
Quando a ciência diz que o paciente está sendo negligenciado, todos aplaudem. Se faltam exames, medicamentos ou especialistas, ela é convocada com urgência. As famílias querem protocolos, guidelines, números. Querem justiça técnica. E têm razão. Mas, quando a mesma ciência aponta que o tratamento já não traz benefício, que o sofrimento aumentará com mais intervenções, que o melhor é parar — ela perde valor. Torna-se fria, insensível, equivocada. E aí, curiosamente, já não serve mais como critério de decisão. A ciência, nesse contexto, é aceita ou rejeitada conforme a direção do cuidado. Se for para oferecer mais, ela é convocada. Se for para limitar, ela é ignorada. O que importa não é o dado — é o desfecho que ele autoriza. E isso revela muito sobre como nós lidamos com o fim. Pacientes e familiares não são irracionais. Mas estão vulneráveis. E a esperança, nesses momentos, costuma ter mais força que o raciocínio. É difícil aceitar que não há mais o que fazer — especialmente quando se acredita que sempre haverá algo mais a tentar. Essa resistência à limitação terapêutica não nasce só da ignorância científica. Ela nasce do amor, da culpa, do medo, da incerteza. Nasce do trauma de uma despedida antecipada, da dor de tomar decisões sem garantias, da angústia de desistir e depois perguntar: ‘E se?’
A recusa em aceitar a inefetividade terapêutica pode ser, no fundo, um mecanismo de proteção emocional.
Negar a realidade é, por vezes, uma forma de continuar respirando. Mas, quando essa negação se transforma em imposição, pode ferir quem se queria proteger. Insistir em tratamentos sem eficácia comprovada, prolongar internações sem sentido clínico, manter intervenções invasivas sem propósito real — tudo isso gera sofrimento. Para o paciente, para os familiares, para os profissionais. Para o sistema de saúde como um todo. Para o paciente, o custo é claro: dor, perda de dignidade, ausência de conforto nos últimos dias. Para os familiares, o custo virá depois: culpa, dúvida, exaustão. Para os profissionais, o custo é moral: atuar contra a própria convicção técnica. Para o sistema, é o uso de recursos em ações que não mudam desfechos — só postergam o inevitável.
O problema não é oferecer cuidado — é confundir cuidado com intervenção.
Às vezes, o maior cuidado é aliviar. É confortar. É saber parar. Mas isso exige maturidade coletiva. E coragem para conversar sobre a morte sem que isso seja visto como abandono. Os médicos, por sua vez, nem sempre estão preparados para esse diálogo. Temem parecer omissos, frios, derrotistas. Alguns cedem ao apelo da família, mesmo quando sabem que não há mais benefício. Outros se calam — e o silêncio também machuca. Precisamos resgatar o valor da escuta, da explicação com paciência, da conversa franca. Não para impor decisões, mas para construir entendimento. Para lembrar que ciência e compaixão não são opostos. Que parar também pode ser um gesto de amor. E que limite não é sinônimo de desistência.
A medicina baseada em evidências precisa ser também medicina baseada em presença. Presença para sustentar a dor do outro, sem se esconder atrás de exames. Presença para dizer a verdade com delicadeza. Presença para continuar cuidando — mesmo quando não há mais como curar. O cuidado real não termina quando a ciência indica que o tratamento deve parar. O cuidado real começa aí, porque é nesse momento que o profissional deixa de lutar contra a doença — e passa a lutar pelo conforto, pela dignidade e pelo significado daquele fim.
A ciência tem limites — mas o cuidado, não. E se a ciência disser que já não há mais benefício, talvez a pergunta que reste seja: como podemos fazer com que esse momento tenha menos dor, menos medo, menos solidão? Aceitar a evidência quando ela favorece a esperança é fácil. Difícil é aceitá-la quando ela exige aceitação, pausa e silêncio. Mas é justamente aí que o cuidado se revela mais profundo, mais maduro e mais humano.
Cassiano Teixeira é especialista em Clínica Médica e Terapia Intensiva. Professor do Departamento de Clínica Médica e Ciências da Reabilitação da Universidade de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Responsável pelo Curso de Humanização em Terapia Intensiva da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Intensivista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Consultório de cuidados perioperatórios.
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