
Em fevereiro, completei 50 anos. Não tenho objeção em assumir a idade. Ela está em mim. Eu estou nela, independente da percepção alheia sobre aparência de mais ou menos anos. É vida vivida, experiência construída e, ao mesmo tempo, uma única certeza: há um mundo de possibilidades e oportunidades para aprender.
O desejo de aprender mais – que não tem idade – está me levando, de várias formas, a revisitar minhas (nossas) origens, construir um mundo melhor para meu (nosso) filho e as demais crianças negras que habitam esse Brasil ainda tão desigual. O caminho que encontrei para achar algumas respostas e multiplicar as perguntas foi o ingresso no doutorado. E em uma nova área: a Educação. Uma escolha consciente e repleta de intencionalidade. Com formação em jornalismo e mestrado em Comunicação, abro uma nova porta ao conhecimento, por motivações muito genuínas, que envolvem a paternidade e atuação profissional. Aí você pode perguntar: “Mas não poderia ser uma pós-graduação em nível de especialização?” Já fiz. Duas, por sinal, sendo a mais recente em 2022, servindo de catapulta para meu segundo ‘stricto sensu’ (primeiro, o mestrado e, agora, o doutorado).
O curso de doutorado em Educação vem como um mergulho. A metáfora parece a mais apropriada, pois o corpo e a mente fazem parte dessa etapa que envolve diálogos, vivências, leituras e formações que me acompanham nos últimos anos, motivadas pela paternidade e pelo olhar para a carreira profissional e acadêmica.
Volto aos bancos universitários para problematizar o tema da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) no ambiente das escolas privadas e as relações com a Comunicação. A opção é fruto da análise de um cenário que mostra, com base em estatísticas do Ministério da Educação, órgãos não governamentais e entidades de classe, o aumento de matrículas nesses estabelecimentos há pelo menos dez anos. Conforme o Censo Escolar da Educação Básica, de responsabilidade do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o ensino privado responde por 9,5 milhões de matrículas, o que representa 20,2% do total nacional de 47,1 milhões de estudantes, incluindo o ensino público.
Isso ocorre em dissonância – essa é minha hipótese – com o cumprimento do Artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996), alterado pelas leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Ele torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino fundamental e médio, tanto em instituições públicas quanto privadas.
Os estudos e levantamentos contemporâneos nesse campo têm se voltado mais ao ensino público, de forma justificada, pois abarca a maior parcela da população. Pesquisa de 2023 realizada pelo Instituto Alana e pelo Geledés Instituto da Mulher Negra aponta que, depois de 20 anos de implementação, 71% das Secretarias Municipais de Educação realizam pouca ou nenhuma ação relativa ao Artigo 26-A da LDB.
No final de 2025, o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS) fez o Diagnóstico sobre a inclusão do ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena no currículo escolar dos municípios gaúchos. O resultado aponta que, “apesar de experiências pontuais e indicadores de adesão parcial, o cenário geral é marcado por omissões institucionais, descontinuidade de ações, ausência de planejamento sistêmico e baixa priorização orçamentária”. Texto extraído do documento público, disponível aqui.
Vale lembrar que o território gaúcho tem aproximadamente 79% de pessoas autodeclaradas brancas (Censo IBGE 2022) e, ironicamente para muitos, o maior número de casas de religião de matriz africana no Brasil.
Agora, vamos seguir passo a passo, como em uma receita culinária?
Primeiro, acrescente as informações anteriores à ampliação do acesso da população negra às universidades, em razão das políticas afirmativas; adicione a ascensão econômica deste público ao conquistar novos e melhores postos de trabalho, fruto do desenvolvimento acadêmico e profissional; inclua uma porção generosa de ingresso de mais crianças e jovens negros em escolas particulares. Agora, misture tudo com uma generosa dose de desconhecimento existente em muitos desses estabelecimentos privados sobre como tratar, de maneira transversal e interdisciplinar, as contribuições históricas dos povos negros e indígenas à construção do Brasil. Calma, a receita ainda não acabou.
