
Eu devia ter contado esta história durante a Copa, mas só me lembrei dela agora. E, como não é bem uma história da Copa e sim da Feira do Livro, que ainda não chegou (lamento, vocês aí, usurpadores do centro do país, mas quando se fala em A Feira do Livro, estamos falando da de Porto Alegre, não desse evento hypado leite com pera de vocês…). E não estou disposto a esperar até novembro, correndo o risco de esquecer a história de novo…
Bom, como eu dizia: Feira do Livro. Embora eu já tenha contado (neste texto) que minha relação pessoal com a Feira se confunde com a minha trajetória em Porto Alegre, só fui participar de uma cobertura jornalística do evento em 2002. Na época, eu ainda não fazia parte da equipe fixa que lidava com Cultura no “maior jornal do Sul do país”. Naquele tempo, a responsável pela área de livros era a escritora Cíntia Moscovich, e eu trabalhava na editoria de esportes, como setorista de Internacional. Como a Cíntia precisou se ausentar bem no período da Feira, abriu-se na equipe montada para a cobertura uma vaga para um repórter a mais, emprestado de alguma outra seção do jornal. Minha amiga Camila Saccomori sugeriu o meu nome para a então editora-executiva, Cláudia Laitano, e foi assim que eu acabei passando aquela quinzena no vaivém entre a redação e a Praça da Alfândega.
Naquele ano, como o jornal havia vendido uma cota de patrocínio, a cobertura saía em um caderno à parte (lamento furar a bolha de vocês, idealistas, mas o patrocinador é o fator decisivo real na escolha se algum evento será abordado no cada vez mais magro espaço editorial ou se será alvo de um projeto especial à parte). No dia 12 de novembro daquele ano, já quase no fim da Feira, estava marcada uma sessão de autógrafos com potencial de juntar gente: o técnico Luiz Felipe Scolari, que havia treinado a Seleção vencedora do Penta uns poucos meses antes, estaria em Porto Alegre para autografar, ao lado do Professor Ruy Carlos Ostermann, o livro Felipão: a alma do Penta, sobre a trajetória da Seleção naquele Mundial.
A obra mesclava trechos de um diário mantido por Felipão durante a campanha do Brasil na Copa da Ásia com a biografia do técnico escrita pelo próprio Ruy – que vinha a ser também o patrono daquela Feira de 2002. O livro já havia tido um lançamento em setembro, mas a presença do técnico Campeão do Mundo em plena Praça da Alfândega dava àquela sessão de autógrafos nova feição.
Negociação
Dada a minha procedência esportiva numa editoria em que, na época, eram poucos os que gostavam de futebol, não houve muita dúvida sobre quem ficaria responsável por acompanhar aquela história. Aquela prometia ser uma das sessões mais concorridas da Feira – e de fato foi. Felipão começou a autografar às 17h22min. Eram outros tempos, de uma Feira mais paroquial, com seu pavilhão de autógrafos instalado exatamente no centro geográfico da Praça. No horário marcado para a sessão, 17h – Felipão se atrasou em um compromisso anterior, em Canoas – a fila se estendia como uma gorda jiboia em direção à estátua do Marechal Osório e prosseguia implacável até acabar na Rua da Praia, quase em frente ao Clube do Comércio. Felipão só saiu da mesa às 19h30min, e ele e Ruy quase não tiveram chance de trocar uma palavra – autografavam direto na capa do livro e já iam para o próximo, como numa linha de montagem. Por parte da imprensa situada ali perto, cotovelaços, pisões de pé, um empurra-empurra selvagem para tentar se aproximar do pavilhão congestionado.
Mas tudo isso foi com Felipão já em Porto Alegre. Antes, havia que falar com ele para a matéria de capa do próprio dia 12 de novembro, dia da sessão de autógrafos. Depois de tanta negociação com agentes e assessores, que por um momento parecia que estávamos tentando falar com o presidente da República, nos foi passado na tarde do dia 11 de novembro o número de telefone de um hotel em Buenos Aires, no qual Felipão estava hospedado se preparando para uma conferência que faria a convite da Associação Argentina de Técnicos. O combinado era ligar às 19h em ponto e gravar o que ele falasse para uma entrevista ao estilo “pingue-pongue”, como chamamos no jargão jornalístico essas entrevistas longas publicadas no formato pergunta e resposta. Como eu já tinha uma certa experiência de setorista de esportes, contudo, sabia de antemão que o sucesso da empreitada dependia do sempre inconstante humor do entrevistado. Foi com esse espírito de esperar um desastre que me preparei para fazer a ligação.
