Recorro hoje, mais uma vez, a um político do passado para abrir minha conversa com você (tem alguém aí?). Não, não sou saudosista. Eu até já disse aqui que, entre os três tipos definidos por Ariano Suassuna – o chato pessimista, o bobo otimista e o realista esperançoso –, fico com este último.
Mas, antes de festejar o que pode ser considerado o fim deste rigoroso inverno político, começado em 2019, e já ir comemorando o final – para desgosto do Trump – do processo contra o ex-presidente Bolsonaro, preciso dar uma olhada pra trás.
Na semana passada, eu trouxe Ulysses Guimarães aqui para este papo. Hoje, trago Tancredo… Eita… Trago Tancredo é quase um trava-língua, não? Desculpem! Hoje, lembro Tancredo Neves, talvez o nosso conservador mais aberto à contemporaneidade desde a segunda metade do século passado.
Aliás, quando lembro o conservadorismo civilizado de Tancredo e outros representantes daquela direita do século 20, chego a considerar ofensa a eles chamar de conservadores os reacionários do século 21, tipo Van Hatten, Zucco, Damares, Sóstenes, os tristes Bolsonaro e assemelhados.
Tancredo, como Ulysses, deixou frases que bem podem ser repetidas hoje como se fossem ditas pela primeira vez e deixam o passado sempre presente no nosso cotidiano. Por exemplo, quando alguém comentava com o mineiro o medo que a direita tinha da esquerda, ele respondia: “Eles criam os fantasmas e depois se assustam com eles…”
Qualquer semelhança com os medos dos direitistas atuais não é mera coincidência… Sem ter com o que assustar o povo, essa nova velha direita desenterra o fantasma de um comunismo que sempre andou bem longe deste Brasil muito mais tancredista que esquerdista…
A diferença é que no século passado o comunismo ainda existia, o muro de Berlim estava em pé, a União Soviética não tinha derretido… E aqui cabe outra frase atribuída a Tancredo. Certa vez, foram dizer a ele que um adversário, também conservador, estava conspirando com militares radicais de direita. A resposta foi cirúrgica: a cabeça dele é como terreno baldio, sempre tem alguém atirando alguma sujeira…
Tem definição melhor para as cabecinhas dessa direita que comemora a chantagem de Donald Trump? Que deserta para os Estados Unidos – com dinheiro tomado do povo em doações via PIX – e de lá atua contra o Brasil em defesa de golpistas liderados pelo ex-presidente que não fez outra coisa a não ser articular contra as instituições democráticas?
Tem terreno mais baldio que os cérebros desses que falam em liberdade vestindo camisetas com foto do torturador Brilhante Ustra? Tem melhor depósito de porcarias do que os cérebros daquela meia dúzia de reacionários ocupando as mesas diretoras do Senado e da Câmara dos Deputados, pedindo anistia para todos os que, no 8 de janeiro de 2023, mostraram profundo desprezo pela democracia e depredaram a Praça dos Três Poderes inteira naquela tormenta golpista?
Mas depois da tormenta, vem aí bom tempo. Aqui no Brasil, a primavera chega com setembro. As flores da democracia vão desabrochar outra vez. O STF dará fim ao julgamento dos comandantes golpistas. Arrisco até um palpite: é bom o pessoal da direita já ir se acostumando. O domicílio do capitão vai virar presídio.
Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, começa o outono, quando as noites chegam mais cedo. Será tempo, também, de o embaixador da extrema direita em Washington, Eduardo Bolsonaro, recostar a cabeça no travesseiro mais cedo e fazer uma faxina no terreno baldio que carrega dentro do crânio… Quem sabe, pensar em voltar a fritar hambúrguer, no Maine?
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais

