
A primeira cirurgia para implantar a peça corretiva na pata de Lola foi um sucesso. Eu e D. recebemos do veterinário R. todas as explicações. Tínhamos a medicação, as orientações e, sobretudo, uma tarefa que parecia bastante objetiva: fazer os curativos e evitar movimentos bruscos. Eu ainda pensava que o problema era essencialmente veterinário. Eu ainda não havia percebido que estávamos entrando em uma experiência de cuidado. E que faltava combinar com Lola.
É que cuidar de um animal é diferente de cuidar de uma pessoa. Quando se recebem procedimentos, paciente e cuidadores agem em comum. No nosso caso, nós tínhamos instruções e Lola tinha sua vida. Nós tínhamos um tratamento a fazer e ela tinha desejos, impulsos, curiosidade, tédio, inquietação e uma maneira própria de ocupar o mundo. Nós tínhamos um plano para sua recuperação, e ela insistia em continuar vivendo sua vida de Border Collie adolescente. Foi nesse espaço entre o que precisávamos fazer e aquilo que Lola queria fazer que começou minha experiência filosófica do cuidado.
Quando o cuidado começa
Fizemos um bate-volta de Cidreira para Porto Alegre no dia da cirurgia para não precisar levar Lola de um lado para outro nessas condições. Na casa da cidade, tudo era mais difícil, subir e descer andares; na da praia era mais fácil cuidar, mas os dias passaram a adquirir um novo sentido. Lola acordava cedo porque queria ir ao banheiro, que era assim que ela via o pátio de nossa casa de praia. Seu espaço a dois metros de distância no pátio era mais perto do que a pracinha mais próxima do apartamento, a duas quadras de distância. Lola passou a dormir no nosso quarto, enquanto a sala tornou-se seu novo ambiente. É uma sala pequena, com cerca de doze metros quadrados, onde há um sofá, um balcão, uma cadeira e uma lareira. No meio dela havia um tapete de dois metros por um metro e meio.
Aquele tapete se transformou no novo mundo de Lola. Eram “as quatro linhas da sua Constituição”, para usar a expressão de um político de extrema-direita que você conhece. Voltarei a este tema no final. Foi ali que percebi que o cuidado não é algo abstrato, não é só o conceito de Boris Groys em Filosofia do Cuidado (Aynê, 2023) de Boris Groys. Quando se cuida, cuida-se de alguém. Um cão é esse alguém que tem um corpo que tem hábitos consolidados, como horários para suas necessidades, para se alimentar, brincar e descansar. Se tivesse de ligar ao pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, um cão é por natureza um animal desejante; o problema é que tudo o que o veterinário nos pediu era ir na direção contrária de seu desejo. Luigina Mortari, em Filosofia do Cuidado (Paulus, 2018), afirma que o cuidado não acontece só quando estamos doentes, mas é o modo como sustentamos nossa própria vida e daqueles que estão ao nosso redor, como Lola. Só se vive porque cuidamos uns dos outros; sem cuidado, a vida não pode existir.
Um eterno cuidado
Isso diz muito da relação que eu e D. temos com Lola. Tudo o que sempre fizemos, além das brincadeiras, já era isso: alimentá-la, dar banho, vacinas, tudo já era a prática de nosso cuidado. Mas as regras eram claras: Lola não podia correr, não podia pular sobre nós, não podia tomar impulso para subir no sofá. Só nós sabíamos disso. Ela, aparentemente, não. Tudo o que podia fazer era observá-la e, como ensinou o adestrador, antecipar-me aos seus movimentos, antecipar-me aos seus desejos. Estou levando-a ao pátio pela manhã. Ouço o barulho da moto do entregador e sei que ela vai se agitar.
