
A longevidade é fato. No mundo e no Brasil. O desafio posto para nós é como viveremos este tempo a mais de vida que ganhamos.
Para chegar à velhice saudável ideal e usufruir dos sonhos que realizaremos, nos vendem que é preciso tomar colágeno, vitaminas, beber muita água (mas não pode ser água demais), comer uma alimentação balanceada, fazer atividade física (de força, aeróbica, de equilíbrio, de alongamento), ter um sono regular, fazer terapia. Pra tudo isso, dinheiro é fundamental, e é como se dependesse apenas do nosso esforço individual alcançar a velhice desejada.
Pensando na aposentadoria
Sem dúvida que possuir um capital financeiro para envelhecer é importante. Porém, o que se constata é que 62% dos trabalhadores afirmam não reservar nenhum recurso para aposentadoria, conforme pesquisa da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira com a Axxus, de 2025.
Mas, mesmo entre os que poupam, predomina a incerteza. Apenas 19% dos que investem em previdência privada acreditam que terão condições de manter uma vida financeira saudável sem depender de terceiros.
Outros 38% reconhecem que terão de continuar trabalhando para sustentar o padrão de vida. O medo de envelhecer sem recursos está tão presente que só 7% dos que contribuem com o INSS acreditam que o benefício será suficiente para viver com dignidade.
Entre os que não contribuem, ao serem questionados por que não contribuem para o INSS, 87% responderam simplesmente: falta de dinheiro. Esse dado revela que o problema não se limita à descrença no sistema previdenciário, mas à ausência de margem financeira para planejar.
Outro dado relevante da pesquisa está na área da educação financeira. Nada menos que 95% dos entrevistados nunca receberam nenhuma orientação sobre aposentadoria. Entre os poucos que tiveram algum contato com conteúdos sobre o tema, 98% disseram que o aprendizado não foi suficiente para organizar uma vida financeira sustentável.
A informalidade, que atinge quase 39 milhões de trabalhadores, é outro obstáculo estrutural. Sem contribuição regular, essas pessoas ficam excluídas tanto do INSS quanto de planos de previdência privada que exigem aportes mensais. Além disso, trabalhadores informais têm renda variável, o que dificulta o compromisso de longo prazo.
Tem saída pra essa realidade?
Antes de continuar, dinheiro traz felicidade?
Um estudo conduzido pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, com o economista americano Angus Deaton, ganhadores do Prêmio Nobel, e posteriormente revisado com o pesquisador Matthew Killingsworth, correlacionando o nível de renda com o grau de satisfação pessoal e bem-estar emocional, tentando responder a essa pergunta.
Na primeira edição da pesquisa, em 2002, chegaram à resposta de que o valor necessário seria de US$ 75 mil/ano. Na revisão do estudo, em 2023, encontraram que a felicidade é maior quanto maiores são os rendimentos até o teto de US$ 500 mil/ano. E, entre aqueles que recebiam valores maiores que estes, mais dinheiro já não significava mais felicidade.
Pessoas felizes se sentem ainda melhores conforme ganham mais dinheiro; por outro lado, entre pessoas infelizes, o bem-estar para de aumentar quando um certo nível de renda é alcançado. Para pessoas mais pobres, o dinheiro claramente ajuda muito, mas para quem tem uma renda decente e ainda se sente miserável, a fonte da tristeza provavelmente não é algo que o dinheiro possa consertar, como pessoas enlutadas e deprimidas, por exemplo.
Outro estudo interessante realizado pelo pesquisador Jan-Emmanuel de Neve, também professor de Economia e Ciências Comportamentais da Universidade de Oxford, revela uma relação logarítmica entre ter um rendimento maior e o bem-estar emocional. Digamos que você receba um salário de R$ 30 mil/mês. Se você receber um aumento para R$ 60 mil, ficará muito alegre! Mas, se receber um aumento de R$ 60 mil para R$ 90 mil, essa alegria já não será tão grande quanto aquela experimentada anteriormente. Para que houvesse a mesma recompensa emocional, o rendimento precisaria ter dado o salto de R$ 60 mil para R$ 120 mil.
Nessa pesquisa, ele percebeu a mesma relação encontrada nos estudos do professor Kahneman, em que ter mais dinheiro faz menos diferença no bem-estar emocional.
