
O Amor nos Tempos do Cólera é o meu Gabriel García Márquez favorito. Li duas vezes. Pensava que tinha lido mais. Costumo anotar nos livros o dia em que finalizei a leitura. Em alguns, anoto também o começo. Não em todos porque gosto de desafiar as minhas próprias regras. No caso deste romance, escrevi ‘junho/14’ em meu exemplar na folha de rosto e ‘01/07/14 – segunda leitura’ na última página. Na primeira, em 1993, meu então noivo me emprestou sua edição.
Sim, como quase todas as jovens da minha época, fiquei noiva de aliança na mão direita até o dia, ou melhor, a noite do casamento, em que a passei para a mão esquerda desejando que a união fosse para sempre. Que o amor fosse. Tivemos um filho e vinte e poucos anos de convivência, o que nos ata a uma forma amorosa pulsante, andando por aí, metade eu, metade ele, até o fim da vida.
Em O Amor nos Tempos do Cólera, os protagonistas, Fermina Daza e Florentino Ariza, se conhecem também na juventude, mas, por diversos motivos, só se encontram para ficar juntos aos setenta e tantos anos, depois de cinquenta e três anos, sete meses e onze dias e suas respectivas noites da data do primeiro encontro, uma longa jornada vivida de modos bem diferentes entre eles, amantes tardios.
“Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte”, Marquez escreve, e é aqui que quero chegar, embora se trate de uma ficção. O envelhecimento do corpo não mata a capacidade de amar. O amor é imaterial, abstrato e misterioso para não dizer louco. E não depende da química dos corpos. Se fosse o caso, não amaríamos nossos familiares e amigos.
Não há nada em nós, a não ser uma construção cultural e preconceituosa que nos impeça de seguir estimando, querendo bem e adorando de um modo único, com ou sem desejo sexual, alguém. Aliás, desejo não deveria ser confundido com afeto e tampouco estabelecido como uma condição para a existência de um casal. Sexo não garante a sobrevivência de nada.
Fermina e Florentino fazem sexo. Gostam de sexo e estão em condições físicas. São personagens do século XX em que a expectativa de vida média global, em 1985, ano de publicação do romance, era de aproximadamente 62,7 anos. Hoje, ela está em torno de 73,8 anos, com homens e mulheres mais longevos e ativos em diversos aspectos. Portanto, capazes de estabelecerem relacionamentos e vínculos profundos.
Acho estranho, bastante estranho, quando alguém que segue desfrutando do amor da mãe ou do pai e contando com o amor deles também pelos netos, se espanta quando um deles, viúvo ou separado, começa um romance afetivo e erotizado, como se uma capacidade afetiva exercida durante a vida inteira, aprimorada pelo tempo e pela sabedoria entre os que a têm, evaporasse, desaparecesse por uma questão numérica e uma divisão social de grupos etários.
Pensam, esses filhos, que deixarão de amar seus cônjuges ou companheiros quando fizerem 60 anos ou 70 ou 80, 90, 100? Ou que não poderão voltar a sentir o mesmo por uma pessoa que não tenha feito parte de suas vidas até então? Há, no poema Sob uma Estrela Pequenina, da Wisława Szymborska, um verso que super me inspira. “Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro”, ela escreve, perto de seus cinquenta anos, em uma afirmação da potência do que sente e de que há algo maior do que nossas mesquinhas convenções sobre quem somos ou devemos ser.