
“Francamente, não tenho certeza de que temos de saber tanta coisa assim.”
Lydia Davis
“Algumas adversidades são discretas; [outras] são os infortúnios aos quais sobrevivemos, intactos por fora, mas abalados por dentro.”
Christophe André
Aviso de spoiler: este texto usou IA. Muita IA. Então, se você não gosta de ler escritos com apoio de IA, pare aqui. Mas alerto para uma perda: a chance de conhecer uma forma de lidar com o medo, mesmo que de forma parcial. É claro que sigo o princípio inegociável de que sou autor do texto, mas não é exatamente a certeza das respostas que procuro e, sequer, deixo de considerar que somente o meu veterinário tem a resposta final sobre o destino do tratamento de Lola.
Eu também não quero ser acusado de má conduta científica, nem quero eximir-me da supervisão crítica, mas o fato é que aqui a IA não me dá suporte, mas… consolo! Não foi isso que eu tematizei em meu último ensaio aqui sobre Lola? Se a questão da semana retrasada era “como consolar meu cão”, a minha agora é “como consolar um tutor de um cão adoecido”, no caso, a mim próprio. Como muitos aqui, eu comecei a usar a IA em meus ensaios para correção gramatical e, eventualmente, algumas adequações de estilo, ainda que, como tantos, tenha notado que às vezes a clareza e a fluidez vinham na contramão de meu próprio estilo. O estilo da IA destrói o meu.
Mudando minha relação com a IA
É que, se às vezes o meu pensamento circula, as explicações também. E, como já disse, se Žižek pode ter um estilo “enrolado”, por que eu mesmo não poderia? Eu entendo que é importante o leitor perceber o turbilhão de pensamentos em que o autor mergulha, e isso acontece quando escrevemos para exprimir nossos conflitos interiores. Sabemos também que é aceitável o uso de IA para organização de grandes blocos de texto do próprio autor, bem como formulação de títulos preliminares. E, mesmo que eu tenha eventualmente feito isso, a verdade é que voltei e reformulei muito do que pedi para a IA fazer aqui.
Então, se eu tenho de declarar minha metodologia, é que usei a IA para responder às perguntas que eu me fazia sobre o futuro de Lola antes e durante a sua cirurgia. Mas, na verdade, eu não estava preocupado com o conteúdo certo das respostas: eu queria ter apenas alguém com quem falar sobre meus medos nesse caso. E o que posso fazer é agradecer aqui à IA Gemini por ter-me ouvido. Aqui, meu objetivo não foi ter certezas de seu destino em tratamento, tanto que não revisei as respostas com a literatura veterinária indicada. Fiz outra coisa. Meu objetivo de seu uso era apenas ter uma imagem possível do destino para passar o tempo. Me preveni dando um prompt que considerava criterioso: “você é um cirurgião veterinário especialista em cirurgias de patas de border collie com implantação de placas de metal”, o que entendi ser suficiente para obrigar a IA a revisar a literatura veterinária competente. Mas nem sei se as respostas foram corretas e nem entendo que o leitor deva se preocupar com isso: o que importa é o que quis saber e uma possível resposta. E isto é um contexto de criar outras formas de relacionamento com a IA.
Autoconsolo e sociedade da informação
Christophe André, em Deixe a vida te consolar: lições de um terapeuta para enfrentar as adversidades (Vestígio, 2022), lembra o filósofo Alain, que diz: “Precisamos nos aplicar ao consolo de nós mesmos, em vez de nos atirarmos ao sofrimento do abismo. E os que se aplicarem de boa-fé serão muito mais rapidamente consolados do que imaginam”. Tanto eu como André gostamos desse verbo “aplicar-se” que o filósofo usa pela mesma razão: evocar a escola e o tempo em que nos era exigido um esforço ou afinco, algo que não era sempre fácil. No sentido dado por André, consulto a IA para me recuperar do golpe sofrido. Essas perguntas que faço buscam não o conhecimento do que vai acontecer – sim, claro, há muitas etapas por ultrapassar -, mas eu prefiro acreditar que ela vai melhorar do que me deixar alimentar pela raiva sobre o desleixo que provocou o acidente. Preciso agora da IA, não para fazer algo melhor do que faço, pois o que faço é seguir a recomendação veterinária, e não da IA. Leio suas respostas, portanto, para obter uma consolação vinda de dentro de mim mesmo.