Quem mandou ligar?
O telefonema foi feito pontualmente. Felipão atendeu com aquela candura de sempre, bem conhecida por quem acompanhava, ainda que de longe, o noticiário esportivo:
– Estou saindo do banho. Quem mandou ligar agora?
Vocês da nova geração que não gostam de falar ao telefone nunca terão essa marcante experiência de ligar para um entrevistado no horário marcado pela própria assessoria do cara e ser recebido com alguma patada porque ele esqueceu ou porque o assessor não se certificou de que o ilustre indivíduo detinha a informação correta. Pensando bem, melhor para vocês.
Bom, após ser atendido com tamanha simpatia, este seu colunista, do outro lado da linha, insistiu que foi a própria assessora que havia nos passado o número e também havia determinado o horário, o que não serviu nem para amenizar o tom nem para fazer Felipão falar comigo. Perguntei, então, se poderia ligar em 10 ou 15 minutos para conversarmos sobre o livro. A resposta veio gotejante da bonomia e da boa vontade próprias ao treinador Scolari:
– Mas, de jeito nenhum. Tenho de me preparar para uma palestra agora na Associação de Técnicos, não tenho como pensar nisso agora. Feira, só na hora.
Expliquei outra vez que, para nós, seria importante falar com ele, nem que fosse em outro horário. Era importante ter alguma palavra do treinador sobre o livro e seus bastidores.
– Isso aí foi ideia do Ruy, ele que me disse para ir mantendo o diário. O livro é do Ruy, eu sou só convidado. Eu sou técnico de futebol, não escritor, escritor é ele. Fala com ele. Tenho de ir.
Tentando agarrar-se àquele fiapo de conversa – ainda que enviesada –, perguntei algo que pudesse amenizar o clima e fazer o entrevistado abrir-se um pouco mais para as próprias recordações. Afinal, Felipão fora um residente ilustre de Porto Alegre quando treinara o Grêmio em 1987 e entre 1993 e 1996: “Mas e a Feira? O senhor, quando morava aqui, frequentava a feira?”
– Sim, eu ia. Costumava passear lá. Agora, tchau, que eu tenho de ir.
Pautas
Hoje dirigente de alguma coisa que eu não sei o que é no Grêmio, Felipão na época não andava com paciência para falar com a imprensa. Como seu temperamento turrão e sua bem-conhecida xucrice o haviam transformado em um alvo de pesados ataques da imprensa esportiva (não apenas a do Centro do país, diga-se), o fim da narrativa com a triunfante conquista da Copa para ele já estava ótimo. Ele não deu muitas entrevistas imediatamente após o título, já havia dito que não treinaria o Brasil tão cedo outra vez. Ao mesmo tempo, o livro estava saindo e Felipão se rebelava, talvez, com a imposição comercial que a publicação representava quando ele já se considerava em outra. Como acontece com muitos supostos iconoclastas que conheci na minha carreira de repórter, essa rebeldia se voltou não para Ruy, que o havia convencido a ser coautor do livro, ou com o aparato de assessoria e divulgação que o demandava a dar entrevistas, mas ao elo mais fraco da corrente, o repórter que falou com ele. Vocês ficariam algo abismados de saber quantas vezes testemunhei ou vivi situações parecidas, independentemente da sofisticação pessoal ou do campo político do “rebelde” da vez…
Bom, dado o número e a extensão das frases ditas por Luiz Felipe ao longo da conversa, a suposta ideia de um “pingue-pongue” havia desabado mais rápido que a zaga da China ao enfrentar Rivaldo, Roberto Carlos, Ronaldo e Companhia na Copa daquele ano. Não havia como “derrubar a pauta”, para usar outro jargão do ofício usado para definir aquele momento em que você desiste de um assunto porque ele não “rendeu” – seja porque aquilo que se queria comprovar não foi comprovado, seja porque o entrevistado não está a fim de falar.
A questão é que esse é o tipo de coisa que você não pode fazer com todas as pautas. Algumas sim. O editor manda um repórter para a rua com a atribuição de calcular a probabilidade matemática de um avião cair na cabeça de alguém em plena rua (exemplo real ocorrido na época da queda do Fokker 100 da TAM em São Paulo, em 1996. Felizmente não foi comigo, porque o meu colega, que recebeu a pauta e sempre foi um repórter melhor do que eu, simplesmente foi lá e conseguiu fazer a matéria. Quando a pauta surge de uma ideia interna da própria redação para avaliar se uma impressão empírica realmente se constitui em um fato, é mais fácil que ela “caia” (dependendo também do grau de autoritarismo e preparo do editor e do tamanho do buraco a ser preenchido na edição daquele dia, claro – nada pior do que convencer um editor sem matéria de gaveta a renunciar ao texto que ele já tinha programado para ocupar quatro colunas em uma página).
