
Dia dos Pais! Fico cogitabundo, tentando aprender com esse lance. De saída, não posso deixar de dizer que o melhor dom da minha vida é justamente minhas filhas. Puxa, como eu as amo! Contudo, ao refletir sobre as mais de três décadas desde que esses dois maravilhosos seres se formaram no ventre da minha companheira e deram o primeiro passo rumo à vida, cheguei às conclusões que agora compartilho.
Em primeiro lugar, percebi o quanto as duas crias fincadas em meu coração — pois penso que a genética sozinha não tem competência para assegurar paternidade — afortunadamente me deseducaram. Ou me educaram ao revés de mim. Isso mesmo! Eu, que sou professor, que pareço um homem experiente, que teci projetos educacionais da mais alta envergadura — digo envergadura porque muitos se curvaram com o tempo —, acabei reinventando, pois a dinâmica paterna foi desmontando as certezas que eu julgava sólidas sobre educar e contribuir com a formação de uma vida. A primeiríssima coisa que me ensinaram, quase que de imediato, é que é falso todo e qualquer modelito de paternidade. Não funciona! “Ah, eu quero ser assim ou assado”, “eu não vou repetir os erros que fizeram comigo” — dizemos assim, julgando nossos velhos —, “eu serei, acima de tudo, amigo”, “eu serei isso ou eu serei aquilo”… Sinto muito! Não funciona mesmo! Elas me fizeram compreender que não há o “melhor pai do mundo” e não existe possibilidade de camuflar a paternidade embaixo do tapete da suposta amizade. Amigos, elas o fazem conforme suas empatia e tendências. Precisam de um pai! Pai, que seja também amigo. Porém, pai. O pior! Paternidade não é um presente que se adquire em lojas de departamento.
É verdade, não estou brincando! Em torno dessa figura paira toda uma demanda e expectativa social do tipo: “olhe, você é pai e pai não faz isso nem aquilo”, “agora você tem uma grande responsabilidade”. Não que essas coisas estejam desprovidas de alguma validade; contudo, não acontecem como uma exata ciência — se é que ela existe. Assim, minhas filhas me deseducaram porque foram progressivamente me ajudando a desembrulhar esse pacote que a história de vida me legou. Ou seja, não há nenhuma mágica capaz de tirar de sua manga um pai definitivamente pronto. E o mais engraçado é que, durante bom tempo, estive convencido de ser “O” pai. Não o sou, deveras. Estou sendo um aprendiz com altos e baixos, com vários erros e alguns acertos. Todavia, consciente do quanto é importante engajar-me nessa construção chamada paternidade.
Um processo de reconfiguração muito sofrido foi a desautorização da sacrossanta investidura paterna. Quando nossos filhos são crianças, parece muito aprazível vender a imagem de “Pai Herói”. Contudo, em meu caso, quando elas conseguiram violar o sagrado manto que possivelmente fazia circular em suas cabecinhas aquela imagem de perfeição, me enxergaram como um homenzinho igual a todos e qualquer um, portador de um montão de defeitos — certamente, com algumas qualidades. Eu fiquei um pouco à deriva, pois não havia mais como resgatar o nosso idílio e bucólico terno. Foi aí que tive que aprender a ser homem também para elas. Fizeram-me ponderar que, antes de ser pai, eu sou esse animal esboçado chamado homem, com toda inconclusão e limitação possível. Percebi que, sem me esforçar para tornar-me gente, eu não conseguiria assumir uma efetiva paternidade responsável. Ainda me causa um certo pesar saber que eu as decepcionei com minha imperfeição e até as frustrei em situações diversas. Mas é isso que sou! Um animal mutante. Obrigado por me ensinarem a me aceitar assim mesmo.
Tenho uma convicção inabalável de que elas, as duas, não precisam de um Deus humano em suas vidas. Precisam de um homem. Um homem simples que saiba entendê-las e acolhê-las, igualmente, em suas fragilidades. Alguém que esteja presente no sofrimento, na amargura, com e apesar de suas lamentáveis incertezas e finitude. Uma pessoa capaz de se regozijar com singelas conquistas e sensibilizar-se com gestos que poderiam passar despercebidos se não fosse a sensibilidade. Alguém que esteja na torcida, mesmo que as vitórias cheguem descansadamente.
Outro desmonte foi o de que não há pai no atacado; ele só se realiza na singularidade irrepetível de cada relação. Explico: só é possível tornar-se pai na diferença. Impossível ser pai de duas filhas mulheres, indistintamente. Não rola! Tenho inquestionável ciência de que a relação mantida com a “filha a” é significativamente diferente daquela que mantenho com a “filha b”. A “mulher B” tem necessidades que não são as mesmas da “mulher A”. Existem peculiaridades, — às vezes firulas —, porque cada pessoa é ímpar. Nessa mesma direção, fui instado a abandonar o papel de pai que estava exercendo em cada uma das fases da vida dela. Até hoje, continuo me tornando pai passo a passo, visto que o progenitor da criança não atende às necessidades da adolescente. O pai dessa adolescente está dispensado na juventude, e assim sucessivamente. A atividade de tornar-se pai é, de fato, uma dinâmica que experimento até hoje. Ainda estou aprendendo como ser pai depois que me tornei avô. Elas me fizeram um avô babão e estão sempre a me brecar em meus exageros.
