
Ontem, 25 de outubro de 2026, o bolsonarismo foi, mais uma vez, derrotado. A democracia venceu, e estamos diante de mais quatro anos de um Brasil minimamente ordenado. Espero, do fundo do meu coração, que esta minha premonição esteja correta.
Escrevo este texto na semana anterior ao segundo turno das eleições. Me encho de esperança, acompanhando de longe a movimentação nas redes sociais, as manifestações nas ruas, e tantas pessoas se posicionando contra o bolsonarismo. Direita, esquerda, conservadores, liberais. Honestamente, não sei qual será o resultado, mas posso prever o futuro do nosso país caso Flávio vença.
Um país governado por um sujeito que advoga a favor do assassino de uma menina de cinco anos, que apoia a milícia do Rio de Janeiro, misógino, racista. É inacreditável como o ódio ao PT abriu margem para que alguém assim concorresse à presidência do maior país da América Latina. Caso vença, terá grande vantagem, pois o Senado já conta com o PL como a maior bancada.
Flertar com a volta da ditadura militar é imperdoável. Pessoas foram mortas, torturadas, espancadas, estupradas, somente por discordarem do governo. Me espanta que, em sã consciência, alguém possa apoiar esse tipo de discurso.
Sou discípula da verdade, e no debate de sexta-feira, mesmo sabendo que haveria checagem de fatos, Flávio contou inúmeras mentiras. Isso é desrespeitoso com seus próprios eleitores, apesar de não crer que a verdade seja um norte para eles.
Um país governado por Flávio Bolsonaro corre o risco real de ver os direitos humanos limitados, o meio ambiente ainda mais destruído, as instituições enfraquecidas e a milícia com ainda mais espaço. Para o economista Joseph Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel, uma vitória de Flávio apresentaria sérios riscos para a economia brasileira – ou seja, este argumento tão utilizado por seus eleitores já não tem fundamento. Não é à toa que tanta gente tem se mobilizado para falar sobre o assunto. É impensável que, depois de tudo o que já vimos, esse seja um caminho. Nem toda mudança é para melhor, e, neste caso, seria uma verdadeira tragédia para o nosso país.
Ainda assim, mesmo que a minha premonição se confirme, não há festa completa. No primeiro turno, 47% dos votos válidos foram para Flávio e 45% para Lula. Um país partido ao meio, com dois lados que já não conversam, que se enxergam como adversários e não como conterrâneos. Que vivem em suas bolhas, e que acreditam cegamente no que o seu algoritmo entrega. Há, novamente, uma ruptura enorme entre os brasileiros, e, possivelmente, a extrema direita fará de tudo para deslegitimar esta vitória.
Derrotar o bolsonarismo nas urnas é necessário, mas não suficiente. É preciso seguir tentando dialogar com quem foi capturado por essa ideologia. Ser de direita é legítimo, e a democracia depende de uma direita que respeite as regras do jogo. O que precisamos enfrentar é o bolsonarismo: o culto ao ódio, à negação dos fatos, à nostalgia do autoritarismo. Por isso, não basta vencer e virar as costas, pois muitas dessas pessoas foram enganadas por quem lucra com a mentira. Se não agirmos, o abismo continuará cada vez maior, e o bolsonarismo se fortalecerá ainda mais nos próximos quatro anos.