Mas, como eu dizia: quando a matéria se refere ou é construída em torno de um fato noticioso, a coisa muda de figura. A sessão de autógrafos estava marcada, constava da revista da programação da Feira, e a presença em Porto Alegre do técnico da Seleção, que havia conquistado o Penta meros quatro meses antes, era um assunto palpitante, independentemente das agruras do repórter (uma lição que eu gostaria de deixar disso tudo aos “jovens jornalistas”, como falam caras mais velhos do que eu, é de que o leitor/espectador/ouvinte não está interessado no trabalho que você teve para obter a informação, logo você não deveria ficar fazendo propaganda dele, como vejo a gurizada nos TikToks da vida).
A questão é que, depois de Gay Talese, você não tem mais desculpa para não fazer a matéria só porque o principal personagem não falou direito com vocês. Em seu histórico de perfil, Frank Sinatra está resfriado. Ele seguiu Sinatra à distância por uma semana com a promessa de que o instável cantor, perturbado por uma gripe, falaria com ele no fim do processo, o que não aconteceu. Então Talese simplesmente fez um perfil polifônico, juntando fragmentos de pontos de vista de outros sobre Sinatra e narrando o que viu ao longo daquela semana observando o cantor. O resultado é um dos textos mais célebres da história do Jornalismo. Você acha que o texto que eu fiz sobre o Felipão e seu livro é digno desse exemplo e estou me comparando com ele? Claro que não, o que você anda fumando?
O que estou admitindo é que me inspirei no truque do velho Gay para contornar minhas dificuldades. Em vez de um “pingue-pongue”, um texto narrativo jornalístico padrão. Em vez das declarações do Felipão sobre o que motivou suas reflexões, narrei a entrevista falhada um pouco como está aqui, contando exatamente o motivo da pressa do treinador, o laconismo do entrevistado, sua reticência em ser um autor na praça dos autógrafos (embora eu tenha sido na época menos sarcástico com sua personalidade tosca do que nesta crônica escrita mais de vinte anos depois – e aí fica outra possível dica minha para os “jovens jornalistas”: não caia na armadilha de achar que suas opiniões são importantes durante uma matéria. Quer dar opinião, abra um espaço para isso. O texto jornalístico é para ser primariamente narrativo – e interpretativo quando possível, mas sem firulas pessoais).
Eu não entrevistei duas dezenas de pessoas para compensar o laconismo do Felipão, falei só com o sempre gentil professor Ruy (leia aqui), que forneceu os subsídios dos bastidores do projeto e me deu o que eu precisava para um texto de perfil mais trabalhado e menos cru. Com mais algumas fotos retiradas do próprio livro, estava pronto o texto.
No fim, penso que foi melhor assim. Para fazer a entrevista, eu li o livro na época e, do que consigo me lembrar, tenho a impressão de que Felipão não tem o mínimo talento para a reflexão introspectiva. Suas anotações são banais, versões rasas dos discursos motivacionais que devia passar para a equipe nos treinamentos – e que, coloridas pela sua personalidade carismática, deviam ser bem melhores do que a versão da página impressa. A parte escrita por Ruy, no conjunto, era competente, mas ficava um pouco engessada por precisar alternar o espaço do livro com as anotações de Felipão que não servem sequer para o papo dos coaches contemporâneos, embora nascessem provavelmente da mesma mentalidade. Não havia nada que Felipão pudesse dizer sobre o próprio livro que não pudesse ser dito pelo próprio Ruy – o que, no fim, confirma um pouco a apreciação do próprio técnico. Veja só.
P.S.: Comecei essa crônica porque me lembrei da história, simplesmente. Mas calhou de que, enquanto eu a redigia, foi anunciado o nome da escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima como patrona da 72ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre, primeira mulher negra a ocupar o posto. Deixo meus parabéns e celebro a escolha, mas não tenho como comentar muito mais do que isso, porque o trabalho da autora é voltado a livros infanto-juvenis, e eu não sou mais o público ideal para esse tipo de literatura há décadas.