
Na definição da sempre instigante e criativa mente de Slavoj Zizek, em termos psicanalíticos, o gozo não é igual ao prazer; está além do princípio do prazer. Enquanto o prazer existe nos moldes do equilíbrio e da satisfação, o gozo é desestabilizador, traumático, excessivo. É o prazer freudiano com dor. “O verdadeiro humor – como afirmou G. B. Shaw – sempre arrasta consigo uma lágrima.”
Alguém da área psi contou-me a história do masoquista que tomava banho frio em pleno inverno. Um dia se deu conta de que tinha prazer com a água gelada escorrendo no lombo e, daí em diante, passou a tomar banho quente.
Falando sério. Muitas críticas-padrão ao fascismo por parte de marxistas e de certas escolas psicanalíticas reconhecem que o totalitarismo depende de certa economia perversa do gozo, não no sentido de poupá-lo, mas de dosar seu usufruto. Restringe-se a liberdade, mas aumenta-se a moralidade, a ordem, o respeito pelas hierarquias, a sensação de segurança. Este é o tradicional discurso da direita ideológica. Só que não se pode meramente dizer que, se obtivermos uma satisfação direta, simples, não precisaremos destes tipos ilusórios de gozo.
O problema do gozo é que ele nunca funciona sem sequelas: e é sempre perturbador. Nas sociedades permissivas (e repressivas) de hoje, temos o paradoxo inverso. Ou seja: oficialmente temos permissão de gozar, ou melhor, de ter prazer, de organizar nossa vida em torno da maneira de obter a máxima satisfação possível, da eufemística realização pessoal, “do chegar lá” e assim por diante. Mas qual é o resultado fundamental disso tudo?
O resultado intrínseco é que, para realmente gozarmos a vida, temos de adotar um sem-número de normas e proibições: nada de assédio sexual, de drogas psicoativas, de alimentos com gordura ou doces com açúcar, de cerveja com álcool, de café com cafeína, de cigarro com nicotina, de leite com lactose, de pão com glúten, nada de situações estressantes e, nessa sequência, logo entrará em moda a atividade sexual sem orgasmo. (E na fixação erótica do brasileiro, mulher pelada “sem glúteos”)
Nas últimas feiras do livro, p. ex., as obras mais vendidas foram as “Pílulas para gozar uma boa saúde” e as de autoajuda, enfim, tudo que precisamos saber para melhor gozarmos a vida, e as bancas vendiam profusamente obras de neurolinguística às quais pretendem nos ensinar como poderemos atingir a beatitude pessoal. Enfim, a felicidade física e metafísica.
Nesse ritmo, para contrariar tais tendências, um dos habituais movimentos de contracultura, numa das próximas feiras, é possível que o livro mais procurado seja o que nos ensinará um método, uma técnica segura para realizarmos o sonho do Hemingway: o de obtermos orgasmos de quatro horas de duração sem riscos de enfarto do miocárdio ou de acidentes vasculares cerebrais. E sem enlouquecer.
O paradoxo é que, se perseguimos o prazer diretamente como meta, somos obrigados a nos submeter a diversas condições, como as dietas restritivas já descritas, preparação física intensa e permanente (hoje, em cada quadra temos uma fitness house) para sermos sexualmente atraentes. Isto resulta que nosso prazer imediato tornará a se deteriorar.
Para as mulheres, as condições são muito mais restringentes e até cruéis, sádicas mesmo: malhações diárias e intensas, “dieta da folha de alface”, bronzeamentos o ano todo, depilações, massagens, cosméticos caríssimos, penteados, correções plásticas de todo o tipo, tatuagens, ademanes, gestos, palavras, atitudes e pensamentos controlados e vigiados, permanentes prontidão e disposição ao orgasmo, condições atribuídas performaticamente ao gênero feminino pela falocracia feminicida.
Esse foi o grande equívoco do movimento hippie da década de 60 e da política do gozo que dele emergiu. Opondo-se à chamada repressão burguesa, eles almejaram diretamente o prazer sexual como categoria política. “É proibido proibir” foi a palavra de ordem dos jovens de 68. O que pretendiam fazer com isso era que, em oposição à renúncia ao jugo patriarcal, era preciso aprender a viver, a desfrutar espontaneamente a sexualidade sob quaisquer de suas imaginativas modalidades, as drogas, a vida ou o que fosse, e isso nos tornaria menos agressivos, menos autoritários (lembram do “Paz e Amor“?). Na verdade, o tiro saiu pela culatra. Fica muito claro — e digo isto pela perspectiva de alguém que conviveu com vários amigos que tentaram se incluir numa dessas comunas antiautoritárias — que essa aparente abolição da autoridade gerou uma autoridade ainda mais sufocante: uma espécie de comunidade falsamente igualitária, na qual as proibições são ainda mais radicais e intrusivas.
O sociólogo italiano Domenico de Masi (o do Ócio Criativo) mostrou que o trabalho de um jovem numa grande empresa capitalista moderna, com sua necessária estrutura autoritária, ditatorial mesmo, exige graus de conhecimentos, eficiência, dedicação, intensos regimes de trabalho, além de restrições e enquadramentos de ordem ideológica e política, os quais eliminam todos os espaços de sonhos e do prazer de viver. E não raras vezes as drogas, o sexo desenfreado e sem afeto, a velocidade de duas ou quatro rodas, os esportes radicais acabam em deprimentes tentativas para preencher esses espaços. Hoje impera a tirania do mérito e do espírito empreendedor individual.
Imagino que talvez os zen-budistas e confucionistas do Oriente possam nos salvar do báratro final.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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