
O que faz uma mulher negra sentir que realmente pertence aos lugares que ocupa?
Passo os dias pensando sobre essa questão, enquanto me divido entre a rotina do meu negócio, os compromissos da maternidade, a atuação em coletivos e as quase duas décadas dedicadas à arte da fotografia.
No mês de agosto, estive no evento Cidade da Advocacia, acompanhando lideranças como Denise Denicol, Letícia Padilha, Mariana Ferreira dos Santos, Monica Marques e Aricia Rosa Santos. Também registrei a posse da nova diretoria da Associação das Advogadas e dos Advogados Criminalistas do Estado do Rio Grande do Sul (Acriergs), a convite do presidente Leandro Soares. Eram ambientes e histórias distintas, mas havia algo muito forte atravessando cada cena: a ocupação consciente de espaços por profissionais negros que constroem trajetórias de liderança, conhecimento e representação.
Para mim, estar atrás da câmera nesses momentos carrega um sentido profundo que vai além da profissão, pois sei exatamente o peso de uma pessoa não se enxergar em determinados ambientes.
Quando fotografo uma mulher negra assumindo um posto de comando ou sendo reconhecida por sua excelência, compreendo que a imagem vai muito além de uma boa composição técnica.
A fotografia registra a presença, a caminhada e a conquista de um território que precisa ser visto e respeitado. O meu olhar não nasceu pronto: ele é alimentado no cotidiano, nas experiências que presencio e transformado pelas vivências que me atravessam.
Nos últimos anos, entendi que crescer profissionalmente exige me permitir aprender coisas novas, inclusive aquelas que jamais caberiam em um plano de negócios, como ensinam os cursos que frequentei e que sempre me ajudaram muito. Aprendi a tocar tamborim no Bloco das Pretas, estou aprendendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e me desafiei a dançar. Paralelamente, fortaleço meus laços com espaços de reflexão e acolhimento: sou associada da Odabá – Associação de Afroempreendedorismo e faço parte do Núcleo de Pesquisa Antirracismo da UFRGS há mais de três anos.
Vivências em projetos como o Afro.Me – Curso para Afroempreendedores em Canoas, e na Trilha Afrofuturo Empreendedor, da Odabá, me provaram a força de construir redes genuínas e compartilhar conhecimento. O pertencimento é construído nos encontros, nas trocas sinceras, no som do tamborim e nas águas do Festival de Oxum.
Quando uma mulher negra fotografa outra mulher negra — como nos trabalhos que faço com e para amigas e clientes —, a câmera não cria uma potência do nada; ela revela aquilo que sempre esteve ali. A imagem não altera uma trajetória já percorrida, mas tem o poder de contar quem esteve lá, quem construiu, quem chegou e quem segue abrindo caminhos para as próximas gerações.
Diante de tudo o que acompanho e vivencio com as lentes da minha câmera, fico me perguntando: a fotografia é apenas uma testemunha do presente ou é a ferramenta que nos permite construir o futuro? Daqui a alguns anos, quando a gente olhar para trás, que lembranças, que rostos e acontecimentos mostraremos aos nossos filhos e netos? Tudo será resultado das nossas escolhas e descobertas que estão acontecendo agora.
Todos os textos dos membros da Odabá estão AQUI.
Cíntia Lentilha é empreendedora e fotógrafa há 19 anos (@cintia.lentilhafotografa). Formada pelo Foto-Cine Clube Gaúcho, desenvolveu sua técnica para a fotografia de mulheres negras. É associada Odabá e ritmista do Bloco das Pretas.