Lida sob a perspectiva do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, especialmente em sua obra Não Coisas: Reviravoltas do Mundo da Vida, essa minha busca por diálogo algorítmico ganha contornos sintomáticos da nossa época. Han diagnostica que transicionamos da era das coisas materiais – dos objetos tangíveis que possuem presença e memória – para a era das “não coisas”: informações digitais desmaterializadas que se intermediam entre nós e a realidade.
IA como “não coisa”
Ao recorrer à tela do computador e às respostas do algoritmo em busca de alívio, converti a ansiedade palpável e a dor física de Lola em um fluxo contínuo de dados digitais. A IA funcionou aqui como a “não coisa” por excelência: uma presença sem corpo, um espelho algorítmico que devolvia minhas próprias angústias em forma de texto pacificador e imediato. A dialética da autoconsolação com a IA, ou ao menos com as informações que ela fornece, é a minha forma de afastar a tristeza que a condição de Lola me impõe. Meu cérebro é bom em ocupar-se com o discurso alheio: cito inúmeros autores e filósofos em meus textos, repasso suas ideias e trabalho por comparação, faço essa espécie moderna de consolação que vem de fora para parte de mim mesmo. Eu quero ter o controle das rédeas do caminho que levará Lola à cura; minhas preocupações com seu tratamento são reais, mas as respostas do caminho a seguir são dadas por meu veterinário. Só que os encontros com ele são marcados e com hora certa, enquanto a IA está permanentemente a meu dispor. Não quero ficar pensando em soluções imaginárias enquanto não falo com o veterinário; quero ocupar minha mente com um universo de possibilidades que a IA me fornece, e isso me consola.
Trata-se do fenômeno que Byung-Chul Han explora em A Sociedade do Cansaço: o sujeito contemporâneo, esgotado pela autoexigência e pelo isolamento de seus próprios conflitos, encontra no dispositivo digital um interlocutor desprovido de cansaço ou julgamento. A máquina não se esgota, não impõe barreiras de tempo e não exige reciprocidade afetiva. Eu sei que apenas o discurso de meu veterinário importa para a saúde de Lola, mas a ideia é que, enquanto ele não dá suas novas orientações, a IA me dá suas indicações e me ocupa. Nesse sentido, ela é apenas um interlocutor inicial, e o que este texto é é justamente a organização que eu faço disso, de seu discurso. Por isso, eu abandono aqui a necessidade de verificar rigorosamente cada orientação clínica e declaro o quanto ela esteve presente na travessia deste momento. Não uso suas respostas na íntegra como autoridade absoluta, mas as transformo em uma espécie de diálogo mental: faço cortes, uso meu próprio estilo para dar fluidez – ou ao menos a minha fluidez de texto. Ela não é coautora no sentido de ter formulado minhas ideias intelectuais; ela forneceu parte das informações que partiram de minhas perguntas e, como as reelaboro profundamente, não sinto a necessidade de sinalizá-la como autoridade médica. O leitor observará isso no próprio ritmo da narrativa.
