
Um circo chega a uma cidade do interior do Rio Grande do Norte com o nome de “Circo dos Anões”. Todo o elenco – palhaços e demais personagens – é formado por pessoas com nanismo. Um carro de som percorre a cidade para divulgar, e o locutor diz: “Se tiver algum anão nesta cidade, entre em contato conosco”. Uma mãe, ao pensar no filho ouvindo esta voz, ficou preocupada. As perguntas que a mãe fazia internamente eram: “Qual seria a intenção dos administradores do circo ao convocar pessoas com nanismo? Para trabalhar com eles? É isso que a sociedade pensa dos nossos filhos, que só servem para trabalhar em circo?
Ao ler o que esta mãe escreveu em um grupo no WhatsApp, me perguntei: o correto não seria chamar todas as pessoas para curtirem as atrações do tal circo? Logo entendi a angústia de quem enfrenta um preconceito como esse, que é cruel, cotidianamente. Até porque, muitas vezes, em vários lugares, quando eu ainda não tinha a consciência que tenho hoje, ouvi a pergunta: “Em que circo tu trabalhas?”.
Sabemos que muitas pessoas usam o termo “anão”, hoje banido da nossa linguagem por toda a contaminação que carrega, por falta de conhecimento mesmo. Porém, existem pessoas que sabem desta contaminação, mas ainda assim fecham os olhos e deixam a maldade correr solta. O problema vai além do termo pejorativo. Podemos trabalhar onde quisermos, mas nesta chamada para o trabalho no circo revela-se também um tipo de preconceito, exclusão e desrespeito. Fica evidente que enfatizam o circo como o lugar das pessoas com nanismo, que, historicamente, é o de servir de entretenimento para a sociedade. E ponto final!
O preconceito não dá trégua e nossas ações precisam ser coletivas.
Muitos duvidam da capacidade das pessoas com deficiência. Os desafios cotidianos que enfrentamos são muitos e os julgamentos, muitas vezes, cruéis. Mas é preciso entender que uma deficiência não define os limites e os lugares onde as pessoas podem se colocar. A força de cada uma está na ousadia e na coragem de seguir em frente, apesar de! É fundamental encarar as possibilidades, os limites e suas consequências, sabendo que inclusão e acessibilidade não são favores, mas sim direitos preservados por lei. Mas fica evidente que os nossos direitos precisam ser defendidos diariamente, com perseverança, trabalho, posicionamento, compromisso e ação. “Nada sobre nós sem nós” é o lema. Unidos teremos mais força para mostrar nossas capacidades, transformar a sociedade e, assim, torná-la mais humana e justa. As dificuldades enfrentadas pelas pessoas que têm diferenças marcantes por conta de suas origens, raça, escolhas, opções de vida, comportamento, condições mentais, sociais e físicas são inúmeras. Portanto, é vital desacomodarmos conceitos seculares enraizados, que rotulam e discriminam, e mostrar que a sociedade é o resultado da soma de diferenças e não de indivíduos hipoteticamente iguais. Falas capacitistas e meritocráticas não nos representam.
Já disse muitas vezes e repito: a diversidade é a nossa grande riqueza.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.