
“Sim, bem primeiro nasceu o Caos.” — Hesíodo, Teogonia, v. 116.
Diz a sabedoria popular — amparada pela ciência — que os elefantes nunca esquecem. Guardam na mente os mapas das florestas, as fontes de água e os caminhos percorridos por gerações. Há também o mito poético de que, ao sentirem a proximidade do fim, buscam voluntariamente os antigos cemitérios de sua espécie: retornam para morrer onde tudo começou.
Na memória de quem viveu o cinema clássico, sob os ecos de suas trilhas sonoras, o elefante habita um lugar de pura magia. É impossível esquecer a doçura inocente do filme Hatari! (1962), quando os filhotes marchavam desajeitados em direção ao rio. Ao som da icônica melodia “Baby Elephant Walk”, de Henry Mancini — eternizada por aqui no cantarolar compassado de “Olha o passo do elefantinho…” —, o maior mamífero terrestre era a tradução exata da graça, da leveza e de uma natureza intocada que parecia sorrir para nós. Era a nossa infância moldada pelo fascínio de um mundo livre.
A imagem que agora ganha as telas do mundo é brutal, estática e hipnótica. Em meio a uma montanha de detritos coloridos, embalagens plásticas e restos do consumo humano, ergue-se a silhueta imponente de um gigante asiático. O registro intitulado “Camouflaged in the Garbage Dump” (também conhecido como “Toxic Tip”), capturado por Lakshitha Karunarathna em 2023, tornou-se um fenômeno global, acumulando distinções máximas, a exemplo do selo Highly Commended no Wildlife Photographer of the Year e do prêmio da Prince Albert II of Monaco Foundation.
Mais do que um feito técnico impecável, a imagem choca porque inverte a lógica da evolução e estraçalha a nossa antiga inocência cinematográfica.
Se no princípio a ordem nasceu do Caos, o que vemos hoje na região de Ampara, no Sri Lanka, é a inversão trágica dessa cosmologia e da própria biologia.
Guiados pelo instinto e pela lembrança de territórios que outrora foram verdes, esses titãs agora marcham ao encontro da ruína. O santuário ancestral foi soterrado pela nossa paisagem de descarte. Há uma ironia sombria no título “camuflado”: a textura da pele do paquiderme se confunde com os relevos cinzentos e disformes do lixão a céu aberto: a criatura milenar foi assimilada pela matéria sintética. O cheiro de comida orgânica apodrecida atrai o bando, mas o preço dessa busca é a ingestão de polietileno e toxinas, culminando em uma morte lenta por obstrução gástrica. Eles retornam ao ponto de origem, sim, mas para o túmulo que a humanidade cavou com o seu desperdício.
O verdadeiro valor do registro de Karunarathna reside em sua capacidade de funcionar como um oráculo visual. Não se trata de um retrato do passado, mas de um espelho do presente contínuo. Se o impacto inicial do cenário serve para nos tirar da apatia, sua permanência no debate público precisa atuar como um ultimato.
O alegre “passo do elefantinho” deu lugar a um cortejo fúnebre sobre montanhas de lixo. Se a aura do gigante foi tragada pelo plástico, a fotografia de Karunarathna deixa de ser apenas uma denúncia para se tornar profecia.
Desfazer o sagrado é a nossa forma silenciosa de apagar as luzes. É o sutil, mas definitivo, retorno ao Caos.