
Na semana passada, o colega aqui da Sler Junot Cornélio Matos publicou um texto intitulado Muito além dos slogans, no qual, ao analisar a apropriação que vem sendo feita do slogan “Deus, Pátria e Família” pela extrema direita brasileira neste período pré-eleitoral, defende, em síntese, que o uso reiterado desse slogan pela malta bolsonarista é (mais) um atentado aos valores coletivos. Nas próprias palavras do autor:
Uma coisa a insistir é que não podemos renunciar aos símbolos de nossa pátria, pois eles pertencem a todos nós. O verde, o amarelo, o azul e o branco simbolizam as paragens que nos dão colo. A bandeira, o brasão, o Hino Nacional são patrimônio de nossa gente. Não simbolizam essa ou aquela ideologia, não são posse de partido, grupo ou facção. Não é possível aceitar passivamente o sequestro dos signos que nos representam.
O texto é muito bom, e eu concordo com suas premissas, mas não muito com suas aspirações. Não sei vocês, mas quando sou apresentado a argumentos desse tipo, só o que consigo pensar é no diálogo final do personagem Aldo Raine (vivido por Brad Pitt) no filme Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino. A maioria de vocês deve ter visto o filme, então apenas relembro rapidamente que o personagem, tenente de um comando caçador de nazistas numa operação secreta visando matar Hitler, recebeu novas ordens, a de escoltar em segurança o agora valioso coronel nazista Hans Landa, que fechou um acordo com o comando aliado para deixar o ataque devastador ao alto escalão nazista acontecer em troca de anistia e uma vida tranquila nos EUA.
Quando Landa, depois de levado para uma floresta próximo à fronteira, oficialmente se rende – a essa altura o cinema já queimou e todo mundo no comando nazista morreu, inclusive Hitler – Aldo mata o ajudante de ordens do coronel e revela que ainda tem uma última surpresa para o nazista. Ecoando um discurso que ele já havia feito no meio do filme, em uma cena de interrogatório na qual um soldado entregou posições inimigas após ver a cabeça de seu oficial ser reduzido a uma polpa vermelha, Aldo diz:
“…Tenho uma pergunta. Quando chegar à sua casinha na Ilha de Nantucket, imagino que vá tirar esse seu belo uniforme da SS, não é?… Foi o que pensei. Isso é algo que eu não posso tolerar. (…). Quer dizer, se dependesse de mim… você usaria essa maldita farda pelo resto da sua vida de merda. Mas eu sei que isso não é prático; quer dizer, uma hora você vai ter que tirar. Então… vou te dar uma coisinha que você não vai poder tirar”.
E aí o filme encerra com Aldo marcando uma suástica a faca na testa do nazista.
A cena é catártica e é um bom fecho para um ótimo filme, mas não defendo sua aplicação prática. Acho apenas que, no nosso mundo real, quando pessoas que flertam com ideário semelhante já praticamente fizeram o favor de se autoidentificar envergando símbolos fáceis de reconhecer, não vou ser eu que vou insistir para ter esses símbolos de volta.
Antes de ir adiante, deixo claro uma coisa: embora este meu texto seja, a seu modo, uma resposta provocada pelo do Junot, não é um ataque a ele, apenas um diálogo, e nem é focado diretamente em responder ponto por ponto os argumentos do meu colega colunista. Quero mais é discutir o que considero uma lacuna nesse esforço recorrente não apenas de Junot, mas de setores progressistas em geral, para resgatar ou pegar de volta coisas que hoje identificam a extrema direita, entre elas, mas não só elas, o lema “Deus, Pátria e Família”. O argumento costuma ser o mesmo: são conceitos valiosos demais para serem abandonados aos autoritários. Deus não pertence aos fascistas. A pátria não pertence aos nacionalistas. A família não pertence aos conservadores. Acho que os argumentos são todos válidos, mas incompletos, por desconsiderar algumas exceções no retrato e a vantagem preciosa que é saber de imediato quem é alguém que se identifica com essas coisas. Em outras palavras: talvez o problema não seja o sequestro desses conceitos pela extrema direita. Talvez o problema seja que eles nunca foram tão universais assim. E talvez a energia empregada para os recuperar pudesse ser mais bem utilizada na defesa de outros valores hoje muito necessários: liberdade, igualdade, democracia, justiça social, dignidade humana.
Deus não é de todos
Bom, talvez a maioria que leia esse texto não se incomode tanto com isso quanto eu, que sou um declarado ateu por política (como já manifestei aqui neste texto). Logo, o primeiro e mais evidente obstáculo para comprar a ideia defendida no ótimo artigo de Junot (sua recuperação histórica do fascismo no Brasil é muito boa) de que “Deus é de todo mundo” é esse: não é. Nem todo mundo acredita em Deus. Ao menos nesse Deus.
