
A gente viaja para conhecer lugares. Paraty, por exemplo, tem a Ilha Rasa, a Praia São Gonçalo, os fiordes no Saco de Mamanguá, que nada devem em beleza aos escandinavos. A lista indescritível esgotaria uma crônica que não prioriza o lugar, mas a gente. Viajar também é encontrar pessoas, e cada pessoa é um estoque de muitos lugares.
A Marcinha, por exemplo. Ela trabalha na Pousada Maris, a uns quinze minutos do Centro Histórico, outro lugar divino para humanos, em Paraty. Mas não é a caminhada sob o sol que faz ficar na pousada: a caminhada costeia o rio que leva ao mar, é outro lugar divino. Quem faz ficar é a Marcinha. Não somente pela sua arte de preparar uma tapioca, uma banana caramelizada, um iogurte com granola. É muito mais o que ela diz.
No primeiro dia, ela não disse muito. Acho que estudava a capacidade dos nossos ouvidos.
No segundo dia, quando os sentiu operantes, ela disse que o medo não evitava que se fizesse uma treta de novo. Era isso que o diferenciava do respeito:
– O respeito é que encerra o assunto.
Quando a Marcinha diz uma coisa dessas, parece até que as maritacas param para ouvir. E ela continua falando, fazendo jus ao seu apelido de maritaca, essa que não fica quieta.
Ainda bem! Não vou descrever as falas dos outros dias que isso também esgotaria uma crônica que não prioriza a quantidade. Mas foi no último dia que a Marcinha largou aquela epifania que parecia estar sendo polida a cada noite. Falávamos sobre uns moradores de rua da cidade. Ela contava que vinham de fora, não sabiam seus nomes, quem eram. E a maioria dos habitantes os evitava.
Não a Marcinha. Certa vez, encontrou um na rodoviária. Conversou com ele, soube que havia sido um advogado de cidade grande. Que caiu no vício do álcool e de outras drogas, que abandonou a família, de tanta vergonha. O policial, amigo da Marcinha e pronto para uma cacetada, passou por eles e perguntou se ela estava sendo importunada. Pelo contrário, a Marcinha respondeu. O homem se sentiu tão grato que abraçou a Marcinha, que se deixou abraçar. E foi criticada pelas amigas que passavam por ali:
– Cruz credo! O homem fede…
Foi aí que veio a epifania:
– A sujeira do corpo a gente tira num banho. A da alma é que não dá para tirar.
Naquele dia, a Marcinha pagou um lanche para o homem. Mas, ontem, não conseguiu provar ao filho que ela havia conhecido um escritor convidado da Flip, e que o tal escritor achava as suas histórias melhores do que as de seus livros. Então, dei um livro meu para a Marcinha levar ao filho e provar que eu existo.
Escritores de todos os gêneros têm aos montes na Flip de Paraty. Difícil, senão impossível, será provar que uma só Marcinha existe. Essa crônica existe para isso.