Eu então a levo para dentro de casa para não tentar correr. Uma visita chega e precisa ser planejado o seu contato com Lola: ela vai querer pular na visita – é um cachorro, é assim que demonstra afeto. Preciso cuidar para que a visita não chegue perto demais, rápido demais. Algumas vezes fracasso. Se posicionou em frente ao sofá da sala? Ela quer pular. Melhor segurar. Ela é do ano de 2025, mas parece que nasceu em 1999 ouvindo a música “Vamo Pular”, lançada pela dupla Sandy & Júnior em seu álbum As quatro estações. A dupla já nem existe mais, mas é como se a ordem ainda movesse seu cérebro canino. Pudera: pular é sua forma de participar, de continuar sendo Lola. Sou seu cuidador: eu precisava evitar isso. E não tive sucesso nisso após a primeira cirurgia. É meu fracasso que irá levar à segunda. Fui tolerante demais para um cuidador, deixei alguns momentos de euforia passarem. Em algum momento, a peça colocada na pata quebrou. Não dá para projetar sobre o outro aquilo que pensamos que ele deveria sentir. Você precisa reconhecer que o cão com o qual você convive não é transparente para você.
Aprender a cuidar
O primeiro curativo após a primeira cirurgia foi difícil. Eu precisei ter coragem porque não queria causar dor a Lola, que já estava fragilizada. Como foi o primeiro, olho e vejo o que é natural, que o curativo estava parcialmente grudado por uma secreção. Não tem jeito, mesmo com cuidado, sei que sua retirada provocou desconforto. Fui aprender depois com a IA: basta aquecer o soro fisiológico para evitar novo trauma. Precisávamos limpar a região com soro fisiológico e aplicar o medicamento indicado. Aprendi a fazer o curativo quase por engenharia reversa, desmontando o curativo feito pelo cirurgião, camada após camada. Não havia ali uma grande teoria, somente minhas mãos, a pata de Lola, os materiais sobre a mesa e a necessidade de fazer aquilo da maneira menos dolorosa possível. Na linha de Marx, comecei a observar os instrumentos de trabalho.
É que, indo comprar material para fazer o curativo na farmácia, descobri que havia diferentes materiais, diferentes texturas. Algumas eram mais rústicas e mais baratas; outras, mais delicadas e mais caras. Descobri que pequenas diferenças produziam grandes efeitos: você paga por uma fita adesiva melhor para retirar mais facilmente depois; você escolhe um tecido mais delicado para deixar o curativo mais confortável. Foi então que compreendi outra coisa: cuidar é aprender. Aprender a olhar, aprender a sentir o couro pelo toque, aprender a escolher. Mas nenhum aprendizado foi mais importante do que aprender a esperar e a reconhecer limites. Existe um saber que nasce da atenção repetida, da observação do corpo, da convivência com um pet. Eu estava aprendendo de Lola. E, ao aprender dela, estava também aprendendo algo sobre mim mesmo.
O cuidado e a transformação de quem cuida
Lembro das ideias de Michel Foucault que estudei no curso de graduação em história. Nesta época, início dos anos 80, Foucault era uma referência nova para pensar poder, disciplina, vigilância, instituições e normalização. Li sua História da Sexualidade (Graal, 1978) e suas reflexões sobre como o sujeito se relaciona consigo mesmo: o cuidado de si aparece como uma prática de constituição do sujeito. É uma maneira de trabalhar sobre si: o cuidar de Lola, eu também aprendia que precisava cuidar de mim.
Bem, é claro que Foucault estava bem distante de mim. Ele investigava os séculos I e II da Era Cristã, e eu pensava no contexto de cuidador de um cão no século XXI. Se o “cuidado de si” foucaultiano contrastava com o “conhece-te a ti mesmo”, era porque, entre outros exercícios práticos, exigia exames de consciência. Eu me examino: eu sei que preciso controlar minha ansiedade, evitar reagir a cada movimento de Lola. Ela olha-me estranho? Pode estar com dor – e dava-lhe medicação; ela está agitada demais? Pergunto ao veterinário se posso aumentar a dose do calmante para receber um sonoro “não”. Tentava prestar atenção em cada movimento de Lola, mas prestar atenção, já afirma Byung-Chul Han, cansa. Não podemos prestar atenção a algo o tempo inteiro. Lola estava tentando me ensinar que eu precisava aprender a esperar; não era somente eu que organizava os hábitos dela, ela também reorganizava os meus. É isso que quer dizer Foucault: cuidado de si não é apenas preocupar-se consigo, é trabalhar minha maneira de existir em relação a Lola. O cuidado de Lola exigia um cuidado de mim, não exceder minha preocupação tomada pela ansiedade, o que não significava, contudo, que eu deva renunciar à condução de Lola, dos seus cuidados. É aqui que aparecia outro tema de Foucault, o problema do poder.
