
Arrisco uma previsão: Flávio Bolsonaro deu a largada na jornada do bolsonarismo rumo ao buraco. Ele passou a campanha inteira fantasiado de democrata, dizendo só o que queria e lhe interessava dizer, negando todas as evidências de negociatas e posando de bom moço.
Pois, poucas horas depois de anunciado o resultado da eleição, o filho do Jair rasgou a fantasia e se mostrou como o golpista que sempre foi. Cercado por alguns asseclas e com o cinismo que marca seus discursos, o Bolsonaro da vez, sem nem ficar vermelho, disse que não aceita o resultado e vai pedir a anulação da eleição.
Sem poder desqualificar as urnas eletrônicas, decidiu atacar a Justiça, como, aliás, fez durante toda a campanha. Ele reclamou da prorrogação do horário de fechamento das seções eleitorais.
Mas só esqueceu — ou, vai ver, não foi avisado — que a campanha dele, junto com a do Lula, pediu a prorrogação. Esse infeliz e infantil discurso me faz lembrar outro. Um do velho Ulysses Guimarães, lá se vão uns 40 anos. Olha o que disse o Senhor Diretas:
“Não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e os ressentimentos na geladeira. A Pátria não é capanga de idiossincrasias pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e cunhados. O bom político costuma ser mau parente.”
Flávio Bolsonaro, na época, não tinha idade para acompanhar as coisas da política. Agora, já passado dos 40, tem idade, mas não tem cabeça para entender essas frases do Ulysses.
O filho 01 do Jair passou a campanha inteira fazendo o contrário do que dizia Ulisses. Só fez atacar e tentar desconstruir a candidatura de Lula. Quando falava de medidas concretas, era para dizer que mudaria os programas sociais: iria melhorar o Bolsa Escola, baixar a prestação do Minha Casa Minha Vida, transformar o SUS em um Einstein nacional… tudo o que Lula tem feito. Projeto pessoal, dele mesmo, era anistiar o pai e os outros condenados pela tentativa de golpe de janeiro de 2023.
Com uma liderança desse naipe, movimento político nenhum dura muito tempo.
Ah! A direita elegeu maioria folgada no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais. Mas o mesmo povo que elegeu senadores, deputados e governadores elegeu o presidente da República.
Aí, fica a pergunta: quem vai liderar as bancadas da direita?
No dia 31 de janeiro de 2027, Flávio vai para casa. O pai continua preso. Quem vai carregar o bolsonarismo? Dona Michelle? O Carlos? Ou o Jair Renan?
Lula, no discurso da vitória, mandou recados para os eleitos este ano. Disse que vai mudar o jeito de governar o Brasil. Sobre a composição mais conservadora do Congresso Nacional, disse que não foi ele – Lula – que escolheu deputados e senadores:
“Eles foram eleitos pelo povo e é com eles que eu vou governar”, disse Lula.
Com todo o tempo que tem de janela, Lula sabe, como poucos, quem é ideológico de verdade e quem é fisiológico, quem é o pessoal do que eu chamo de MMPP (Movimento Meu Pirão Primeiro).
Boa parte dos senadores e deputados federais foi eleita na sombra do bolsonarismo. Com a derrota do Flávio, muita gente vai ficar meio à deriva, atrás de uma boia para se manter à tona na Praça dos Três Poderes. E aí que entra em campo o negociador Luis Inácio Lula da Silva.
É bem provável que, em 2027, saia o bolsonarismo e volte o Centrão. Sem a Presidência da República, por quanto tempo o PL vai manter a sua bancada de 121 deputados federais e 28 senadores?
Quem estará disposto a seguir a cartilha antilulista agora que a eleição acabou e ninguém tem nem ideia de quem serão os candidatos em 2030, apesar das seguidas lembranças do nome do governador Tarcísio de Freitas? Mas será que Tarcísio, tendo que administrar a gigantesca máquina paulista e chegar bem a 2030, vai bater de frente com Lula, sabendo que Lula não será candidato?
O que parece incontestável: está começando uma nova era política. Sem expectativa de nova eleição, o tetra presidente pode fazer o governo que sempre promete. A picanha e a cerveja prometidas em 2022 podem chegar em 2027. Lula vai pra cima da direita no Congresso Nacional?
A promessa dele no discurso da vitória de usar mais as redes sociais, de ir pra rua, conversar com o povo todos os dias, também é um recado aos eleitos: onde eu for, vou levar o povo comigo.
A rua e as redes garantiram a reeleição, e as caras assustadas do Flávio Bolsonaro e do time dele ao receberem a notícia da derrota fazem lembrar outras frases do Ulysses Guimarães:
“A única coisa que mete medo em político é a voz rouca das ruas.”