Todos esses estudos servem para nos mostrar que nossa relação com o dinheiro é mais complexa e emocional do que normalmente acreditamos, quando imaginamos ser puramente racional.
O professor De Neve é coautor do relatório de felicidade da ONU e lembra que, nessa matemática, após garantidas as necessidades básicas, outros fatores entram na equação, como viver num país igualitário, ter amigos, possuir vínculos de qualidade, ser independente – financeira e emocionalmente.
Pra onde caminhar
Tendo em mente que preparar-se financeiramente é importante, mas não é 100%, pois o dinheiro não é tudo. Pois, ao longo da vida, também é preciso construir a velhice pensando em outras áreas que são importantes para que se tenha qualidade e dignidade, como a saúde física, mental, emocional e social.
Tendo em mente que, quanto mais cedo iniciar uma poupança, mais segura e tranquila será sua velhice em termos financeiros, o que talvez seja uma das maiores fragilidades das gerações que estão envelhecendo atualmente.
Poupar para o futuro
Considerando que quem está lendo este texto faz parte da classe média, seguem 10 passos sugeridos pelo Instituto Longevidade para construir a própria aposentadoria:
1. Repense seu estilo de vida.
Avalie o que realmente é importante e priorize uma vida mais simples e econômica antes de se aposentar. “Qualidade de vida não é jantar fora em lugar caro e viajar sempre”, destaca José Vignoli, educador financeiro do SPC Brasil.
2. Poupe 10% dos rendimentos.
Depois de quitar despesas com alimentação, moradia e saúde, reserve, no mínimo, 10% dos seus rendimentos para poupar para aposentadoria.
3. Guarde dinheiro mensalmente.
Tenha disciplina e nunca deixe de fazer essa reserva, nem que seja necessário apertar os cintos ou abrir mão de alguma despesa.
4. Guarde também os extras.
Destine bônus, 13º e salários extras para a aposentadoria. “É preciso eliminar imediatismos, pensando no futuro. Viagens são importantes, mas podem ser realizadas com menos frequência e para destinos mais próximos”, analisa Vignolli.
5. Faça sua própria reforma.
Avalie, principalmente, se você não tem mais despesas do que rendimentos. “O mais importante é eliminar todos os gastos supérfluos. Não é para esperar sobrar dinheiro para poupar para aposentadoria, é efetivamente reservar uma cota para isso”, reforça o educador financeiro.
6. Controle os gastos.
Anote todas as despesas que fizer, de um café da manhã a um brinquedo para o neto. O objetivo é facilitar a visualização dos gastos e promover um melhor controle do orçamento, diz o vice-presidente da Abefin, Jusivaldo Almeida. “Os dados podem ser incluídos em planilha de Excel, em um aplicativo e até mesmo anotados em papel”, sugere. “O importante é o registro.”
7. Desconecte-se das redes sociais.
As redes sociais estimulam um estilo de vida consumista. Busque outras formas de interação com amigos e familiares.
8. Invista de forma personalizada.
Aplique o dinheiro de acordo com o prazo em que você vai se aposentar, aconselha Almeida. Fundos de renda fixa, por exemplo, dão mais retorno a longo prazo. O aluguel de imóveis, por sua vez, gera renda extra imediata.
9. Avalie suas finanças.
Antes de se aposentar, reavalie as próprias finanças e o quanto cresceu em patrimônio. Assim, além de conhecer o próprio legado, poderá, se for autônomo, avaliar sua contribuição ao INSS. “Um contribuinte de 20 a 30 anos deve contribuir em torno de 10% do rendimento, enquanto um de 40 e 50 deveria pagar 30%, uma vez que deve estar recebendo mais”, afirma o vice-presidente da Abefin.
10. Empreenda na maturidade.
Uma maneira de se manter ativo e ter uma renda extra na aposentadoria é empreender. Segundo Almeida, criar um negócio é uma alternativa para quem já acumulou experiência profissional e uma oportunidade para a família, que pode participar do projeto.
E eu com isso?
São sugestões que talvez você curta, talvez não. Minha intenção ao trazê-las é que sirvam de reflexão. Até que ponto esse tema está na sua pauta diária e de qual maneira?