
Em uma rua periférica de uma capital nordestina, um moleque corre descalço para esconder uma porção diminuta de droga em um bueiro improvisado. A viatura policial passa lentamente, observa a cena e segue adiante. Aquele jovem negro, pobre e socialmente invisibilizado já ocupa, para a engrenagem da segurança pública brasileira, um lugar previamente determinado: o da suspeição permanente e da vida descartável. A cena, comum em inúmeras cidades brasileiras, revela uma das faces mais brutais da política de guerra às drogas consolidada nas últimas décadas no país.
A cena demonstra a base de uma pirâmide perversa que esconde as mãos que realmente manejam o mecanismo. Pois, para entender como aquela substância chegou ao jovem, é necessário recuar na história da guerra às drogas no Brasil. Este é um conflito alicerçado na herança escravocrata e no controle de corpos específicos por meio de um proibicionismo higienista. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2025, a juventude negra continua sendo o alvo dessa política de extermínio. Isso ocorre porque a taxa de homicídios de negros é substancialmente superior à de não negros. No Estado brasileiro, a segurança pública atua como um filtro racial de controle social.
A partir dos anos 1990, o Brasil passou a adotar modelos internacionais de repressão às drogas, fortemente influenciados pela política proibicionista norte-americana. Com eles, as periferias urbanas foram progressivamente tratadas como territórios de exceção, submetidos à presença constante da violência policial e ao avanço simultâneo das organizações criminosas. Entretanto, reduzir o problema da criminalidade contemporânea apenas ao confronto armado entre Estado e facções significa ignorar as profundas transformações econômicas pelas quais o crime organizado passou nas últimas décadas.
O sucateamento do Estado e a falta de perspectivas reais nas metrópoles criaram um terreno fértil para o surgimento do crime, que Michel Foucault denominou “ilegalismos”: formas diferenciadas de gestão das ilegalidades pelo próprio sistema social e político. Estes novos ilegalismos não se restringem mais ao tráfico de substâncias. Eles se espalham por todas as esferas em que o lucro possa ser extraído por meio do controle territorial e da oferta de serviços básicos, como o gás de cozinha, a internet clandestina e a própria segurança privada vendida sob coação.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 aponta um crescimento alarmante no número de assentamentos de extorsão e de controle de territórios por milícias e organizações criminosas. Elas agora utilizam a força para monopolizar mercados lícitos dentro das comunidades, transformando a precariedade estatal em uma lucrativa fonte de renda privada para grupos fardados ou paisanos. Perceba, como exemplo, os recentes casos das cidades paraibanas de Aguiar e Cabedelo. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) indicam que 46 das 88 organizações criminosas ativas no Brasil operam no Nordeste. As denúncias registram corrupção, cooptação de agentes públicos e influência em esferas de poder.
Observamos a evolução das antigas facções para organizações criminosas poderosas que funcionam como verdadeiras máfias brasileiras, conectando o interior do Nordeste aos principais portos da Europa com uma logística que atravessa fronteiras estaduais e internacionais. A interiorização da violência é um fenômeno documentado que mostra como as taxas de homicídio dispararam em cidades pequenas e médias que servem de rota para o escoamento global de ilícitos sob a vigilância cúmplice de estruturas de poder local. Aqueles que se vendem publicamente como bastiões da moralidade e da ordem infiltram o crime organizado não apenas nos morros, mas também em gabinetes oficiais e condomínios de luxo. Nesses locais, a violência não chega em forma de tiro, mas em forma de transação bancária.
A sofisticação dessas máfias atinge seu ápice na conexão com o sistema financeiro. O dinheiro sujo do controle territorial encontra abrigo em esquemas complexos de lavagem de dinheiro que passam por nomes de peso como o Banco Master e uma série de fintechs sediadas na Faria Lima. Estas instituições e empresas de tecnologia financeira funcionam como as artérias dos novos ilegalismos, permitindo que o capital oriundo da violência e da extorsão seja reciclado e injetado na economia formal sob o manto da inovação bancária e da desregulamentação dos mercados digitais. Nesse sentido, são alarmantes fatos como os do Rio de Janeiro, em que o Estado, segundo o ministro Alexandre de Moraes, direcionou todos os esforços em benefício do grupo Rafit, sob a batuta do ex-governador Claúdio Castro.