Cuidar é também exercer poder
Poder, sempre o poder. Eu precisava impedir que Lola corresse pela casa ou pátio, e para isso, precisava isolar ela em casa no espaço da sala, ao que ela, é claro, reage. Imagino que pensasse “Como assim, eu nasci para correr pelos campos e você me dá apenas sua sala?”. Eu precisava impedir que ela saltasse para o sofá da sala, onde costumava ficar deitada ao nosso lado e para isso precisava bloquear o sofá. Fiz com caixas de arquivo morto, o que talvez dissesse também que aquele espaço estava morto para ela, se ela soubesse para que eles serviam. Enfim, o colar elisabetano. Tem expressão maior de poder do que ele?
Coloco nela e eu sinto que estou de volta à crueldade do período absolutista. É como se estivesse no romance de Alexandre Dumas, no conto que virou filme, O Homem da Máscara de Ferro. A máscara esconde o homem que tem feições idênticas às do rei e representa o apagamento de sua identidade; eu coloco o colar elisabetano em Lola e apago o dela da mesma forma. É que ela é um animal visual e o colar lhe retira a visão; ela é um animal que depende de sua visão para olhar e antecipar o mundo ao seu redor, e o colar lhe retira tudo isso que é sua natureza, a apaga. Não é à toa que ela me dirige um de seus olhares mais agudos, em silêncio, quando faço isso. Diz-se que a máscara não era de ferro, mas de veludo preto, assim como meu colar não é desses de plástico transparente e duro; o meu é de um material mais macio. Eu preciso limitar que lambesse as patas. As patas! Imagino que pense: “Como assim – minhas patas, minhas regras”. Dou risadas. Para protegê-la, eu precisava organizar sua conduta. Cuidar aqui é cuidado ou exercício de poder? É isso o poder, é também a forma como organizamos o mundo e as condutas. Minha sala era essa pequena imitação do panóptico de Foucault: ela é sua cela, a exposição de meu olhar que tudo vê. Eu estabeleço aquilo que ela pode ou não fazer. Antes, lugar de liberdade; agora, uma prisão.
A prova é que o sofá foi proibido e o pátio passou a ser controlado. Nada mais de corridas nele, exploração de seus odores e cheiros. Agora o espaço de circulação foi reduzido e os horários dela nele modificados. O espaço onde ela fica foi reorganizado. Onde termina o poder e começa a proteção? É nisto que a situação é peculiar, inclusive para os foucaultianos como eu. Descubro que cuidado e poder não são necessariamente opostos, que cuidar exige exercer poder. Não é assim com a criação das crianças? A questão ética está em saber como esse poder é exercido, para quê, durante quanto tempo e quais são seus limites. Eu pensava, sobretudo, se existia alguma possibilidade de devolver ao outro – Lola – a liberdade que temporariamente precisava restringir. Tenho de colocar seu colar elisabetano sempre? O veterinário mandou usar sempre. Talvez não, desde que ela entenda que, se me contrariar, terá ele como punição. Eu uso quando vejo que ela está prestes a infringir nossas regras. E vamos assim negociando. Isto também é poder. É poder para cachorro!!
Entre uma cirurgia e outra
Depois da primeira cirurgia, a relação com Lola mudou. Não apenas devido a uma série de regras passadas pelo veterinário, que deveríamos atender, mas porque sua fragilidade exigia uma atenção diferente. Aqui, atenção é observar a evolução das feridas, as alterações no modo de caminhar. Mas há também alterações de humor que eu desconhecia. Eu tinha o veterinário R. e suas orientações, que ajudavam a distinguir nossa preocupação dos sinais de complicações. Mas havia uma diferença importante entre o conhecimento dele e o nosso. Ele possuía o conhecimento técnico. Nós possuíamos a convivência. Era nossa casa que Lola habitava, e não o consultório.