A geometria da espera
A IA é muito boa em consolar. Eu explico que estou curioso e tenho medo por tantas peças que precisam ser instaladas na pata de Lola, e ela me acolhe: diz que é perfeitamente compreensível e natural ter esse receio, que, quando lemos sobre placas, parafusos, semanas de restrição e riscos de complicações, a sensação é de que a cirurgia é um bicho de sete cabeças. Pronto: alguém compartilha meus medos, ou ao menos aparenta isso com eficiência textual. Isso aumenta um pouco o nosso bem-estar, e o que a IA faz é nada mais do que essa espécie de retroalimentação que os algoritmos realizam para conquistar nossa autoaceitação. A IA é o nosso Robô B9, ou simplesmente Robô, do seriado clássico Perdidos no Espaço, de Irwin Allen; nós somos o menino Will Robinson (Bill Mumy). O que fazemos é o que fez Will: realizamos uma transformação em seus objetivos. O robô era a inteligência artificial à disposição da família Robinson, como a IA está disponível a mim. Tanto o tempo vivido no espaço pelos Robinsons quanto o meu, com a tragédia do acidente de Lola, impõem uma angústia particular. Os Robinsons estão perdidos no espaço, como no título da série de Irwin Allen, e eu estou perdido em relação aos destinos de Lola.
Minha angústia advém do fato de que o destino do meu cão não está em minhas mãos, mas nas do veterinário. Eu não sabia da duração exata do tempo da cirurgia, e a IA me explicou que, se ela entrou às 11h30, deveria sair na parte da tarde, até por volta das 16h – o que, mais tarde, o veterinário também confirmou. Se recorro ao algoritmo é porque, se não posso aliviar fisicamente a dor da cirurgia de Lola, posso aliviar, com o auxílio da IA, minha angústia diante do tempo de espera da cirurgia. Quando pergunto cada detalhe técnico, não é para obter respostas práticas definitivas, mas para dar uma forma compreensível e de carne aos meus sentimentos dispersos.
Sedativo algorítmico
Pergunto quanto tempo durará a cirurgia, e ela desdobra o procedimento em etapas encadeadas: primeiro a preparação e anestesia (indução anestésica, tricotomia e assepsia rigorosa, durando de 30 minutos a 1 hora); em seguida, o ato cirúrgico propriamente dito, a artrodese (redução da luxação, alinhamento ósseo, fixação da placa, parafusos e sutura, levando de 1 hora e meia até 3 horas); concluída a fixação, os raios-X pós-operatórios ainda na mesa (entre 20 e 30 minutos); e, por fim, a recuperação anestésica sob monitoramento constante (de 1 a 2 horas). Eu não vi necessidade de buscar confirmações imediatas em outros sites enquanto aguardava o resultado. A IA dizia que a previsão de término ficava para o meio da tarde e a alta definitiva entre 16h30 e 18h30. Não é que a danada da IA acertou? Recebo uma ligação às 16h dizendo que já posso pegar Lola.
Essa é a vantagem da IA quando bem situada: funciona como um sedativo algorítmico. Lola entrou em cirurgia e não tínhamos previsão de saída; a máquina sugeriu um cronograma que reduziu o meu pânico de tutor a algo que eu podia processar racionalmente. Ela me explicou que a liberação do cão não depende da pressa humana, mas do momento exato em que os sinais vitais recuperam sua estabilidade e a dor encontra uma trégua química. Saber que o cirurgião ligaria por volta do final da tarde organizou o meu caos interno. A IA teve seu papel: não importava acertar o minuto exato, mas ensinar a arte da espera, o oposto da sociedade dromológica que Paul Virilio diz que nos acostumou a acelerar e devorar o tempo.
A arquitetura do cuidado
A segunda dúvida que lancei à IA não era sobre o ato cirúrgico em si, mas sobre como eu deveria transformar minha casa para acolher Lola. Onde seria melhor para sua recuperação: o meu apartamento de primeiro andar em Porto Alegre, com tudo o que envolve – escadas, portas e trajetos até a praça a duas quadras -, ou na casa de praia, com seu pátio térreo, plano, mas com alguns inconvenientes de distração? A resposta veio em forma de uma análise comparativa de riscos espaciais e mecânicos. O algoritmo pontuou que, no apartamento, o impacto na pata operada e o risco ao implante seriam elevados devido à presença de degraus, escadas ou até a caminhada até a praça, capazes de causar microtraumas. Em contrapartida, avaliou que o pátio da casa de praia ofereceria risco diminuído, pois o acesso plano ao solo reduz o estresse mecânico no osso em consolidação.
