
Há um grande bloco de granito que nos sorri um feliz sorriso milenar num dos mais enigmáticos sítios arqueológicos do mundo, situado nos arredores de Évora, Portugal. Por razões que não cabem aqui especular, não tem, nem se quer, dez por cento da fama do inglês Stonehenge (aquelas colunas de pedregulhos encimadas por uma laje de rocha), apesar de serem milhares de anos mais antigos. O local é tecnicamente chamado de Cromeleque e fica na herdade dos Almendres, na freguesia de Guadalupe.
Os primeiros menires foram postos há cerca de cinco mil anos antes de Cristo. Assim, quando a pirâmide de Gizé, no Egito, estava começando a ser construída, a intrigante construção neolítica portuguesa já tinha mais de dois mil anos. A própria palavra “cromeleque” é, em si, uma relíquia: deriva das línguas que existiam antes da chegada do latim e remete à ideia de círculos (ou curvas) de pedras. O Cromeleque dos Almendres é exatamente isto: um complexo de monolitos que formam amplos círculos interligados.
Não bastando a antiguidade, impressiona também saber que a população que habitava a região frequentou aquele recinto por mais de três mil anos, dado constatado pelo fato de essa quantidade de anos ser o intervalo entre os primeiros objetos assentados e os últimos; isto é, num ínterim equivalente a seis vezes a idade do Brasil, grupos humanos acharam alguma pedreira, cortaram e moldaram os blocos (boa parte desse tempo sem conhecerem ferramentas de metal), transportaram os calhaus (não há certeza de como…), e os ergueram cavados no chão (ainda não se sabe como…), isso tudo num mesmo lugar. Então, homens e mulheres, perseverantemente, ao longo de três milênios, erigiram cerca de cem peças, que corresponde a plantar uma a cada trinta anos.
Qual a função daquelas místicas circunferências? Não se sabe ao certo… Sempre se supõe alguma função espiritual conectada com o cosmos: entre os obeliscos centrais do Cromeleque e outro que está fincado a mais de um quilômetro de distância, há um alinhamento que harmoniza com o ponto onde nasce o sol no Solstício de Verão.
Talhadas na superfície de alguns exemplares, requerendo olhar atento, encontram-se misteriosas figuras: anéis, traços curvos e semiespirais.
Contudo, esmaecida no cume de uma das rochas, face voltada para o poente, nos sorri uma larga bocarra, que ri para o pôr do sol há, aproximadamente, sete mil anos: alguma coisa de dois milhões e quinhentos mil dias…
São menos que meia dúzia de traços: arquétipos, ancestrais, infantis. Simples: uma ilustração da humanidade quando ainda criança.
A pouco mais de uma dezena de quilômetros daquela freguesia, encontra-se a cidade de Évora, resguardada por entre conservados muros medievais, município da famosa Capela dos Ossos.
A ermida é composta por milhares deles: fêmures, tíbias, muitos e muitos crânios; o seu interior soturno, lúgubre, iluminado por duas ou três velas, é acessado apenas por uma única entrada, em cujo frontal se lê o vaticínio do que possa ser o nosso destino: nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.
Talvez o espaço orbicular formado pelos maciços monolitos expresse a humanidade em sua infância: comunitária, aberta, sorrindo para o percurso da luz solar. Talvez diga do paraíso perdido, do tempo quando ainda não estávamos lançados ao temor do pecado e da morte; do tempo quando, naturalmente, a vida desabrochava e fenecia; alvorecia e anoitecia, naturalmente, como o percurso do sol de inverno a verão.

