
Em que momento a sociedade falhou barbaramente ao relacionar macaco com negro? Homens e mulheres passam por agressões cotidianas por conta desta comparação. É lamentável e triste perceber que ainda estamos presos ao racismo e ao colonialismo, marcas indigestas da nossa história. Discriminação que só piorou com o advento das redes sociais, que de sociais não têm nada.
Se as pessoas se olhassem, reconhecessem as diferenças que nos tornam diversos e se abrissem para uma conversa franca e uma convivência respeitosa sobre as condições de cada um, a vida não seria melhor? Escuta, respeito e afeto são fundamentais. Assim como um olhar inclusivo, transparente, que reconheça a dignidade de cada ser humano, não importa a sua diferença, condição social, intelectual, física ou orientação sexual. Já escrevi tanto sobre isso!
Precisamos reconhecer o direito das pessoas de serem e estarem onde quiserem. Reconhecer o protagonismo dos negros que, apesar da discriminação ainda cruel, conquistaram espaços que deveriam ser deles desde sempre. Reconhecer os direitos das pessoas com deficiência e sua luta por acessibilidade e inclusão. No mundo dos absurdos, há um universo de desejos que foram negados aos humanos que não correspondem à perfeição idealizada por uma sociedade tomada pela meritocracia e pelo capacitismo.
Falhamos! Aprendemos muito pouco sobre solidariedade e, na busca de reconhecimento, quem não se enquadra sofre e compromete sua saúde física e mental.
Diante de um cenário que contamina a sociedade, é impossível não comentar a anulação pelo Senado da resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que orientava atendimento e acesso ao aborto legal de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual/estupro. Não sei como vai ficar o caso, mas é impressionante o descaso de políticos com a infância e a adolescência. “Criança não é mãe”. Estupro é crime.
Retomando o tema deste texto, quero dizer a quem nos quer afastados, usando piadas vulgares, a partir de visões distorcidas e mesquinhas, que Matheus Menezes Matos, o advogado goiano de 25 anos, com nanismo, tem o direito de ir atrás dos seus sonhos, experimentar, buscar as adaptações possíveis e trabalhar com tranquilidade. O argumento usado pelos ‘machos bombados de tamanho normal’ que ridicularizaram a opção profissional do jovem – “ele não vai conseguir algemar ninguém nas ruas porque não vai alcançar” – revela ignorância, pobreza de espírito e escancara o desequilíbrio social inquietante que vivemos.
No comando, os que se acham donos do mundo e olham para o cotidiano a partir dos seus umbigos, com um único viés: o poder. Tudo vira debate, provocação, discussão, polarização e violência. Mergulhamos na sociedade do excesso de opiniões e julgamentos cruéis e repetitivos, o que provoca cansaço emocional e físico.
Como a vida “não é um processo água com açúcar e há que se viver até o cerne”, como diz o psicanalista Altair Sousa, é necessário aliviar um pouco nossas andanças. Vamos “Andar com Fé”, levados pela arte, aqui representada pela canção de Gilberto Gil. E vamos seguir a recomendação de Altair: “Sempre que for possível, poupe suas palavras, poupe seu coração, poupe sua saúde física e mental. Não desperdice seu tempo, seu descanso, sua paz. Não insista em portas trancadas a sete chaves, não permaneça em mesas nas quais não esteja sendo servido o que tu mereces. Poupe-se por inteiro, ao máximo. Faça como recomendou Clarice Lispector: “ponha-se você mesmo de vez em quando numa redoma”. Ao ler esta reflexão, que Altair fez no Facebook em 23 de maio de 2026, me comovi e guardei.
Precisamos nos proteger e seguir nossa luta sem dar voz a quem não nos merece!
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