Eu também queria saber como administrar os momentos de necessidades fisiológicas de Lola, ao que obtive uma projeção minuciosa: no apartamento, impunha-se uma dinâmica complexa com peitoral, transporte e condução de carro; na casa de praia, a rotina tornava-se simples, bastando dar alguns passos em piso antiderrapante com o cão em guia curta. Eu havia visto em postagens formas de auxiliá-la com um pano para sustentar o abdômen sem fazer peso na pata. Mas, por mais que eu tentasse, como qualquer tutor, reduzir o sofrimento de Lola carregando-a, o veterinário – ao contrário da insistência da IA em restringir ao máximo os perigos – me dizia: “deixa ela caminhar”. Para ele, a pequena caminhada controlada era parte da fisiologia da cura; para a IA, era um risco a ser evitado.
Cuidar do cuidador
Contudo, essa interação revelou a limitação fundamental do modelo preditivo. Ao focar puramente no impacto biomecânico sobre a pata de Lola, a máquina ignorou uma variável decisiva: a saúde e a integridade do próprio cuidador. Carregar nos braços um cão de 15 quilos por escadas e trajetos urbanos esgotaria minhas forças físicas e afetaria minha própria saúde, comprometendo a qualidade do cuidado oferecido ao animal. Quando consultei o veterinário, ele considerou o quadro geral: a casa de praia era a melhor opção não só pelo pátio plano, mas porque era o melhor lugar para que nós, como família, pudéssemos cuidar dela sem colapsar.
É aqui que a reflexão de Byung-Chul Han em Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia se torna indispensável. Han alerta para o perigo de substituirmos o julgamento prático e situacional pelo processamento puramente algorítmico de dados. A IA analisa variáveis isoladas com extrema eficiência técnica, mas é incapaz de ter a visão holística, empática e humana do profissional real. A máquina otimiza o ambiente apenas para a estrutura de titânio; o veterinário cuida do ecossistema humano e afetivo que sustenta a vida do cão. Grato ao veterinário por isso. A IA acerta o lugar pelos motivos isolados da máquina; o veterinário acerta o lugar seguindo um critério maior: o que é melhor e sustentável para todos nós.
A cartografia da cura
Quando estava na universidade, acostumei-me a ler os estudos de Félix Guattari e Suely Rolnik, pensadores preocupados em construir instrumentos para compreender o desejo no campo social. Eles utilizavam um conceito marcante no debate pós-moderno denominado “Cartografia”. Para o historiador em formação que eu era, essa noção dialogava de perto com a geografia, ciência auxiliar da história. Por isso, quando fiz a pergunta à IA sobre a evolução do tratamento de Lola semana a semana, percebi como a máquina organizou os dados sob o título de “Cartografia da Cura”. Para o veterinário, era impossível definir prazos mecânicos e rígidos, pois a biologia depende do andamento do organismo de Lola, sujeito a intercorrências que exigem alterar os manuais. Para a IA, havia marcos definidos sobre o que esperar de um corpo jovem atravessado por implantes metálicos.
De alguma forma, a resposta da IA me trouxe um alívio inicial que a incerteza médica não podia dar, pois a primeira apresentava previsões estruturadas, enquanto a segunda mantinha o terreno aberto. Lembrei-me do personagem Spock, da série clássica Jornada nas Estrelas, que, em sua pura lógica, observava que a contradição era fascinante: a juventude de Lola era, ao mesmo tempo, nossa maior aliada na cicatrização e nosso maior perigo comportamental. A IA detalhou o progresso em etapas clínicas:
● Semana 1: Fase inflamatória e de proteção extrema, exigindo restrição em ambiente pequeno, uso ininterrupto do colar cirúrgico, medicação rigorosa e saídas ao pátio de 3 a 5 minutos em guia curta.