Foi quando vimos que, tão importantes quanto as prescrições veterinárias para o corpo, eram importantes as medidas para o cuidado do espírito. O espírito de Lola. Isso tinha um motivo de ser. Éramos nós que víamos como ela dormia, comia, caminhava, respirava, reagia às visitas e demonstrava tédio. Era conosco que ela estabelecia suas pequenas negociações diárias para ter sua vida de cachorro de volta. Ela nos fazia ver que suas necessidades emocionais continuavam. Comecei a perceber que o cuidado é necessariamente compartilhado. Não significa que veterinários e tutores saibam a mesma coisa, mas que possuem diferentes tipos de conhecimento sobre um cão. E é importante que eles se relacionassem entre si para benefício de Lola. O veterinário cuidava da ferida e nós observávamos a vida de todo o dia em que Lola, por sua vez, oferecia sinais que precisávamos interpretar.
A vulnerabilidade
Mencionei num ensaio anterior todo o caminho que levou de um diagnóstico a outro de Lola, o do veterinário R. E, olhando mais uma vez tudo o que aconteceu, me dou conta de que eu mudei de profissional não apenas por uma situação que me incomodou, mas porque, se eu precisava de uma nova avaliação, era porque cuidar também significa reconhecer a própria incerteza. Há algo profundamente ético em admitir: eu não sei. Veio a nova consulta, vieram os exames, veio a cirurgia e vieram os cuidados difíceis de controlar em um cão ativo, curioso e pouco disposto a aceitar limitações. Fabienne Brugère, em A ética do cuidado (Contracorrente, 2023), diz que parte de situações concretas de vulnerabilidade relaciona-se com a ética, política e sociedade. É por isso que cuidar de um cão também nos ensina algo de como viver em sociedade.
O cuidado não deve ficar confinado ao espaço privado, porque a vulnerabilidade e a dependência fazem parte da organização da vida coletiva. Isso me fez olhar novamente para Lola: ela estava tão vulnerável quanto nós. A vida coletiva de Lola éramos nós, sua família. Se nós dependíamos do conhecimento veterinário, também dependíamos de nossas condições, da casa e do ambiente com amigos e vizinhos para ter capacidade de realizar os procedimentos. Dependíamos uns dos outros, o que significa que, tanto no mundo em geral como no nosso, a imagem do indivíduo autônomo, completamente independente, perde sentido. Naquela casa, ninguém era plenamente autônomo. Havia uma rede de dependências. E talvez essa seja uma das coisas que o cuidado revela melhor: a dependência não é uma exceção da vida; ela é parte dela. Entende como, de alguma forma, isso se relaciona ao individualismo obsessivo do capitalismo?
A ferida e a espera
Uma das primeiras preocupações antes da cirurgia era uma ferida localizada na pata: temíamos dor e infecção. O veterinário R. explicou que a lesão seria tratada depois, como de fato foi. Até lá, era preciso manter os cuidados anteriores e não molhar o curativo. Estávamos na praia. Depois da cirurgia, a recomendação foi a mesma. Nas saídas no pátio, protegíamos a pata com um saco plástico para não molhar ou sujar e tentávamos impedir que Lola a lambesse. Observávamos tudo: seu apetite, sono, evacuação, respiração e disposição. Tudo normal, mas ela estava entediada. Eu via pelo seu olhar, o olhar que olha pelo vidro da janela o pátio que lhe foi retirado; eu via no olhar que se dirigia ao sofá da sala. Eram de tristeza e tédio.
O tédio também é uma experiência do corpo. Nosso e do cão. Nós pensávamos na ferida, mas ela experimentava as restrições. Nós pensávamos na cicatrização e ela na privação de correr. Entendo o seu olhar: proteger não poderia significar simplesmente imobilizar. Não tenho o direito de eliminar a vida para salvar o corpo. Tem de haver um meio-termo. Se preciso proteger o corpo para que a vida possa continuar, preciso também permitir o mínimo que faça a vida valer a pena. Lola não é um cão terminal, é um cão adoecido. Essa diferença parece pequena, mas é importante.
