
Hanna não sabia ler nem escrever. Mas poderia a vergonha de ser analfabeta ter determinado seu comportamento durante o processo e, antes dele, no campo de concentração? Poderia o medo de ser desmascarada ter sido maior do que o medo de ser responsabilizada pelos crimes que cometera? Teria Hanna assumido culpas que não eram suas para esconder aquilo que considerava ainda mais vergonhoso: a própria incapacidade de ler e escrever?
Esse trecho de O leitor, romance alemão publicado por Bernhard Schlink em 1995 e adaptado para o cinema em 2008, revela uma fragilidade inimaginável na figura de Hanna. A mulher que, aos 36 anos, seduziu um jovem de 15 e que foi capaz de cometer atrocidades contra mulheres judias em um campo de concentração é a mesma que, diante do tribunal, assume a autoria de algo que não fez para esconder um segredo que considera ainda mais vergonhoso: não sabe ler nem escrever.
Embora a obra aborde questões muito mais complexas a serem analisadas, entre elas, os crimes de guerra e a culpabilização de seus responsáveis, o ponto que me causou mais incômodo nesta leitura foi, justamente, o motivo que levou a protagonista a se tornar uma pessoa desprezível. Hanna preferiu assumir todas as culpas, inclusive aquelas que não lhe pertenciam, a confessar que muitas de suas escolhas estavam relacionadas à sua condição de analfabeta. Fugiu de empregos e oportunidades, mudando a rota de sua vida todas as vezes em que a sua vulnerabilidade esteve a um passo de ser descoberta. Mas por que ela preferiu se tornar uma criminosa quando, assumindo a sua condição, poderia ter encontrado outras alternativas?
A questão é que nem sempre é fácil expor as nossas fraquezas. Muitas vezes, preferimos mentir para os outros e até para nós mesmos a ter de encarar as nossas próprias verdades. Omitimos particularidades, escondemos aquilo que nos diferencia, disfarçamos a nossa verdadeira essência e construímos, aos poucos, uma versão de nós mesmos que acreditamos ser mais suportável.
Quantas vezes o desejo de nos encaixar fala mais alto do que a razão e, para sermos aceitos, exigimos de nós mesmos aquilo que jamais admitiríamos em outra pessoa? Isso acontece quando, para pertencer a um determinado grupo, precisamos criar uma imagem de acordo com o que os outros esperam de nós. E então passamos a controlar o que dizemos e o que fazemos, escondendo tudo o que consideramos inadequado.
Hanna foi capaz de enfrentar o julgamento por crimes terríveis, mas não conseguiu admitir aquilo que considerava uma vergonha maior: não saber ler. Só depois de tantos anos de prisão aceitou a ajuda de Michael e, por meio das fitas cassetes com as leituras que ele gravou, finalmente aprendeu. O romance não oferece uma explicação para o suicídio de Hanna, mas o fato de ele acontecer depois de ela ter lido o relato de uma das sobreviventes dos crimes que ajudou a cometer permite pensar que, naquele momento, tenha compreendido a dimensão daquilo que havia feito.
Durante anos, Hanna acreditou que não saber ler era uma vergonha maior do que admitir os crimes que cometera. Quando finalmente aprendeu, também passou a compreender o peso das próprias escolhas. A mesma leitura que lhe abriu um mundo novo também lhe devolveu um passado do qual já não podia se esconder.