
Ando bem pelos meus caminhos, mesmo que, entre uma caminhada e outra, me depare com comentários que considero preconceituosos. Um exemplo: “Mais ansiado que anão em comício”. Mais uma vez, e são constantes, o nanismo é citado de um jeito infeliz. Achei estranho e comentei. Baseada, é claro, na minha experiência cotidiana. Até porque já participei de tantos comícios e nunca senti ansiedade! Pelo contrário. Estava no meio da multidão tranquila porque era uma opção minha estar ali. Mas, pelo jeito, quem não convive com pessoas com nanismo não vê assim. Minha reação foi interpretada como coisa desses tempos “politicamente corretos”, o que não é. Tem a ver com respeito pela minha diferença e pela diferença de tantas outras pessoas, que precisam se impor para serem tratadas com dignidade.
Mas a vida é movimento. Portanto, frustrações, fracassos e tristeza fazem parte da rotina de todos nós, assim como conquistas, sucesso e alegrias. Reflexões sobre as vivências cotidianas são sempre bem-vindas, porque não podemos negar nossa história, nossa condição, nossas experiências, conquistas e desistências. Para não sucumbirmos diante da discriminação que nos ronda, precisamos de muita atenção para manter a calma e reagir na medida com o que acontece ao redor.
Pouco depois do comentário infeliz sobre o nanismo, me deparei com uma frase racista, a partir da expressão “Agora é tudo com a turma da senzala”. O episódio aconteceu no início de setembro, na Universidade Federal de Pelotas/UFPEL, quando o coordenador do curso de Gestão Ambiental utilizou a expressão em uma troca de e-mails institucionais sobre demandas administrativas de rotina. A mensagem referia-se a duas servidoras públicas da instituição que são negras. Uma delas registrou o caso na Polícia Civil para investigação legal. O episódio foi repudiado e várias medidas foram tomadas. O servidor foi afastado da função de coordenador. A reitoria da UFPEL instaurou um procedimento administrativo interno para apurar os fatos. Movimentos sociais e sindicatos ligados à universidade repudiaram o que aconteceu, classificando como violência racial.
O racismo é mais complexo porque vai além das ofensas individuais e agressões públicas explícitas. Escancara o cruel enraizamento do racismo estrutural ao definir oportunidades e lugares sociais que podem ser frequentados pelas pessoas com base nas suas origens e na sua raça. É necessário lembrar sempre o que disse Angela Davis, filósofa e ativista norte-americana: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, o que exige uma postura ativa de combate. A omissão diante de uma atitude preconceituosa, além de mostrar covardia, alimenta a discriminação.
Discriminação que hoje se manifesta de forma cruel.
Recentemente, o ator João Victor Gonçalves, que atualmente interpreta Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida”, foi atacado de forma covarde por jovens ao chegar sozinho na Cidade do Rock (RJ). Após sair do carro de aplicativo, João começou a ser filmado pelo grupo que se aproximou dele usando termos ofensivos relacionados à sua aparência. Visivelmente constrangido e acuado, continuou caminhando como se nada estivesse acontecendo. Depois, nas suas redes sociais, com o vídeo dos criminosos já viralizado, afirmou: “Assim como o meu personagem na novela, eu engoli e segui”. Ficou evidente o ataque homofóbico! E em uma pequena transmissão que fez para falar sobre o episódio, o ator não conteve as lágrimas.
Como disse João, homofobia não é entretenimento. É crime!
Minha solidariedade ao querido ator, nas palavras de Léo Uliana, influenciador digital que traz pontos fundamentais para reflexão.
“Situações como essas ocorrem todos os dias com pessoas LGBT’s, e isso não pode ser considerado normal.”
“O preconceito é um mal que deve ser combatido por TODOS, e não somente por aqueles que se identificam como LGBTs.”
“Com certeza todos têm um familiar, vizinho ou amigo LGBT. Não contribua e nem permita que qualquer tipo de violência contra essas pessoas seja naturalizado.”
“Para o mundo ficar bacana para todos, todos devem ser bacanas com o mundo.”
*A você, João Victor, fica aqui o nosso carinho, apoio e o desejo de que esse episódio não lhe tire o brilho que fez de você um dos atores mais queridos da atualidade.
Vivemos em um país incrivelmente diverso e aprender com as diferenças que nos constituem é fundamental. E isso não tem nada a ver com politicamente correto ou não. Tem a ver com respeito pelo outro, não importa a sua origem, a sua condição física, social, mental, intelectual, a sua sexualidade e as suas escolhas. Tem a ver com civilização, conhecimento, dignidade humana.