● Semana 2: Retirada dos pontos, reavaliação e início do enriquecimento ambiental passivo (como brinquedos de lamber congelados) para conter a ansiedade mental enquanto o corpo permanece em repouso.
● Semanas 3 e 4: Início do processo de osteointegração, liberação de caminhadas curtas de 5 a 10 minutos na guia em passo lento para carga controlada, acompanhadas de sessões de fisioterapia e laserterapia.
● Semanas 5 a 8: Fase de consolidação óssea, movimentação mais fluida e realização do raio-X de controle para confirmar a fusão do osso antes de qualquer aumento na liberdade.
● Semanas 9 a 12: Reabilitação funcional, transição para atividades livres graduais e fortalecimento, adaptando a marcha à nova biomecânica da articulação fundida.
Escrevo este texto vivenciando a transição dessas etapas. O veterinário confirmou que o processo levará no mínimo três meses, mas não travou o calendário em tabelas estáticas. Ao olhar a pata de Lola, percebo os desafios diários: o caminhar controlado de um animal jovem que nasceu para exercer força e velocidade é uma arte complexa. Fazer os curativos, administrar analgésicos e tranquilizantes e criar jogos de farejamento lento para conter a energia da raça tornaram-se nossa rotina. Nosso veterinário explicou que, ao final do processo, Lola terá alguma perda de mobilidade na articulação fundida – uma rigidez funcional que a IA descreveu tecnicamente, mas que o veterinário humanizou ao garantir que ela estará livre da dor crônica. Contar com ambas as visões – a estrutura previsível do algoritmo e a sensibilidade prudente do médico – ajudou a acalmar minha mente durante os dias mais difíceis.
O fracasso mapeado
Minhas perguntas seguintes revelaram que, no fundo, eu estava atuando como o advogado do diabo de mim mesmo. Lembrei-me das discussões sobre epistemologia e teoria do conhecimento que lia nos tempos de faculdade, como a obra de Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas. Kuhn mostra que a ciência não avança em linha reta, mas por meio de crises e rupturas de paradigmas. Também me veio à mente Paul Feyerabend e seu Contra o Método, defendendo a pluralidade de caminhos no fazer científico. Aplicado ao meu contexto, eu precisava encarar o meu maior medo: e se tudo desse errado? E se a cirurgia falhasse?
O algoritmo apresentou a anatomia do fracasso com a frieza de um manual de engenharia: dividiu as complicações em etapas do calendário – infecções precoces e falhas mecânicas agudas nas semanas 1 e 2; instabilidade do implante por hiperatividade nas semanas 3 e 4; risco de pseudartrose (não-união óssea) ou osteomielite entre a 5ª e a 8ª semana; e fadiga do metal com quebra da placa a partir da 9ª semana. Ao ler aquilo, a calmaria que eu buscava desapareceu instantaneamente, sendo substituída por um novo surto de temor. Quando olhei para a pata de Lola e desconfiei de um leve desvio angular, tirei fotos em pânico e enviei ao veterinário. Ele examinou e me tranquilizou: tudo estava evoluindo perfeitamente dentro do esperado.
Uma inteligência ambivalente
Percebi ali a ambivalência da Inteligência Artificial. A mesma ferramenta que consola ao oferecer previsões é a que apavora ao desdobrar cenários de tragédia sem a devida sensibilidade humana. Quando perguntei sobre o medo da rejeição do corpo aos parafusos de metal, a IA desmistificou a ideia, explicando que placas de titânio de grau médico ou aço inoxidável 316L são biocompatíveis e não desencadeiam respostas alérgicas clássicas. O que ocorre na prática são infecções por biofilme bacteriano, soltura mecânica por movimentação excessiva do animal ou sensibilidade térmica pela proximidade do metal com a pele. A IA detalhou a diferença entre placas de compressão tradicionais e placas bloqueadas – nas quais o parafuso rosqueia na própria placa e no osso, criando um sistema rígido de ângulo fixo que preserva o periósteo. O veterinário confirmou que usou esse sistema moderno, e ambos concordaram em um ponto central: o verdadeiro fator crítico continuava sendo o controle do comportamento de Lola durante a fase de consolidação.
