
Certos avanços levam a alguns retornos. A algumas voltas. É a dialética, paradoxo de uma existência em seu vai-e-vem até que, finalmente, não possa ir mais.
Um deles, por exemplo, levou-me de volta ao pré. Há muitos anos, desembarquei no chamado pré-primário. Era uma espécie de limbo. Não mais o então jardim de infância, em seus turnos integrais de brincadeira. Mas também não tinha ainda aquela dose reforçada na alfabetização. Era um pré-disso. Brincava-se um tanto, outro tanto era sério.
Agora reencontro o pré, sempre que vou consultar ou, pior ainda, fazer exames. É pré na certa. Diabete? Não! Normal? Não! É pré-diabete, um estado em que ainda dá para brincar com os doces, mas não muito.
Operar a próstata? De jeito nenhum. Então, está bem? Não é bem isso. É pré. Algo para não se levar tão a sério, mas sem brincar com isso, de olho na maior das pontualidades, essa do tempo de um corpo em seu desgaste natural. É pré. É preciso estar de olho.
Falando em olho, observou-se no esquerdo e no direito uma leve opacidade dos cristalinos. Catarata? Não. Normal? Não. É pré, nada para levar tão a sério, nada para brincar, precisando alguma atenção para ver se a paisagem não ficará com neblina em dia já ensolarado.
Conversando com Vicente, o oftalmologista, ambos interessados em continuar mais um bom tempo por aqui, trocamos informações do que andamos lendo sobre a longevidade.
Em comum, os difíceis exercícios, as folhas verdes, em especial a alface, as relações sociais a duras penas em meio às perdas, evitar cigarros e solidão. Foi quando ele disse que tinha lido um estudo escandinavo muito sério que apostava a maior parte de suas fichas na importância de ter um objetivo. Estaria aqui o que mais nos mantém vivos, quando o pré vai se tornando durante ou até mesmo pós.
Aquilo, falando em fundo de olho que ele examinava, calou fundo.
Saí de lá a pé e, na primeira esquina, na faixa de segurança, os meus olhos, ainda sob o efeito do exame, viram um vulto que me pareceu a morte. Aproveitei o encontro para lhe perguntar se querer viver bastava.
Ela, enigmática como sempre, permaneceu em silêncio. E desapareceu, tão logo abriu o sinal. Na dúvida, retomei a caminhada, decidido a me matricular no curso de italiano e retomar aquele objetivo meio esquecido de conhecer as Maldivas.