
“Merecemos viver no Forno Alegre? Há pessoas que não pensam nem no bem-estar dos outros nem no seu”, escreveu o jornalista Roberto Antunes Fleck em um texto em que levanta questões relacionadas ao desmatamento absurdo, árvores derrubadas sem critérios, descuido total com o meio ambiente. Roberto pergunta: “Para quê? Onde está a prefeitura que não zela pelo bem-estar do cidadão e não fiscaliza os desmandos de quem destrói as árvores que nos garantem sombras no verão? Não é por acaso que nossa cidade é chamada de Forno Alegre. Um dos motivos é a escassez de árvores, eliminadas para dar lugar à construção civil, sem nenhum critério científico. Não adianta se queixar do calor insuportável no verão quando destruímos o meio ambiente, como se isso fosse ter bom senso e uma atitude inteligente e saudável. Vivemos tempos obscuros em uma capital que se desumaniza sob os aplausos de porto-alegrenses que não têm a mínima consciência do que fazem, como se fossem muito espertos e lúcidos ao extremo”.
Só posso concordar com a reflexão do Roberto! E vou colocar aqui algumas ideias que não são novas, porque fazem parte do meu repertório. O objetivo é sugerir um olhar mais agudo e analítico para o meio ambiente que já deu todos os recados possíveis de exaustão. As tragédias climáticas não pouparam e não vão poupar o Rio Grande do Sul, mas o abuso segue. Árvores derrubadas para dar lugar à privatização desenfreada. Quem se importa? Certamente não é quem comanda o Município e o Estado.
O meio ambiente, o perfil das cidades contemporâneas e a qualidade de vida são temas que ocupam o cotidiano dos ambientalistas devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos em todos os lugares. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são hoje um bom lugar para se viver? Ainda é possível humanizá-las e transformá-las em espaços saudáveis, de compartilhamento, colaboração e celebração da vida?
Vivemos em cidades cheias de conflitos criados pelo poder público, pelo poder econômico e por nós que as habitamos. Conflitos relacionados ao tratamento que damos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que não separa o lixo adequadamente, do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos ambiciosos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não se importam com os moradores, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito. Governam para quem mesmo?
É evidente que os espaços históricos precisam ser valorizados, que o nosso patrimônio precisa ser preservado e que essa discussão tem que ser multiplicada.
É fundamental difundir a ideia de que, para viver na cidade, não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que avançam para os céus sem observar as regras mínimas de uma convivência saudável, como o respeito pela natureza e pelo ar que respiramos. As cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos e as memórias que nos dão identidade, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis. Não podemos abrir mão da brisa, da paisagem cheia de verde, de horizontes amplos e coloridos, de humanização.
É evidente que precisamos de planejamento efetivo e transparente, uso honesto das verbas públicas, comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição. É evidente que as cidades são de quem vive nelas; merecem atenção, cuidado e muito mais.
As ditas autoridades que governam precisam combater a violência que corre solta pelas ruas e conter o aparato policial que chega atirando sem saber o que realmente acontece. E assim matam inocentes, dilaceram famílias e nada acontece. Precisam conter o racismo, o machismo e o feminicídio, que não dão trégua, e tantas outras inquietações que assustam e nos mobilizam cotidianamente, como a miséria espalhada pelas ruas. Quem acompanha as notícias no dia a dia sabe do que estou falando.
Sob o ponto de vista da ética, do acolhimento, da inclusão, da acessibilidade, da diversidade e do respeito, que são solenemente ignorados, este olhar pede urgência e ação.
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