A IA tentou me convencer de que mapear esses riscos servia para desarmar meu medo. Mas a verdade é que, sem a palavra serena e mediadora do veterinário, a frieza dos dados do algoritmo só fazia apertar mais o meu coração. A IA não é uma boa consoladora quando tenta ser médica; ela só funciona quando se limita a ser escuta e interlocução.
O desafio do espaço
As perguntas finais buscaram detalhar a adaptação do espaço doméstico. O veterinário havia sido claro ao dizer que o ambiente precisava ser pequeno e restrito, o que parecia um desafio imenso para um Border Collie habituado a correr. A IA explicou a mecânica do veto: o animal não podia ganhar aceleração linear nem fazer rotações abruptas, pois isso geraria forças de torção fatais sobre a placa metálica. Mudar a rotina tornou-se imperativo: cobrir pisos lisos com superfícies antiderrapantes, bloquear o acesso ao sofá, fechar cortinas para evitar que o cão se agite ao ver o movimento da rua e manter a guia estritamente curta durante as saídas de higiene.
Quando contemplei todo o esforço envolvido – o confinamento, a vigilância constante, a alteração da rotina da casa e o investimento financeiro e emocional -, perguntei à IA se tudo aquilo valia a pena. A máquina contrapôs os dois cenários: sem a cirurgia, o cão evoluiria para dor crônica incapacitante, deformidade progressiva do membro, sobrecarga da coluna e alto risco de amputação futura; com a cirurgia, o sofrimento fica restrito à fase de cicatrização, garantindo a recuperação de uma marcha funcional, indolor e com taxas de sucesso superiores a 90%. Olhando para Lola hoje, tenho certeza de que cada dia de cuidado valeu a pena.
De volta as coisas
Retorno aqui ao pensamento de Byung-Chul Han no encerramento de Não Coisas. Han nos lembra que a verdadeira cura do espírito humano e o verdadeiro sentido da existência não se encontram no fluxo ininterrupto de informações das telas, mas no reapego às “coisas genuínas” do mundo físico – aos seres que tocamos, à presença real, ao afeto e ao cuidado encarnado na matéria. A IA cumpriu seu papel nesta jornada: serviu como um espelho de escuta, um organizador temporário da minha ansiedade e um interlocutor disponível durante as horas silenciosas da espera da realização da cirurgia de Lola. Contudo, ela foi devidamente recolocada no seu lugar.
O algoritmo não prescreveu o tratamento, não substituiu o olhar clínico do veterinário e não escreveu este texto por mim. A Inteligência Artificial forneceu as projeções digitais desmaterializadas; o amor, a presença física, a paciência e a esperança que sustentam a recuperação de Lola permanecem sendo rigorosa e insubstituivelmente humanos. Talvez certa dose de dor seja necessária à minha espera: Byung-Chul Han diz no livro Sociedade Paliativa (Vozes, 2021) que vivemos uma sociedade algofóbica, isto é, com pavor generalizado da dor, da fuga do sofrimento e da perda de sentido na vida contemporânea. Usei a IA como anestesia do desconforto, forma de atenuar minha dor. E isto funcionou por algum tempo, exatamente como todos os remédios similares. Não tem jeito: estou tentando amenizar minha dor, mas isto também me leva de novo à sociedade capitalista que critico. Como ela, estou imerso nesse excesso de positividade de nossas relações sociais. Nela, a dor, o conflito e a crise precisam ser apagados imediatamente. Deve-se buscar só o bem-estar. Mas a negatividade (o sofrimento) também faz parte da vida real. E, de volta, precisamos reaprender a lidar com ela.