O cuidado como negociação
Depois da cirurgia, a rotina passou a ser a troca do curativo, a administração dos medicamentos e o controle dos movimentos. Aos poucos o cenário de dor foi passando e aprendemos a manipular os materiais com delicadeza. Eu perguntei ao veterinário se podia utilizar lidocaína para aliviar o desconforto, mas ele viu meu excesso de preocupação e disse que não era o caso. Isso me ensinou que cuidar não significa fazer tudo aquilo que imaginamos que possamos fazer. Às vezes, cuidar é conter o próprio excesso de iniciativa e reconhecer a autoridade técnica. Cuidar é aceitar limites.
É que eu era um tutor do excesso. Enviava todos os dias muitas fotografias para confirmar como estava a pata, se estávamos fazendo tudo certo. Isto era bom por um lado, pois permitia ao veterinário acompanhar a evolução da ferida, mas era ruim porque mostrava que, até ali, eu era controlado por minha obsessão da busca da sua cura. Tenho dezenas de fotos de uma pata em tratamento, e para quê? Para chegarmos à conclusão de quantas vezes era preciso fazer a troca da atadura por dia. Concluímos que uma bastava. Nós aprendemos a olhar e o veterinário entendia, por meio do excesso de imagens, nossas angústias e nos tranquilizava. O cuidado é uma rede.
O corpo que não aceita sua condição
Lola começou a apoiar a pata em alguns momentos. Dentro de casa, caminhava melhor. No pátio, ainda a levantava. Pensei em construir uma rampa para Lola acessar o sofá, sem sucesso. Tentei ajudá-la em suas necessidades, apoiando-a com uma toalha de sustentação. O veterinário explicou que ela precisaria adaptar-se gradualmente à nova condição e provavelmente não aceitaria esse tipo de auxílio. Foi outra lição. Eu queria ajudá-la, mas minhas boas intenções veterinário-caninas talvez fossem, para ela, uma interferência; era isso que queria dizer o veterinário.
É que Lola continuava querendo ser Lola, tentava sem sucesso saltar para o sofá e emitia sons de choro por não poder correr atrás do caminhão do lixo. Tentava levantar-se quando chegavam visitas, e isso mostrava sua enorme vontade de viver, mesmo com a cirurgia. E se esse desejo fosse maior do que nossa capacidade de discipliná-la? É que, enquanto nós pensávamos na doença, ela continuava pensando, por assim dizer, na sua vida de cachorro. Era preciso administrar não apenas a ferida, mas o seu temperamento. Por isso comecei a criar brincadeiras para Lola, para que, mesmo imobilizada, como ração em panos, em bandejas de ovos e outros objetos, para que ela ocupasse sua mente sem exigir esforço físico ou se estressar. O cuidado também é invenção.
Cuidado de si, cuidado do outro
Volto ao pensamento de Foucault sobre sua ética do cuidado. Não é incrível como, no cuidado com um cão, se concentra todo um universo de questões? O cuidado de si foucaultiano não é um “eu primeiro” como o do individualismo capitalista; ao contrário, é um caminho positivo de transformação. Cuido de um cão: preciso também cuidar de mim, o que significa adotar a boa forma da condução da relação de um tutor e seu cão. Só posso cuidar de Lola na praia porque é o melhor lugar para nós dois. Só posso cuidar de Lola se controlar não apenas a ansiedade do cão, mas também a minha por sua cura.
Cuidar para curar é uma relação com o tempo. Eu precisava aprender a esperar a orientação do veterinário, que não podia controlar tudo de seu mundo, afinal, é um cão. É uma experiência relacional, como afirma Brugère, o que amplia o pensamento de Foucault, porque não se trata apenas de perguntar como me constituo como sujeito, como defende o autor de História da Sexualidade: eu preciso perguntar sobre as relações que estabeleço com aqueles que dependem de mim, como exerço meu poder sobre eles e como reconheço sua vulnerabilidade. Não posso permitir que a dependência se transforme em submissão, como não posso permitir que o cuidado se transforme em dependência permanente.