Os dados mais recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que as ORCRIMs vêm ampliando sua capacidade econômica e diversificando investimentos em setores estratégicos, como mineração ilegal, agronegócio e mercado imobiliário. Essa expansão demonstra que parte significativa do poder dessas organizações depende menos do confronto armado direto e mais da gestão de fluxos financeiros, da corrupção institucional e da capacidade de infiltração econômica.
A pressão externa e interna para que essas organizações sejam classificadas como grupos terroristas, seguindo a cartilha geopolítica dos Estados Unidos, é um erro estratégico monumental. Isso ignora esta realidade econômica e serve apenas para inflar o ego de justiceiros sociais que preferem o espetáculo lucrativo da guerra à sobriedade da investigação financeira.
Tratar máfias como grupos terroristas justifica apenas mais violência estatal contra os empobrecidos. Ao mesmo tempo, alimenta um ciclo de ódio que fortalece o recrutamento de novos soldados nas periferias, onde a morte precoce é vista como o único destino possível para jovens sem acesso ao Estado. O que estas organizações realmente temem não é o rótulo ideológico de terrorista, mas o ataque direto e impiedoso ao seu patrimônio financeiro e a desarticulação dos apoios políticos que garantem a impunidade nos níveis mais altos da administração pública e do sistema bancário. É necessário asfixiar o bolso dessas máfias e investigar a fundo como o mercado de capitais brasileiro se tornou cúmplice de um modelo de negócios baseado no sangue e na exclusão territorial sob a aparência de legalidade.
A expansão dessas redes para o agronegócio e para o setor imobiliário demonstra que o crime organizado no Brasil não visa à derrubada do Estado. Em vez disso, busca a sua ocupação estratégica para garantir a fluidez dos seus negócios ilícitos por meio de leis e decretos favoráveis. A simbiose entre o capital especulativo e as máfias territoriais cria zonas de sacrifício. Nessas zonas, a lei só existe para quem não tem conta bancária ou apoio político. Enquanto isso, os operadores das ORCRIMs transitam livremente entre os eventos sociais da elite e os centros de decisão do poder.
O recente lançamento do programa federal “Brasil Contra o Crime Organizado”, pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, indica uma tentativa de deslocar parcialmente o foco do enfrentamento puramente ostensivo para mecanismos de asfixia financeira das organizações criminosas. Entre os eixos anunciados estão o fortalecimento da inteligência patrimonial, o combate ao tráfico de armas e a ampliação da capacidade investigativa do Estado. Ainda é cedo para avaliar a eficácia dessas medidas, mas o reconhecimento da dimensão econômica do crime organizado representa um passo importante para superar políticas de segurança centradas exclusivamente na lógica da guerra.
Alegando a complexidade da PEC da Segurança Pública em razão das negociações com os estados, os senadores travaram a aprovação dela. A emenda propõe definir competências dos entes federativos. O governo espera a anuência dos senadores para criar o Ministério da Segurança Pública, uma iniciativa necessária para garantir a preservação da ordem pública, a proteção das pessoas e a defesa do patrimônio. Um direito fundamental e uma ferramenta essencial para assegurar que os cidadãos exerçam sua liberdade e seus direitos.
A história do menino descalço não termina com a passagem da viatura – nem mesmo com o seu óbito. Ela continua no banco que financia a infraestrutura por onde a sua mercadoria viaja até o outro lado do oceano, sustentando o luxo de quem nunca sentiu o sol do subúrbio na pele. Superar esse ciclo de barbárie exige que o país olhe para cima e não apenas para baixo. O verdadeiro crime não corre descalço. Ele voa de jato executivo e possui assento nos conselhos de administração de instituições que se dizem guardiãs da nossa economia financeira. O crime a ser combatido não se basta no varejo de empobrecidos explorados por novos “caporegime”, arautos e beneficiários de ilegalismos travestidos de legalidade.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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