Uma lição imprescindível é que não existe pai na solidão. Não digo macho e fêmea. Falo de duas pessoas adultas em processo de se relacionarem amorosamente entre si e interagirem com um terceiro na constituição de vínculos e afetos coletivos. Cada um é um, parece óbvio. Cada um realiza sua maternidade/paternidade na tecelagem pessoal. Entretanto, ao assumir o cuidado geracional, formam um que se aplica ao crescer com o outro. Em tal diapasão, ninguém tem a posse de ninguém, nenhum é objeto do outro. Cada um tem um chão para construir, uma história a ser feita. Porém, quero enfatizar que pai e mãe são realidades singulares nas quais um é a condição do outro.
Tem pai que postula em alto som: “eu amo todos os meus filhos iguais”. Impossível! Como você ama igual o diferente? Não caia nessa armadilha de mensurar seu amor, porque não parece sequer justo. E tenha certeza: o pai que sou para minha “filha a” não serve para minha “filha b”. O tanto — se quiserem colocar as coisas nesses termos — de amor que tenho por essa ou aquela pode sufocar a outra. Sei que há um consenso universal de que cada pessoa é uma. Contudo, na “hora h”, parece que nos esquecemos dessa simples regrinha e teimamos em tornar as pessoas “iguais”. A ironia é que somos naturalmente (a palavra é essa mesma, natural) diferentes. Assim, não esconda sua capacidade paterna abaixo de um suposto nome familiar que figura com bandeira de guerra na amálgama que nega idiossincrasias. Fuja dessa tentação. A construção da amorosidade nas relações é única, intransferível e dinâmica. E amar é sempre um risco.
Também fui criando a convicção de que todos os ideais de paternidade pautados na proteção exagerada e atenta às crias, na preocupação esmerada com o futuro delas, na vigilância para assegurar sempre uma conduta exemplar… rigorosamente não procedem. No meu caso, as menininhas cresceram e não quiseram galgar o próximo estágio na hierarquia do reinado que eu desejei para elas. Quiseram ver o mundo, unir-se aos demais, proceder como pessoas comuns, que é o que, de fato, nós somos. Meu Deus, que absurdo! Meus tesouros numa vida de e entre iguais. Já pensou? Mas eu passei anos projetando uma vida de êxitos — só êxitos —, felicidades — só contentamento —, múltiplas para elas. E o grande receio de ver o mundo machucando meus cristaizinhos? Não, isso não! Não havia espaço para o sofrimento, a adversidade. A própria vida cuidou de plantar em mim a percepção de que viver é sofrer. Não há como escapar do sofrimento. E daí? Daí que precisei desaprender meu abecedário de pai zeloso e bem-intencionado e entrar de cabeça numa relação cuja única certeza era que nossa união estava e está irremediavelmente albergada na confiança, respeito e admiração. Sobretudo, no cuidado! Se desejarem, chamem de amor, pois para mim é isso mesmo. E não há um só dia em que eu não diga que as amo.
Assimilei a muito contragosto a convicção de que o mundo não pede licença e não poupa pessoa nenhuma do sofrimento. Fui me convencendo de que, numa sociedade desigual, as chances de êxitos profissionais são igualmente desiguais. Entendi que o clamor da luta por uma vida materialmente confortável só poupa os que nasceram em berço de ouro. Dessa forma, abandonei meu abecedário e entendi que a construção familiar do amor extrapola sonhos tecidos na imaginação. Não existem nichos de isolamento. O que de fato podemos fazer é colocarmos incondicionalmente em caminho com o outro. Sem cobranças, sem perspectivas pessoais, sem ambições próprias. Estar junto e apoiar.
Construí um lastro interior robusto na direção de colaborar para a formação social e política de minhas filhas. Desejei interagir com elas na luta contra os preconceitos, os encobrimentos, as armadilhas do capitalismo… Hoje, elas me admoestam o tempo todo. Cobram minha coerência, criticam minhas contradições. Somos ensinantes e aprendentes uns dos outros.
Aprender a desaprender talvez seja uma possibilidade de ocupar esse tal espaço de paternidade. Tal aprendizado — ou desaprendizado — implica dar-se conta da própria condição de esboçamento e inconclusão. Afinal, somos animais instados a construir sentidos com e apesar dos outros. Por isso, amigos “paternautas”, convido-os à experiência da desaprendizagem paterna, alertando-os para que não preparem rotas ou planos de viagem; antes, pensem em linhas de fuga, em rotas alteradas de uma existência que não segue um único mapa de navegação. Acreditem no Pessoa: “…viver não é preciso”. Preparem tão somente um coração desprovido de pretensões e deixem-se preencher pela magia da relação, pelas dores e alegrias que isso representa, pela teimosia de tentar ser melhor. Eu creio que posso lhes assegurar que, no fundo, aprender a ser pai talvez não seja outra coisa senão aprender — sempre inacabadamente — a tornar-se gente.
Não posso deixar de dizer que, mesmo tendo rasgado meus esboços, tenho um imenso orgulho das mulheres valentes, conscientes e social e politicamente atentas às mazelas do capital e ao clamor dos empobrecidos. Hoje eu voltei a ser aprendiz, e as grandes mestras são, sem nenhuma dúvida, minhas filhas. Elas estão me educando para viver menos obtusamente. Estão me ensinando a olhar a vida com proatividade. Há uma construção de um amor que não se sustenta por si só, pois se desdobra em acontecimentos, no cotidiano e nas miudezas da vida.