As dúvidas do cotidiano
Os dias até a retirada dos pontos da primeira cirurgia foram passando. E não sem perguntas: a respiração ofegante significava dor ou efeito dos remédios? A pata estava inclinada demais ou era normal? E essa coloração rosada, o que é? Quando seria possível dar banho? Estou aqui longe das grandes questões da filosofia de minha formação. Será? É que o cuidado também envolve filosofia, mostra que as grandes questões do homem e do mundo – e do relacionamento destes com seus pets – aparecem nas pequenas situações. E eis que a filosofia que nos acostumamos a falar de liberdade, poder, vulnerabilidade e ética é capaz de pensar também uma pata ferida.
Certo dia, Lola retirou o curativo enquanto estávamos distraídos com uma visita. Ela lambeu e o local ficou mais vermelho e apresentou um pouco mais de secreção no dia seguinte. Ali estava um pequeno ferimento junto a um ponto. O que seria? Refizemos a proteção e enviamos novas imagens para o veterinário, que avaliou que, aparentemente, estava tudo bem. Isso é exatamente o que diz a filosofia do cuidado: ele é descontínuo, feito de imprevistos, simplesmente porque não há protocolo capaz de eliminar completamente os acontecimentos que podem suceder na vida de um cão. O cuidado é exigente: é uma prática de atenção permanente.
Quando cuidar se aproxima do controle
Já no consultório, o veterinário constatou como Lola era agitada. Era porque era jovem. Ele receitou um calmante para lidarmos com esse temperamento sem riscos para Lola. Percebi que Lola ficava ofegante depois de recebê-la e perguntei ao veterinário se a dose deveria ser reduzida. Era administrado apenas uma vez ao dia, pela manhã. Depois da segunda cirurgia, duas vezes ao dia e, ao final, retornou a meio comprimido duas vezes ao dia. Toda a medicação era colocada em frios para aceitação. Lembro-me de Nina quando a medicava. Ela parecia não querer a medicação, não queria sofrer seus efeitos das drogas e jogava fora, como se quisesse ser ela mesma. Lola aceitava sem reclamar e, por isso, volto à questão das diferenças entre proteção e controle. Se pudesse decidir, Lola tomaria a medicação?
Eu cuido de Lola: quero a recuperação de sua pata. Eu sei que ela quer também porque ela a lambe. Para isso, eu preciso administrar sua vida com horários para medicamentos e procedimentos, restrições e avaliações. Eu registro tudo. Este texto que você lê foi elaborado a partir das conversas de WhatsApp com o veterinário, só para mostrar que até as conversas com um profissional possuem inúmeras formas de interpretação. São as relações de saber e poder de que fala Foucault. O problema não está necessariamente em administrar a vida, mas quando sua administração substitui a atenção. O protocolo não pode ser mais importante do que aquele que deve ser protegido; não podemos deixar o sujeito desaparecer atrás do procedimento. Não foi isso que aconteceu quando o Governo Federal e outros órgãos públicos começaram a exigir responsáveis por políticas para idosos, uma série de exigências que eles não tinham condições de atender? Vale para Lola, mas vale para toda a sociedade: quando o sujeito desaparece atrás do procedimento, estamos ultrapassando as fronteiras. E isso, cada vez mais, é impulsionado pelo mundo virtual. Lola nos ajuda a entender que o que importa é o mundo real.
A segunda cirurgia
Dez dias depois da primeira cirurgia, voltamos a Porto Alegre para retirar os pontos. Mas o problema não estava encerrado. Agora, o veterinário constatou que a placa estava quebrada e era necessária sua retirada. Fim da filosofia, o mundo se impõe mais uma vez: novo orçamento, nova agenda, novo deslocamento entre a praia e Porto Alegre. E havia ansiedade que me levava a perguntar se não seria melhor Lola ser internada para tratamento intensivo, porque eu tinha medo de não conseguir controlar sua nova recuperação em casa. Se quebrou, eu falhei, penso. O veterinário retomou sua filosofia: esse é um tratamento que depende da ação dos médicos, dos tutores e do próprio cão. Gostava de seu otimismo, procurava a melhor alternativa. Afastar o pessimismo de fato afastava um pouco a possibilidade de dar errado. É preciso contar um pouco com o Universo, o Destino, ou Deus, como você queira chamar.
