
Desde menina, tento pôr ordem no mundo. No meu, é óbvio. Mundo de festa do interior até os meus quinze anos e, no apê, depois deles. Nunca mais morei em uma casa depois que saí da minha cidade. Sonhei com uma durante anos. Com pé-direito alto, térrea e com jardim na frente, dos lados e atrás. Uma casa cercada de grama, meio uma ilha para quem morre na praia continuar vivendo.
Diversas vezes, morri na praia. Algumas vezes, fui morta. Está lá Helena estendida no chão, eu me disse em cada uma delas. Uma fala difícil e necessária para poder recomeçar. “Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido”, tocava nas rádios quando eu era menina. E, ainda que eu vivesse distante da finitude de que ela tratava, de algum modo, eu a sentia ou pressentia.
Fui uma criança sensível. Sou uma mulher sensível. Sensibilidade é a minha maior virtude e talvez o meu pior defeito. Já foi usada contra mim. De unilateral, por exemplo, a chamaram em um momento desses em que a pessoa, ancorada não sei em quê, se sente no direito de erguer a violência e a voz. “Erguer a voz é derrubar a razão e, por tabela, o amor e o que ele traz de bom”, ouvi meu pai falar para um amigo que maltratava e ridicularizava a esposa e o filho por serem sensíveis.
“Os sensíveis são simultaneamente mais felizes e infelizes que os outros”, Clarice Lispector escreveu em um conto. Não lembro qual. Nem quero. Ando me esforçando para ficar desmemoriada e esquecer um bocado de coisas. O estranho é que houve uma época em que eu achava que lembrar de tudo, fosse o que fosse, era imprescindível e necessário. Necessário para quê, hoje me pergunto. Para ser uma pessoa melhor? Melhor como, para e com que fim? O que a gente ganha se melhorando? O que a gente ganha, penso que é fácil de detectar e de saber. Mas e o que a gente perde?
Porque, sim, a gente também perde alguma coisa. Perda forçada, esquecimento induzido, quase arrancado. Há quem não suporte o desenvolvimento alheio, a paz alheia, a felicidade mesmo – inclusive a própria – e parta para o ataque e a destruição. De invejoso, algumas pessoas chamam esse padrão de funcionamento. De sabotador e de autossabotagem, idem. Tanto faz o rótulo. Rótulo é uma palavra que me incomoda. Uma palavra perigosa, um carro-chefe ou abre-alas na categoria dos adjetivos destrutivos, como os que dizem respeito à saúde mental das mulheres quando confrontam um homem.
Maria Clara, a Clarinha, narradora do meu livro Bonequinha de Lixo, lá pelas tantas, elenca alguns adjetivos que seu pai usa para, psiquicamente, desqualificar sua mãe. Na verdade, faz uma lista considerável. Eu faço uma eterna. E coloco o verbo no presente porque uma parte dos homens segue nos chamando de loucas. Uma fala machista e estrutural, como a racista e a homofóbica, e que me ofende muito por diversos motivos, sendo relevante o de que cuidei da minha cabeça com uma renomada profissional. Sou uma pessoa que se enfrentou em um longo e trabalhoso processo de análise até ter alta.
Porque, sim, a gente recebe alta. A gente e a nossa autoestima recebem. E aí não é que a gente não sofra e nada nos alcance e a gente não se equivoque. A vida segue acontecendo com todas as suas surpresas, fragilidades e imprevistos. Acariciando e ferindo. O que não segue sempre igual, ou melhor, quem não segue preso a repetições, neuroses e traumas somos nós. Depois que alguém se analisa, as respostas dadas à existência e aos existentes não saem mais do piloto automático e da dificuldade de ver uma situação, os envolvidos e a nós próprios sob outros pontos de vista. Pelo contrário. Depois que alguém se analisa, as respostas vêm de filtros e de escolhas conscientes.
“O homem não é nada mais do que aquilo que ele faz de si mesmo.” — Jean-Paul Sartre, disse em O Existencialismo é um Humanismo. Gosto mais da Simone de Beauvoir do que dele. O Segundo Sexo foi o primeiro livro feminista que li, um portal crítico valiosíssimo. Tê-lo lido fez enorme diferença. Mas, por essa frase do Sartre, tenho adoração.
*Título inspirado em Guimarães Rosa