Salpique neste preparado as dúvidas da Direção e Coordenação Pedagógica sobre como lidar em situações de denúncia de racismo no ambiente escolar (os protocolos de ação). Agora, tire do fogo e prepare a cobertura com um Plano Político-Pedagógico desatualizado. Decore o prato com bibliotecas onde não existem autoras e autores negros e indígenas nas referências de estudos. Sirva frio, olhando atentamente onde estão os corpos negros na escola de seu filho ou filha. Onde eles estão? Em cargos de gestão e liderança, na coordenação e na sala dos professores; ou predominantemente em posições de trabalho administrativas e operacionais (secretaria, portaria, higienização)?
O desassossego com esse emaranhado de situações alcança milhões de famílias, entre elas a minha, e entendo que isso precisa ser estudado, evidenciado, a fim de que o cenário se altere com iniciativas concretas. Por isso, me aproximo de educadoras, psicólogos, cientistas sociais e outros colegas para escutar, ler, formular hipóteses, estabelecer objetivos e localizar referências bibliográficas para sustentar as ideias que, espero, contribuam para a ciência, mas, essencialmente, para repensar o projeto de sociedade que queremos e enxergar que novas práticas podem ser postas em vigor.
Nesse início de percurso, logo nas primeiras leituras das disciplinas nas quais me inscrevi, fui abraçado pela contundência das histórias e ideias de Abdias Nascimento e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Eu já os conhecia, mas estudá-los em profundidade é revigorante! Dizer da minha admiração e respeito por suas trajetórias é pouco. Ser recebido por suas palavras e registros de contribuições reais à História do Brasil só amplia o nosso compromisso com esses estudos.
Vendo tudo isso, lembro o bordão da jornalista Aline Midlej, ao abrir todas as noites o telejornal noturno do qual é âncora: “É hora de encaixar os fatos, sentir os acontecimentos e ficar por dentro do que mexe com você e com o mundo”. Os fatos estão postos, como as pesquisas mostram. Sentir e refletir como tudo acontece desperta nossos sentidos e nos leva a agir, pois tudo isso mexe comigo (com a gente!) e com o mundo.
Certamente voltarei a escrever mais a respeito, para compartilhar ideias, abrir-me à escuta e consolidar novos aprendizados. Na condição inédita de bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), usufruo de recursos públicos para custear minhas mensalidades. Dividir essa experiência em artigos, crônicas, eventos e apresentações é uma forma de honrar os impostos que todos pagamos e que me permitem, pela primeira vez, estudar com apoio da União.
A quem se perguntou sobre o termo “nossas” origens, entre parênteses, lá no terceiro parágrafo, respondo: as origens que busco por meio dos estudos falam muito mais sobre o coletivo do que o individual. Falam de potência, de reis e rainhas, de diáspora, de dor, de apagamentos, de resistência, de desigualdades, de constância, de luta, de luz e de persistência. As origens são nossas, pois é do Continente Africano que toda a Humanidade vem. Sou porque nós somos. Ubuntu.
Ao falar do meu (nosso) filho, compartilho a missão e responsabilidade de preparar para ele um mundo melhor. Isso cabe, essencialmente, a mim e à minha esposa, mas também a todas as pessoas adultas que o cercam. Se “é preciso uma aldeia para criar uma criança”, que sejamos corresponsáveis pelo cuidado das nossas, proporcionando-lhes habilidades e instrumentos para construírem um futuro melhor ao nosso lado.
Para concluir, retomo o questionamento do título: você lembra a última vez que viveu algo novo? Digo algo realmente novo, que mexeu com você?
Essa provocação surgiu de uma postagem do Lázaro Ramos, ator, escritor, pai e inspirador que acompanho desde que estrelou Madame Satã, lá em 2002. Recentemente, ele esteve em viagem à Alemanha para promover ‘Feito pipa’, seu mais novo filme, premiado no Festival de Berlim. Lá, pela primeira vez na vida, esse cara fantástico e com tantas viagens no currículo, ao lado de Taís Araújo, disse: “Eu já vi neve já caída, mas caindo nunca tinha visto assim. Que massa!” Então, ele postou: “Vocês lembram a última vez que viveram algo pela primeira vez?”
É assim que me sinto: um novo momento de vida, que envolve amadurecimento, questionamentos, paternidade, associativismo, engajamento, empreendedorismo e estudos. Em suma, algo vivenciado pela primeira vez. E tudo se encaixa.
Eduardo Borba é jornalista graduado pela PUCRS, pai, integrante de ações para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII. Mestre em Comunicação Social, é especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania
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