
Nos últimos dias, todo mundo tem andado nervoso pela rua; a chuva e o vento, e os estragos causados por ambos, têm sido assuntos obrigatórios em toda a conversa que se tem. Nuvens cinzas no céu, umidade acima do desejado, o calor fora de época, a consulta à previsão do tempo pela manhã e à noite, a atenção constante aos avisos da Defesa Civil do estado e do município, a angústia no peito, a ansiedade lembrando o que se viveu e o que se pode voltar a viver.
Parte 1 – Dai a César o que é de César
Há meses tivemos o anúncio de um Super El Niño. Lembrando que o El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Esse aquecimento altera padrões de vento e chuvas em escala global, com efeitos opostos em diferentes regiões do Brasil. Ou seja, ele nada tem a ver com aquecimento global.
Por causa da ação humana, com atitudes como a queima de combustíveis fósseis, desmatamento e pecuária, o planeta vem aquecendo. Então, o El Niño se cruza com tudo isso, intensificando e ampliando seus efeitos num clima cada vez mais desequilibrado.
Acho importante esclarecer isso porque tenho lido muita coisa por aí justificando o Super El Niño, coitado, como o vilão da história. E ele não é. Somos nós, espécie humana.
Parte 2 – As inundações de 23 e 24
Pouco se fala ou se lembra, mas, antes da inundação de 2024 no RS, tivemos a de setembro de 2023, que deixou cerca de 359 mil atingidos, 5 mil desabrigados e mais de 21 mil desalojados, além de 54 mortes e 4 desaparecidos. Foi o terceiro maior desastre natural no Rio Grande do Sul em número de mortes, atrás somente das enchentes de 1959 e das enchentes de 2024.
Oito meses depois, já no final de abril e início de maio de 2024, teríamos a pior catástrofe climática até hoje vivida no estado. No dia 20 de agosto, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul reportou 183 mortes. Ao todo, 478 municípios gaúchos foram atingidos por inundações, quedas de barreiras e deslizamentos de terra. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas pelos efeitos das chuvas nas regiões Central, dos Vales, Serra e Metropolitana de Porto Alegre, sendo que mais de 442 mil moradores tiveram que deixar suas residências (cerca de 18 mil em abrigos e 423 mil desalojados). Mais de 640 mil residências tiveram o abastecimento de água cortado e mais de 440 mil clientes ficaram sem energia elétrica. Ocorreram bloqueios em dezenas de pontos nas estradas estaduais por deslizamentos de terra, inundações, destruição da pista ou rompimento de barragens e queda de árvores. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estimou que as enchentes causaram prejuízos de 4,6 bilhões de reais, principalmente no setor habitacional, enquanto a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) classificou a catástrofe como o maior sinistro do setor de seguros provocado por um único evento na história do Brasil, com mais de 1,6 bilhão de reais em pedidos feitos por segurados até 27 de maio. Não à toa, ocorreu um movimento migratório para fora do estado em decorrência desses eventos climáticos.
Perto de mim, tive duas famílias de primos com suas casas totalmente alagadas, hospedei na minha casa por um mês uma amiga e sua tia idosa que tiveram suas casas interditadas e o falecimento do pai de uma amiga em decorrência da inundação. Desconheço no RS quem não tenha um conhecido ou parente sem uma história dessa catástrofe.
Agora, com a previsão da chegada do Super El Niño, a memória e as emoções vividas desses fatos retornam à nossa população.
Parte 3 – A população idosa
Conforme dados do Relatório Mundial de Idadismo da Organização Mundial da Saúde, as pessoas idosas são um grande e crescente grupo afetado por emergências, incluindo catástrofes naturais e conflitos. Além disso, também, conforme estudos, estão entre os grupos que recebem os menores fundos humanitários para atendimentos das suas necessidades.
Quando ocorreu a catástrofe de 2024, não existia uma estrutura adequada no estado e, em particular na Capital, para atendimento na medida da urgência e emergências que surgiram para a população em geral. E, apesar de o RS ser o estado com a maior proporção de idosos no Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, este grupo não foi contemplado com nenhuma estratégia específica.
Parte 4 – O Abrigo Emergencial 60+
Entendendo as necessidades próprias das pessoas idosas e percebendo que isso não estava sendo contemplado em nenhum espaço de abrigamento, foi criado pela sociedade civil o Abrigo Emergencial 60+, que funcionou de 17 de maio a 23 de agosto. Nesse período atuou em quatro frentes de trabalho, entre elas acolhendo 61 pessoas com situações de saúde complexas (das quais encaminhou 42 para suas casas ou outros espaços), encaminhando doações para instituições de longa permanência de pessoas idosas atingidas pelo desastre em seis municípios do estado. Clica aqui e assista ao documentário de 17 min no YouTube.
Parte 5 – O que aconteceu?
Os primeiros resultados da pesquisa que está em desenvolvimento pela Dra. Michelle Bertoglio Clos, “Impacto social, medidas de apoio pós-desmobilização e avaliação de políticas públicas de proteção à população 60+ no contexto de desastres climáticos”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver, foram divulgados.
A pergunta que orienta esta pesquisa é: “O que aconteceu com as 61 pessoas que foram acolhidas após a desmobilização do Abrigo?”
De acordo com o relato da Dra. Michelle, “os dados preliminares indicam que parte das pessoas idosas não recebeu apoio compatível com suas necessidades no período posterior ao encerramento do abrigo. As trajetórias identificadas até o momento apontam dificuldades relacionadas ao acesso continuado a serviços, à reconstrução de projetos de vida e à retomada da autonomia em contextos marcados por perdas materiais e emocionais”.
Michelle Clos continua: “Os primeiros achados da pesquisa revelam uma realidade complexa. Dos 61 acolhidos, foram localizados, até junho de 2026, seis idosos em situação de rua, oito residentes em instituições de longa permanência, quatro em domicílio e quatro falecidos. A identificação de óbitos ocorridos nesse período reforça a importância de compreender como se deu a transição entre a proteção emergencial e as ações de recuperação e reconstrução da vida cotidiana”.
Essa pesquisa continua e novos e diversos resultados virão ao nosso conhecimento, pois ainda há vários aspectos a serem observados e avaliados, porque a “reconstrução envolve dimensões da pessoa idosa que vão além da moradia: acesso à saúde, renda, assistência social, convivência comunitária e suporte psicossocial”.
Parte 6 – Checando a angústia
Outro dia, enquanto falávamos sobre o clima, conversava com um motorista de aplicativo sobre a revolta com relação aos danos da inundação em Porto Alegre, que persistem até hoje, e ele me relatava a respeito de uma estrada na China que havia sido reconstruída em 45 dias.
Ele também me contava que havia tido a casa destelhada durante a inundação e de uma senhora, já bem idosa, que, naqueles dias, havia levado para o médico e dito que andava doente por causa das notícias sobre as chuvas, já que estava morando com o filho e a nora porque tinha perdido sua casa na inundação, ficando sem condições de reaver seu único patrimônio.
Juntos trocamos nossos sentimentos de tristeza e compaixão por todos que sofreram, ainda sofrem e sofrerão por causa de desastres climáticos enquanto ainda não fizermos nosso dever de casa.