Pode parecer uma obviedade, mas ela costuma desaparecer quando se discute esse tipo de coisa. Quando publiquei esse mesmo artigo que mencionei no parágrafo anterior, ele, sei lá como, foi parar na mão de um celerado que me encheu o saco por mensagem insistindo que eu estava errado em afirmar que a existência de Deus é improvável por qualquer meio científico porque, segundo o iluminado, São Tomás já provou logicamente a existência de Deus. “Provou” é o teu nariz. É possível estender a lógica até onde se quiser, porque o que eu argumentei é que não há prova científica possível, e imagino que nunca haverá, de que um tiozinho barbudo numa nuvem criou um universo e manipula cada um de seus átomos.
Crentes frequentemente falam de Deus como se estivessem falando de algo universalmente reconhecido, quando na verdade se referem a uma convicção particular. Com bases históricas, com uma ampla bagagem de discussão e exegese, mas ainda assim, nichada nos termos da sua fé. Há católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas, budistas, xintoístas, animistas, adeptos das religiões afro-brasileiras. Há também agnósticos, ateus e pessoas que simplesmente não organizam suas vidas em torno de qualquer crença religiosa. Há até satanistas, veja só, a maioria deles, aliás, ateus zoeiros usando os meandros das leis religiosas para provocar a crentalhada. Se eu tivesse todo esse tempo livre nas mãos, até gostaria de participar da brincadeira.
John Rawls observava que uma democracia moderna pressupõe o “fato do pluralismo”: diferentes concepções de mundo coexistem legitimamente em uma mesma sociedade. Não existe um fundamento metafísico compartilhado por todos. Existe apenas o acordo político sobre regras de convivência. Quando setores progressistas tornam uma causa nobre tentar reivindicar Deus de volta para si, acabam aceitando a premissa de que Deus deve ocupar o centro da vida pública. Apenas discordam de quem seria o seu verdadeiro intérprete.
Não consigo ver a quem essa premissa pode beneficiar além do outro lado, que já se utiliza dela. A história mostra que o discurso religioso foi repetidamente utilizado para legitimar relações de poder e sistemas de exclusão, já que Deus quase sempre aparece na conserva trazido por alguém disposto a falar em seu nome. Por isso, talvez exista uma vantagem inesperada em deixar Deus com os sectários: torna-se mais fácil identificar quando a religião está sendo usada como justificativa para projetos autoritários. A fusão entre fé e poder político perde parte de sua capacidade de se apresentar como consenso universal.
Lembrando o que escreveu Baruch Spinoza no seu Tratado teológico-político, “A finalidade do Estado é a liberdade“. Ou seja: a criação do Estado não visa a controlar os cidadãos e a manter ordem e obediência artificial pelo medo. O Estado deve garantir a segurança para que cada pessoa possa usar a sua razão em paz e preservar sua existência.
A pátria como um acidente
Tem também a questão do resgate da pátria. Quando se fala nisso, me parece ainda mais difícil de compreender, uma vez que, embora ateu, reconheço que Deus é uma noção palpável presente na vida intelectual e prática de uma multidão. Mas quando se fala em “pátria”, o que exatamente estamos tentando recuperar?
O país em que nascemos, a língua materna que nos cerca e a forma como a sociedade à nossa volta se organiza, com seus hábitos, leis e símbolos, é tudo fruto de um acaso da biologia e da geografia: nascemos em um território, filhos de nossos pais. Não tivemos influência alguma neste acontecimento. Somos brasileiros pela mesma razão que outras pessoas são nigerianas, japonesas ou islandesas: acaso.
Ernest Renan afirmou na conferência O que é uma nação? proferida na Sorbonne em 1882: “A nação moderna é (…) um resultado histórico produzido por uma série de fatos convergentes”, ou seja, as nações são construções históricas, não realidades naturais. Isso não significa que os vínculos nacionais sejam falsos. Benedict Anderson, em seu excelente Comunidades imaginadas, argumentava que, ao contrário do que o lugar-comum afirma, o nacionalismo não é uma ficção a serviço do estado nacional totalitário, ele por vezes é um sentimento já existente, informado por anseios e aspirações que emanam da vida social, e que é aproveitado pelo autoritarismo como um apelo a uma união homogênea do povo contra problemas e ameaças que costumam ser identificados (equivocada ou perversamente) como originários em algum elemento externo.
Se essa é uma abordagem que reconhece a existência de vínculos comunitários reais em um povo, também lembra que laços nacionais não possuem o caráter sagrado que os nacionalistas lhes atribuem, estão mais vinculados a uma mentalidade de classe do que de território.
Ainda: a própria história do século XX deveria nos tornar cautelosos diante de qualquer idealização patriótica. Poucas ideias produziram mais destruição política do que a crença de que a pátria é uma entidade superior à qual indivíduos devem se submeter – curiosamente, a atual extrema direita em ascensão no mundo tem um dos discursos mais individualistas já espalhados em qualquer época histórica, e ainda assim brande a religião e a pátria como as instâncias “comunitárias” às quais cada um deve obediência. Mas doutor, divago.
