
Perseverar é diferente de insistir. Não que insistência não seja algo positivo. Depende muito do contexto. Quando a pessoa passa a ter de forçar a barra, não recomendo. Aí, vou pela cartilha da narradora de A Paixão Segundo G.H., da Clarice Lispector, apostando também na desistência como uma espécie de revelação e de atestado de minha condição humana e de minha vontade de ir sempre um pouco mais além de mim mesma dentro da lógica, é claro, de que é para frente é que se anda.
Há uns dez anos ou um pouco mais, época em que eu vivia um momento desafiador, vi, no programa do Jô, uma entrevista com o professor e filósofo Clóvis Barros Filho, em que ele dizia que para trás não dava um passo nem para pegar impulso. Frase que eu precisava, por estar hesitante, ouvir. Entendo que ele falava no sentido de se manter determinado em algum objetivo, evitando recuos desnecessários, porque evidentemente que alguns são imprescindíveis.
Recuos, mudanças de direção, de planos e metamorfoses, voluntárias ou não, fazem parte da existência. Sei que tem quem consiga levar, e queira, o mesmo estilo de vida sempre. Pessoas do tipo que, se não conseguem mudar nem o corte de cabelo, imagina padrões de comportamento ou de pensamento, o que não é o meu caso, ainda que eu seja fervorosa defensora da estabilidade emocional e lute pela minha como luto também pela Literatura, por direitos sociais mais abrangentes e pela democracia, três pilares fundamentais para o desenvolvimento, em amplo espectro, de qualquer um de nós e de nossa inteligência.
Inteligência é uma capacidade e uma potência que, quanto mais se usa, melhor fica e a que mais nos coloca em posição de vantagem em relação aos outros animais, exceto aos cães. Os doguinhos, convenhamos, fazem gato e sapato conosco. Talvez, os gatos também. Não sei. Nunca fui gateira. E gosto de gatos. Gato, no campo semântico, assim como cachorro, pode significar coisas boas e também más. Quando representante de uma conexão clandestina, por exemplo, de eletricidade, boa coisa esse gato não é. Já se for usado para adjetivar alguém, desde o tempo em que eu era menina, é um elogio.
Na minha adolescência, minhas amigas e eu costumávamos nos referir aos adolescentes do gênero masculino até como supergatos. De vez em quando, surgiam os gatinhos. Eu pessoalmente nunca fui de falar no diminutivo. Não vejo como uma forma de afetividade e de intimidade. Para ser sincera, não vejo nada relevante. Vai ver porque é ‘apequenador’, palavra não registrada nos principais dicionários da Língua Portuguesa, mas cem por cento instalada no meu léxico. Em meu léxico, tenho minhas palavras favoritas. Monto, há anos, uma lista com elas. Diversas vezes, a li para me sentir melhor. As palavras agem sobre nossas emoções.
No presídio em que trabalhei, no primeiro encontro com as mulheres privadas de liberdade, disse a elas que escrevessem em seus cadernos as suas dez favoritas. E elas foram mais úteis que eu imaginara. Nos momentos em que alguém entrava em algum tipo de sofrimento ou estava a um passo de se desestabilizar, eu interrompia o que estivéssemos fazendo e falava para que escrevessem uma frase com uma palavra das que queriam bem. Exercício que eu cumpria junto. Como no livro Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, da J.K. Rowling, eu li todos os sete livros da série, os dois últimos em inglês por não aguentar a espera pelas traduções, conjurávamos um patrono de letras antidementador.
Para quem não leu os volumes do Harry Potter ou não viu os filmes, explico que um dementador era uma criatura sem alma, das trevas, que sugava a felicidade humana. Eu quero imenso bem à felicidade e às palavras. São poucas as que me embrulham o estômago, como estupro, feminicídio, infanticídio e outras que prefiro não elencar para não contaminar este texto. E quero também imenso bem a textos. Por isso, escrevo e por isso leio, não necessariamente nesta ordem, desde que me tornei adulta. Na infância, a gente começa a vida lendo. A escrita vem depois.
Todos os textos de Helena Terra estão AQUI.

