
O mês de julho é emblemático para a comunidade negra, marcado pelo 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Embora eu já tenha abordado, nesta mesma coluna, o significado dessa construção coletiva, este ano gostaria de seguir outro caminho.
Mais do que celebrar uma data, proponho transformar este espaço em um território de memória e de travessias. Um convite para encontrarmos mulheres que revolucionaram a produção do conhecimento a partir de suas raízes africanas e que continuam oferecendo respostas fundamentais aos desafios do nosso tempo.
A potência do pensamento dessas intelectuais reside justamente na capacidade de conectar diferentes temporalidades da resistência: a ancestralidade, a formulação teórica, a ação política e a construção de futuros possíveis. Com elas aprendemos que memória não é apenas lembrança. É uma tecnologia de transformação.
Minha aproximação com essa produção intelectual, crítica e ainda pouco conhecida no Brasil, não nasceu propriamente no doutorado em Sociologia. Ela foi sendo construída nas rodas de conversa, na militância dos movimentos sociais, nas comunidades tradicionais, na literatura e nas amizades que me ensinaram a procurar referências para além das bibliografias tradicionais. Foi essa busca que também nos levou, há dez anos, a fundar o Coletivo Atinuke, em Porto Alegre.
O Atinuke nasceu do desejo de estudar mulheres negras em seus próprios termos. Hoje, ao completar uma década de existência, mantém um curso anual dedicado ao pensamento de mulheres africanas e da diáspora, reunindo estudantes, pesquisadoras, ativistas, integrantes de comunidades tradicionais e brasileiras que vivem em diferentes partes do mundo. A cada edição confirmamos uma constatação: ainda conhecemos muito pouco da vasta produção intelectual elaborada por mulheres do continente africano.
Talvez uma das marcas mais profundas do colonialismo tenha sido convencer-nos de que a teoria nasce apenas em alguns centros acadêmicos europeus e norte-americanos. Como consequência, aprendemos a interpretar o mundo a partir de categorias apresentadas como universais, quando, na verdade, foram produzidas em contextos históricos bastante específicos.
Ler intelectuais africanas desloca esse eixo. Elas demonstram que existem outras maneiras de compreender a pessoa, a família, a política, a espiritualidade, a comunidade e as relações entre mulheres e homens. Mais do que ampliar uma bibliografia, essas leituras ampliam nosso horizonte ético, político e epistemológico. Elas revelam que a África nunca foi apenas objeto de estudo. Sempre foi um dos grandes centros de produção de conhecimento do mundo.
É nesse espírito que compartilho algumas autoras que considero fundamentais para quem deseja iniciar essa travessia.
Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí é socióloga nigeriana e uma das pensadoras mais importantes dos estudos africanos contemporâneos. Em suas pesquisas, demonstra que a categoria “mulher”, tal como concebida pelo pensamento ocidental, não organizava a sociedade iorubá antes da colonização. Sua obra nos convida a questionar a naturalização do gênero como princípio universal de organização social e a compreender as cosmologias africanas a partir de suas próprias referências.
Paulina Chiziane, escritora moçambicana e primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, transforma a literatura em território de memória. Seus livros revelam as marcas do colonialismo, das guerras e do patriarcado, mas também celebram a força das mulheres africanas, suas espiritualidades e sua capacidade permanente de reconstruir a vida.
Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, tornou acessíveis ao grande público reflexões profundas sobre identidade, colonialidade, feminismo e migração. Seu conhecido alerta sobre “o perigo de uma história única” continua atual: quando apenas uma narrativa é autorizada, povos inteiros têm sua humanidade reduzida. Ler Chimamanda é aprender a desconfiar das versões únicas da história.
Ifi Amadiume, antropóloga e escritora nigeriana, tornou-se referência internacional ao demonstrar que diferentes sociedades africanas organizaram as relações entre mulheres e homens de formas muito distintas daquelas pressupostas pelas teorias ocidentais. Sua produção amplia nossa compreensão sobre gênero, poder, parentesco e organização social.
Amina Mama, pesquisadora nigeriana, analisa como colonialismo, militarização, neoliberalismo e patriarcado continuam moldando a vida das mulheres africanas. Sua produção articula pesquisa acadêmica e compromisso político, lembrando que o conhecimento também pode ser uma ferramenta de transformação social.
Sylvia Tamale, jurista e feminista ugandense, amplia o debate sobre corpo, sexualidade, direitos humanos e descolonização. Sua obra desafia moralidades herdadas do colonialismo e propõe pensar a justiça a partir das experiências, dos saberes e das filosofias produzidas em África.
Pumla Dineo Gqola, escritora e pesquisadora sul-africana, investiga como racismo, patriarcado e violência permanecem estruturando a sociedade mesmo após o apartheid. Seus escritos articulam memória, afeto e resistência, mostrando que enfrentar a violência também exige disputar as narrativas que a legitimam.
Lidas em conjunto, essas intelectuais não oferecem apenas novos conteúdos. Elas nos ensinam novos modos de formular perguntas. Questionam certezas produzidas pela modernidade ocidental e reafirmam que a produção de conhecimento nunca esteve restrita ao Norte Global. Em tempos de crise climática, aprofundamento das desigualdades, avanço dos autoritarismos e disputas sobre democracia e direitos, suas reflexões ajudam a imaginar formas de vida sustentadas pela comunidade, pela ancestralidade, pela dignidade e pela interdependência entre todos os seres.
Para quem deseja aprofundar essa caminhada, compartilho alguns caminhos que têm sido importantes para mim.
Biografias de Mulheres Africanas (UFRGS) reúne centenas de verbetes sobre intelectuais, cientistas, artistas, lideranças políticas e ativistas africanas, ampliando o acesso, em língua portuguesa, às suas trajetórias.
Filosofias Africanas disponibiliza traduções, entrevistas, textos, materiais didáticos e indicações bibliográficas sobre o pensamento africano e afrodiaspórico. É uma excelente porta de entrada para conhecer autoras como Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, Ifi Amadiume, Sophie Oluwole, Nkiru Nzegwu, Amina Mama, Sylvia Tamale e tantas outras.
A AbeÁfrica (Associação Brasileira de Estudos Africanos) publica dossiês e pesquisas dedicados às mulheres africanas e às perspectivas de gênero, aproximando pesquisadoras africanas, brasileiras e latino-americanas.
A Terra Mãe nasceu do compromisso de cultivar raízes para produzir futuros. Talvez seja esse o convite desta edição: que julho não termine com uma homenagem, mas inaugure uma nova biblioteca.
Em tempos de excesso de informações e de narrativas únicas, escolher quem lemos também é um gesto político.
Que possamos permitir que essas mulheres reorganizem nossas perguntas, ampliem nosso horizonte e nos recordem de uma verdade frequentemente esquecida: a África sempre foi, e continua sendo, um dos grandes territórios de produção de conhecimento da humanidade.
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Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)