O nacionalismo raramente permanece moderado por muito tempo. Quando exaltado em excesso, costuma produzir exatamente aquilo que promete combater: intolerância, exclusão e autoritarismo. Estamos vendo o nacionalismo e seu subproduto, o patriotismo, usado neste exato momento como o discurso de justificação para violações sistemáticas de direitos humanos nos EUA, El Salvador, até mesmo na complexa situação do atual massacre de Israel sobre os palestinos o componente nacional se confunde com o componente identitário (também religioso, aliás).
Em nosso Brasil brasileiro, para mim a coisa mais confusa nos últimos anos foi a recente mobilização nutela para “resgatar” a camisa da seleção brasileira das mãos do bolsonarismo durante a Copa do Mundo. Para mim, só ajudou a confundir quem é quem numa situação que já estava pacificamente demarcada. É claro que a camisa pertence, em tese, a todos os brasileiros. Mas será mesmo uma prioridade política recuperá-la? Quando seu próprio criador, o doce e incisivo Aldyr Garcia Schlee, já dizia que por ele a camiseta podia ficar com o outro lado lá que ele não tinha mais nada que ver com ela?
Nem todo símbolo precisa ser disputado. Alguns podem simplesmente ser abandonados ao ridículo. Existe uma utilidade prática nada desprezível na apropriação que a extrema direita fez da Canarinho: ela se tornou um uniforme de fácil identificação sem que a gente precise sair tatuando símbolos na testa de ninguém.
Que tipo de família?
Chegamos, então, ao terceiro elemento do slogan. Talvez seja o mais problemático dos três. Porque a família é uma noção muito mais reconhecível e disseminada, e não é algo que nós, os progressistas, possamos simplesmente “deixar lá com eles” sem consequências nefastas. Também a esquerda progressista, ao menos parte dela, valoriza a família, mas não o modelo de família monolítica que a direita elegeu como seu tótem. O que me parece inconciliável não é o conceito, é sua definição e o que ele abarca.
Há famílias adotivas, homoafetivas, monoparentais, arranjos entre diferentes laços de parentescos, como avós criando netos, tias criando sobrinhos, o número de configurações é astronômico. Pesquisa veiculada no ano passado pelo programa Fantástico (veja aqui), realizada pela Fundação Getúlio Vargas e baseada em dados do IBGE, apontou que 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres – mais de 41 milhões de domicílios têm mulheres como as principais provedoras. Há ainda outra questão: será um casal sem filhos uma família? Porque o perfil de mulheres casadas e sem filhos saltou de quase 2 milhões para mais de 6 milhões em 12 anos. E isso em um país em que começa a se insinuar, de modo sinistro, a campanha importada da Direita americana para reverter o direito de voto às mulheres, com influenciadoras carinha de anjo e língua de serpente ganhando uma grana obscena para propagandear esse tipo de ideia de jerico em suas redes e plataformas.
Enquanto isso, a direita bolsonarista segue apegada a uma noção de “família natural” como “criada por Deus” com marido, esposa e filhos
Em suas pesquisas de campo na Polinésia e na Melanésia, a antropóloga Margaret Mead encontrou, ainda na primeira metade do século XX, sociedades em que papéis de gênero eram invertidos ou diferentes dos padrões ocidentais da época – o mesmo padrão que a direita ainda quer imposto quase cem anos depois. Segundo a autora demonstrou em mais de uma obra, arranjos familiares variam enormemente entre culturas e períodos históricos, impactando diretamente a dinâmica da criação dos filhos e da liderança do lar.
Quando a extrema direita fala em família, ela raramente se refere à família em toda a sua diversidade. Refere-se a uma forma específica de organização familiar: heterossexual, patriarcal e reprodutiva. Por isso, a disputa em torno da palavra frequentemente parece artificial e improdutiva.
Não se trata de recuperar um conceito universal. Trata-se de ampliar um conceito que foi historicamente utilizado para excluir. Essa é uma luta mais complexa e diversa do que a da camisa da seleção e a do amigo imaginário nos céus.
Além e aquém
Por isso, talvez não seja o caso de insistir que o slogan não se refere a coisas exclusivas do bolsonarismo, e sim martelar a ideia de que esse arranjo, “Deus, Pátria, Família”, não quer dizer de fato o que seus defensores afirmam. Essa sequência, nessa ordem, dita por esses personagens, é uma coleção de conceitos marcados por ambiguidades, exclusões e pressupostos autoritários.
Em vez de gastar energia tentando democratizar um velho lema autoritário, talvez fosse mais útil fortalecer princípios genuinamente universais: direitos, liberdade, igualdade, pluralismo e solidariedade.
E com licença que eu vou procurar a igreja satanista mais próxima…