Na véspera da nova cirurgia, Lola estava ativa e bem. Mas, sem o remédio que a acalmava, ela ouviu o caminhão do lixo e disparou pelo pátio. Eu fiquei sem saber o que fazer, pensando na placa. Mas ela já estava quebrada, havia dito o veterinário quando retirou os pontos. É que você é um tutor que ama seu cão: na hora pensei na possibilidade de o metal deslocar-se ainda mais, furar seu couro, o pior. Verifiquei depois que havia sido puxada, mas não havia sangramento significativo. Mais uma vez, Lola me lembrava de algo que o pensamento sobre o poder também deveria ensinar: não controlamos completamente aquilo que queremos governar. A segunda cirurgia aconteceu em 11 de agosto. E tudo recomeçou.
A casa como espaço de cuidado
Depois da segunda intervenção, reduzimos as saídas ao mínimo necessário. Percursos mais curtos e com guia. Sem contatos com amigos ou vizinhos. Era preciso cuidado até com a própria proteção, pois uma bandagem excessivamente apertada ou abafada poderia ser um problema. Na primeira troca da bandagem da segunda cirurgia, como na primeira, havia secreção, principalmente na gaze em contato com a ferida. Fizemos o procedimento com soro morno e esperamos o momento de maior efeito do analgésico, e assim a troca foi mais tranquila. Nós havíamos aprendido. Não éramos mais as mesmas pessoas que haviam feito o primeiro curativo. O cuidado produz conhecimento, não abstrato, mas incorporado e aprendido pelas mãos, pelo olhar, repetição e atenção.
Nossa casa foi sendo reorganizada. Lola permanecia principalmente na sala e voltou a dormir no quarto conosco. Só circulava por pequenos espaços protegidos e reduzimos seu acesso à cozinha. Durante o dia, retirávamos o colar elisabetano quando podíamos supervisioná-la. À noite, ele voltava. O cuidado também produz uma arquitetura: a sala virou de novo a UTI de recuperação, o tapete, o limite do espaço, o quarto, lugar de repouso.
A política está aqui
Política é isso também: é organizar as possibilidades de existência, define quem pode fazer, o que pode, quando pode e como pode. A política da casa me fez pensar na política em escala maior. No período em que estou cuidando de Lola, iniciou o período da campanha eleitoral. Vamos em breve eleger quem serão nossos governantes, o que é também a eleição de quem vai cuidar de nosso país e de nossos estados. Se eu cuido de Lola, ela me ensina que não posso votar em quem não tem responsabilidade pelo bem-estar dos outros; se eu controlo seu espaço, eu não posso votar em quem não se preocupa com o meu espaço, o que significa, quem não se preocupa com marcos regulatórios que protejam a população e só se preocupa com o que protege o capital.
Se sou capaz de perceber a mínima alteração da pele de um cão, de a monitorar, de acompanhar e avaliar com auxílio do veterinário, eu não posso votar em governantes que desprezam indicadores sociais e recomendações dos técnicos e das universidades. Eu não posso votar em quem é antiacademicista. Se sou rigoroso na aplicação do que meu veterinário diz para com Lola, só posso desejar votar em candidatos que se propõem a seguir as atuais leis e não as transformarem em seu benefício ou a seu favor, ou a favor do capital. Se a mente de Lola precisa estar saudável e ativa, isso significa que também só posso eleger governantes que se preocupem com a cultura, a educação, a universidade e lazer. Cuidar de um cão, no fundo, no fundo, tem um parentesco notável com cuidar de um país: exigem um profundo senso de responsabilidade com o povo, o que candidatos neoliberais de direita e extrema direita não possuem. Pronto, não tem jeito de novo: eu vou e volto e estou de volta ao meu lugar, o de crítico do capital. Mas é assim com o olhar, não?