
“Eu quero estar em relações onde eu possa errar.” A frase veio de uma amiga de longa data, numa conversa por áudios na semana passada, e permaneceu ecoando em mim. Não conseguindo me livrar deste eco, escrevo para elaborar. E, ao falar em erros, não me refiro, em nenhum momento, a violências, preconceitos ou faltas graves de caráter, que exigem limite e posicionamento.
Sou uma pessoa de relações profundas: desde criança não vejo necessidade em interagir com muita gente só para ter mais conexões; mas sempre cultivei vínculos fortes de amizade por onde passei. É dentro dessas relações — a maior parte delas sólida há mais de dez anos — que eu me reconheço, me percebo, construo minha própria identidade e ajudo o outro a fazer o mesmo. Por serem longos, esses relacionamentos, necessariamente, são mais densos, têm história e complexidade: são pesadas âncoras que me mantêm coerente comigo mesma.
Vivemos em uma época de cancelamentos, muitos deles válidos — especialmente quando se trata de violências ou questões éticas que não podem ser relativizadas —, mas que certamente espelham elementos dominantes da nossa sociedade: a intolerância ao equívoco alheio, a facilidade assustadora de soltar a mão de quem te desagradou, te decepcionou ou simplesmente não entregou exatamente o que você esperava. Nos tornamos descartáveis.
As pessoas estão cada vez mais imersas em suas próprias vidas, em uma espiral de individualismo em que só o que EU sinto e penso é correto ou apropriado. E isso só gera elos cada vez mais frágeis, em que a superficialidade é um acordo tácito de proteção mútua.
E então, essa mania proveniente do mundo digital de apararmos as arestas para nos mostrarmos quase perfeitos e mais palatáveis emerge também nas relações: nos policiamos o tempo todo: o que dizemos, como dizemos, o que o outro vai sentir ao ouvir, se estamos sendo justos o suficiente, parecendo inteligentes o suficiente. E, ao primeiro ruído, inevitável em qualquer convivência, o silêncio, o abandono. O medo de sermos descartados suprime o espaço para o erro, para a vulnerabilidade. Parece mais simples para todas as partes fugir ao contato com qualquer situação que possa gerar desconforto, constrangimento ou, de alguma forma, ferir o nosso tão inflado ego. A decepção — natural às altas expectativas que geralmente criamos — se torna o fim, quando na verdade deveria ser pretexto para uma conversa, para aprofundar e estreitar o vínculo.
São as conexões profundas que tecemos ao longo da vida que lhe dão verdadeiro sentido — e exigem tempo, energia, coragem e paciência — recursos cada vez mais escassos. É preciso nos despir das máscaras, ter paciência, ternura e afeto para contornar os incômodos que essa construção de sentido conjunta traz. É preciso espaço para o erro. Para sermos inteiros, luz, sombra e todas as nuances entremeadas.
Deslizes, comportamentos não tão agradáveis, traços de personalidade ainda imaturos, traumas e muitas outras questões atravessam cada um de nós e nos atingem de formas diversas. E devemos, então, lidar com o outro, em sua completude. Continuar amando o outro, apesar do outro.
Penso que estamos todos com medo: de errar, de sermos desprezados, caçoados, de sermos rejeitados pelo grupo e acabarmos sozinhos, sem chances de sobrevivência. Mas o antídoto não é nos blindarmos de qualquer desconforto social; é justamente o oposto: a aposta, sempre renovada e sempre arriscada, em se entregar ao outro por inteiro, e permanecer.
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