
O Brasil amanheceu segunda-feira no centro do mundo após uma disputa histórica e votos conquistados à unha, um a um, durante três semanas de disputa. A avalanche da extrema direita foi contida, mas não é hora de descansar. Somos um país dividido meio a meio por visões de mundo praticamente opostas.
Depois de períodos de ânimos acirrados, ainda mais quando começamos a pensar nas festas de Natal e de Ano Novo, muitos defendem a conciliação, uma pausa para a confraternização. Os últimos anos têm demonstrado, porém, que o outro lado não repousa jamais.
A imensa mobilização deste segundo turno mostrou a capacidade de organização da esquerda e demais setores democráticos, que andava adormecida após a última eleição de Lula. É compreensível. Os quatro anos do governo Bolsonaro foram traumáticos e o início do governo Lula, com os acampamentos e a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, deixaram uma vontade de vida normal difícil de rivalizar com qualquer outra coisa.
O sufoco deste segundo turno mostrou, no entanto, que desmobilizar não é uma opção. Negociar também não. Lidamos com um rival poderoso, ao contar com apoio do governo da maior potência bélica mundial e das poderosas empresas de internet, que atualmente controlam todo o acesso à informação. E, principalmente, com o Congresso Nacional mais desfavorável da história.
Ser tolerante com o intolerável tem sido uma estratégia ruim. Usar as redes sociais para desabafar, mas na vida privada e social evitar discussões para afastar conflitos, apenas manterá os bolsonaristas na liderança das narrativas abjetas, elegendo pessoas idem e preservando os “neutros” na posição confortável de aguardar as próximas eleições para serem adulados.
Acredito que deveríamos aproveitar a oportunidade. Começar agora mesmo a campanha para prefeitos e vereadores, com redes regionais mobilizadas. Candidatos a deputados federais e estaduais não eleitos poderiam mapear a região ou o município onde tiveram mais votos e começarem a se apresentar como candidatos a vereadores ou, se for o caso, a prefeitos. O aprendizado imersivo de redes sociais e a política do corpo a corpo, inclusive no Uber e com a pessoa ao lado no ônibus ou no metrô, deveriam ser mantidos. Precisamos ganhar corações e mentes desde já.