
“O homem precário entrou na sala / Sentou na cadeira / Contou a história / O médico austero / Jamais imaginou / Um dia ouvir / A revelação / De sua própria vida / A compaixão / Nasceu de susto / No coração desavisado.”
A. L. Freire. Caco de espelho. In: Abraço, Ed. do Autor, Recife, 2021.
Quantas vezes o paciente entra em um consultório para ser atendido não por um par de olhos, mas por um profissional absorto em preencher as linhas de um prontuário eletrônico? Há quem ainda hesite, sem saber se pode, de fato, falar. A ironia é cruel: nunca tivemos tanta capacidade técnica para salvar o corpo, e nunca nos sentimos tão sós dentro dele.
Essa mesma distância ganha contornos ainda mais profundos quando cruzamos as portas do centro cirúrgico. O silêncio ali dentro é estranhamente sinfônico. Não há mais o clamor dos anfiteatros anatômicos do século XIX, nem o rufar de tambores que outrora afastava os maus espíritos nas tendas xamânicas. O que se ouve agora é o bipe compassado dos monitores, o sussurro hidráulico de braços robóticos e a pulsação invisível de uma Inteligência Artificial que processa, em milissegundos, mais dados do que toda a Biblioteca de Alexandria seria capaz de abrigar. Sob as luzes de LED frias, onde a física e a química celebram seu apogeu, a velha “faca” de pedra lascada converteu-se em um feixe de laser guiado por coordenadas submilimétricas; a “erva” colhida no orvalho dá lugar à promessa do CRISPR (uma espécie de corretor ortográfico molecular), capaz de reescrever os erros de digitação do nosso próprio DNA.
Olhando de longe, a impressão é de que vencemos. A técnica atingiu a sua quase perfeição. No entanto, deitado naquela maca, envolto em lençóis estéreis, repousa o mesmo ser humano de cinco mil anos atrás. O abdômen que se eleva e cai com a respiração artificial abriga o medo ancestral da escuridão, a fragilidade primeva que outrora buscava o calor das fogueiras e o olhar atento do curandeiro. É exatamente aí, no hiato entre a precisão do algoritmo e a vulnerabilidade da carne, que reside o maior paradoxo da medicina contemporânea.
A milenar tríade da cura — a faca, a erva e a palavra — foi desequilibrada pelo próprio sucesso. Enquanto a intervenção física e a bioquímica avançaram em ritmo exponencial, o terceiro pilar parece ter ficado encurralado pelos relógios de ponto e pela tirania das telas. É aqui, no entanto, que a Inteligência Artificial surge, não como a vilã que automatiza a frieza, mas, surpreendentemente, como a força capaz de devolver a nossa humanidade. Há um romantismo às avessas nessa revolução tecnológica. Se delegarmos com coragem à máquina a burocracia pesada — o cruzamento de interações medicamentosas, a digitação de relatórios, a triagem fria dos sintomas —, estaremos, na verdade, libertando o médico. O algoritmo que registra as informações em segundo plano faz algo precioso: ele permite que o profissional finalmente vire a cadeira, desvie os olhos do monitor e encare o outro.
Porque a palavra não é apenas tráfego de dados. Se fosse, um relatório impresso por um modelo de linguagem avançado bastaria para curar. A comunicação clínica é feita de pausas, do timbre de voz que acalma uma tempestade interna, do instante de silêncio compartilhado quando um diagnóstico difícil é entregue. A IA pode simular uma empatia impecável em formato de texto, mas ela carece de presença. Falta-lhe o peso que tem o suspiro engasgado de uma mãe; escapa-lhe a beleza sutil de um sorriso de alívio.
A grande fronteira da medicina do amanhã não será a bioimpressão de órgãos ou as interfaces cérebro-máquina, embora elas transformem a engenharia do corpo. A verdadeira fronteira continuará sendo o território sagrado que se estabelece entre duas pessoas que conversam sobre a dor. A palavra é o elo insubstituível. Sem ela, a faca é apenas uma lâmina invasiva e a erva, uma substância estranha ao corpo.
No fim das contas, a tecnologia avança para que possamos voltar ao início. Que o silício das máquinas trabalhe para nos devolver o tempo: o tempo de ouvir, de explicar e de acolher. Pois a ciência pode decifrar o código da vida, mas é o verbo — carregado de presença humana — que continua tendo o poder de nos lembrar por que vale a pena viver.
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