
O cheiro ruim, vindo não se sabe de onde, impregnava tecidos e móveis já tocados pela mancha esguia e abafada. Partia de um ponto inicial, um foco que, a nós, leigos, pouco importa saber onde fica. Basta compreender que, ao ultrapassar barreiras, buscava o único ser presente naquele espaço marcado. E ele, ainda que detestável, carregava uma intenção: oferecer àquele corpo a última chance, antes da chegada do outro, mais forte, mais devastador e sem nenhuma piedade.
Naquela madrugada, Camila resistiu em se entregar ao sono que diminuía suas forças. Olhar para a tela a ajudava a afastar os calafrios de ver os cômodos vazios. Era a sua forma de sustentar aquela liberdade que só existia quando estava sozinha, quando não precisava explicar a ninguém o que nem ela mesma conseguia entender.
Por uma noite, Camila seria Camila, e seus atos não resultariam em advertência nem em sermão no dia seguinte. Por algumas horas, daria satisfação somente à amiga do outro lado da tela e, no momento em que parassem de jogar, a ninguém mais importaria o que decidisse fazer.
Naqueles minutos em que seria dona de si, ninguém a obrigaria a falar mais baixo nem a apagar a luz para não incomodar. Levantaria da cama e andaria pela casa quantas vezes quisesse e, ao deitar-se novamente, sonharia com o futuro e imploraria que ele não demorasse a chegar. Sem ninguém para obrigá-la a acordar cedo, só deixaria a cama depois do meio-dia e, assim que fizesse um lanche qualquer, iria para a rua no intuito de aliviar o tédio de ser tão jovem.
Assim que a amiga se despediu, Camila abandonou a tela. Sem a voz do outro lado, não demorou a permitir que o cansaço a dominasse. Ajeitou o lençol, abraçou o travesseiro e, antes de pensar em virar para o lado, já não controlava o próprio corpo. O sono pesado impediu que ela percebesse, de imediato, que algo na casa havia mudado.
Quando Camila despertou, o ar quente já atrapalhava o seu fôlego. O fogo consumia paredes, apagando tudo o que havia pouco era familiar. Do lado de fora, vozes chamavam. Mãos tentavam alcançar o que ainda podia ser salvo. Mas Camila não via. Não ouvia. Seguia em direção oposta, sem distinguir portas de paredes, nem fuga de retorno.
No dia seguinte, ninguém acordou Camila. Muito menos ela procurou a rua para se distrair. Tudo o que ela foi e ainda viria a ser ficou suspenso naquele dia que não amanheceu.
PS: Camila é fruto da minha imaginação inquieta. Quem existiu foi Maria Clara, adolescente de Novo Hamburgo, de cuja vida nada sei, a não ser o fim: morreu sozinha na madrugada de 15 de março de 2026, no incêndio que destruiu a casa onde vivia com a família.
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