat. Teve uma vez que o Borat estava indignado com a negação do Holocausto, uma aberração normalizada que deveria levar o delinquente que a profere à cadeia. Mas a indignação do Borat, na sátira do Sacha Cohen, era hilária. O cara era tão antissemita que reclamava da negação de algo que, pra ele, era bom (!!!). Do jeito que a coisa anda, a gurizada ainda vai fazer igual.
(obs: sempre é bom lembrar que o engraçadíssimo Sacha Cohen não só é judeu e evidentemente sionista, mas também é religioso praticante. Seu “antissemitismo” é pura sátira e seu humor maravilhoso é próprio de um povo que por vezes ri de si mesmo)
Mas o fato é que, diante desse tipo de ambiente rarefeito – muito em voga -, as pessoas buscam escape pra respirar na simplicidade de abrir a janela e ver que o céu é azul ou de somar 3 + 3 e saber que dá 6 e ninguém flexibiliza uma verdade tão verificável e objetiva. Teve uma época em que comecei a ver comédias românticas e filmes de mocinho e bandido pra arejar o cérebro. Tipo alienação, mesmo. Porém, uma alienação do bem, porque, se os assuntos ditos sérios derivam de pautas frágeis, mentirosas e de consequências graves, alienar-se é uma imposição em nome da sanidade mental.
Então, diante desse contexto todo, vou confessar: sou muito dado a uma breguice e sinto meu coração aquecido quando recorro a ela. Já comentaram um texto meu dizendo que eu atingia o limite entre o estilo elegante e a pieguice. Foi um comentário elogioso, ao menos eu encarei assim, porque chegar nesse limite mostra que o texto tem alma. O maravilhoso Odair José uma vez disse que cantava músicas de amor romântico porque é do amor romântico que vem a vida. Achei aquilo genial, muito verdadeiro e simples. Mas não é do Odair José que quero falar, apesar de que ele me comovia muito com aquilo de tirar a mulher amada “desse lugar”. (“E não me interessa o que os outros vão pensaaaaar!”)
Quero falar de três musas que tive durante a vida, todas elas possivelmente consideradas bregas. Eu as achava lindas e adorava sua arte.
Gilda: puxa, que dor. Fui morar em Buenos Aires logo depois da sua trágica morte em 7 de setembro de 1996, num acidente automobilístico quando tinha só 34 anos. Criou-se um culto a ela, e eu me contagiei. Até santa muitos dizem que é – eu não chego a tanto, claro. Num vídeo da linda canção “Fuiste”, surge dentro de um vestido vermelho curto em meio à banda, toda integrada por homens, com aqueles sopros bem colocados da cumbia que a morena corajosa renovou pela melodia e principalmente pelas letras de uma mulher livre. E tem outras músicas dela que penetram pelos poros e chegam ao coração. Exemplos? “No me arrepiento de este amor” (que tem versão da banda punk argentina Attaque 77 – chamo de “Tarciso, André e Eder”, e os entendidos entenderão – e também serve como melodia pra um novo cântico da torcida argentina nesta Copa do Mundo) e “Corazón Valiente”. A cumbia é um ritmo envolvente, e a eterna Gilda é uma morena esguia de voz suave, com extrema musicalidade, ex-professora primária que despertou para a sua arte já adulta, encantando quem a viu e ouviu.
Suzi Quatro: era a minha musa na infância. Como falávamos na época, era “my number”. Baita jeito de moleca, morena de cabelos castanhos e rosto de anjo. Hoje é uma senhora de 76 anos. Roqueira, baixista, voz linda. Vou contar um segredo quase inconfessável. Eu morria de ciúmes do Chris Norman quando via no videoclip os dois cantando a balada “Stumblin’ In” em dueto. Veja o vídeo, mas também veja ela bem roqueira tocando seu baixo e cantando em “Can to can” e, claro, “If you can’t give me love”. Dizem que ela e Chris eram só amigos. Hmmm. Lá sei eu, aqueles abraços e olhares trocados me deixavam triste, porque na verdade sempre fui um romântico. Sim, eu amava muito a Suzi, por tudo.
Jeanette: com aquele rostinho de olhos claros, narizinho delicado e levemente dentuça, uau, e que voz! Era ela, hoje com 74 anos, a jovem que cantava “Por que te vas”, aquela música da cena maravilhosa de Carlos Saura em “Cría Cuervos”, quando as crianças põem o vinil e dançam livres em pleno franquismo. A banda punk argentina Attaque 77, sim, de novo a “Tarciso, André e Eder”, fez uma versão e ficou boa, mas não chega aos pés da versão original com a voz de veludo da querida espanholinha (também de origem britânica) Jeanette. No Brasil, a Lilian gravou sua canção “Soy rebelde” (com o título óbvio de “Sou rebelde”), que virou símbolo de breguice. Lembram? Mas tem uma música dela, muito em especial, que posso ouvir dezenas de vezes, repetidamente: “Corazón de poeta”. Linda demais!
Acho que é sobre coração de poeta que escrevo.
Árabes na Patagônia
Não posso deixar de voltar a um assunto recorrente neste espaço: o antissemitismo. A imprensa argentina está noticiando que os Emirados Árabes e o Qatar já são donos de 70 milhões de hectares na Patagônia. Fico aqui imaginando se fossem judeus ou israelenses. As teorias da conspiração absurdas do Plano Andinia voltariam com força. Às vezes basta a faísca de um incêndio no verão seco pra serem atribuídos aos “sionistas” as maiores aberrações. Porém, “no jews, no news”.
Da hipocrisia
Logo após a histórica virada argentina (dá-lhe Scaloneta querida!), vi discurso feito pelo treinador do Egito, país que também tem fronteira com Gaza (é provável que muitos nem saibam disso) e nunca lhe estendeu a mão. Bastaria que acrescentasse uma vírgula ou um aditivo (“e”) ao falar de palestinos. Se falasse “Palestina livre e Israel segura”, eu daria um abraço no cara. Em nenhum momento falou em 2 Estados, em nenhum momento falou que a população de Gaza é refém do Hamas (foram encontrados milhares de quilômetros de túneis em Gaza, nunca usados como bunker pra proteger a população, como faz Israel) e em nenhum momento falou que antes dessa guerra (é uma guerra cruel como outras ocorrendo neste mesmo instante) houve uma chacina absurdamente bestial em 7/10/23. O que me impressiona é as pessoas falarem em tom humanista, convincente, mas ignorando uma série de contextos. Jamais os judeus ou Israel iriam querer crianças ao relento, posso assegurar isso, por piores que sejam os governantes. O que mais dói é que o discurso é bonito e até convincente, mas cheio de lacunas essenciais.
Shabat shalom!