
A pessoa pega o carro, enche de lixo empacotado e sai dirigindo. Os contêiner de coleta de lixo estão espalhados pela cidade, alguns mais, outros menos perto da sua casa. Mas, lembra, a pessoa está de carro… Ela para em frente a um terreno baldio e descarta todo seu lixo lá, sem dó nem piedade, nem consciência.
Já vi lixo espalhado em várias cidades, mas não como vejo em Caxias do Sul, onde moro numa área com muitos terrenos vazios e áreas verdes próximas.
Tem um lugar perto de casa, com estrada de chão e muita mata nativa ao redor, que termina na Rota do Sol. Ali, como em outras ruas similares, existe um lixão clandestino, acredite se quiser. Descartes de móveis, restos de obra e lixo comum. Já vi caminhonetes imponentes, carros comuns e até caminhão parado ali, descartando lixo e nem aí quando aponto a câmera e filmo a porquice.
Algumas casas têm lixeiras fixas, particulares, que ficam transbordadas de lixo alheio de quem não quer andar um pouco mais e carregar seu lixo até um contêiner de coleta. Eu mesma quis colocar uma lixeira em frente de casa e desisti quando vi a lixeira do vizinho com fila de carros parados pra largar lixo lá, criando um outro lixão clandestino na porta da casa dele.
Faço o que todo mundo com o mínimo de “penso” faz. Tenho lixeiras em casa e levo até o contêiner mais próximo periodicamente. Não caiu nenhuma mão até agora por fazer isso.
Onde foi parar aquela ideia genial que minha mãe ensinou de colocar o papel da bala no bolso se não tinha uma lixeira por perto? Levar uma sacola pra praia e recolher todo o lixo que você mesmo produziu? Ter um saquinho de coleta dentro do carro e não jogar nada pela janela?
Nas diferentes cidades em que morei, a forma de lidar com o lixo me ensinou muito sobre o lugar. Em Caxias, levamos até os contêineres. Em Florianópolis, colocamos na lixeira particular; cada um tem a sua em frente de casa e o coletor passa em dias específicos, sendo um deles exclusivamente para lixo reciclável. Nas cidades americanas em que morei, cada casa tem o seu mini contêiner, que deve ser colocado em frente de casa e recolhido no final do dia, onde o próprio morador define o tamanho e paga a taxa conforme o volume de lixo produzido. São três contêineres diferentes: um para lixo comum, um para recicláveis e outro para compostagem.
Mas, voltando pra Caxias do Sul, os contêineres espalhados pela cidade andam sempre em dupla: um para lixo comum e outro para recicláveis. Pois bem, muitas pessoas têm uma dificuldade gigante de fazer essa simples separação, ou talvez já não façam isso em casa. Já ouvi gente dizendo “ahhh, mas antigamente ninguém separava e tudo bem” ou “depois eles misturam tudo mesmo”, e a desculpa-mor: “são os catadores que misturam tudo”. Pode ter um pouco de verdade em algumas dessas desculpas, mas, se você faz a sua parte, não precisa culpar ninguém.
A nossa obrigação, como seres humanos teoricamente racionais, é cuidar do nosso próprio lixo como cuidamos dos nossos bens pessoais. Quando a gente não usa mais, acha um destino justo ou, de preferência, reutiliza, transforma, recicla ou simplesmente descarta da forma correta.
Me julgue, mas eu sou uma lixomaníaca. Desde pequena, adorava brincar com garrafas coloridas, embalagens de remédio, panos velhos e outras coisas que minha avó separava do lixo comum. Sim, uma criança estranha. Mas cresci numa casa de imigrantes refugiados, com uma avó maravilhosa que aproveitava tudo e não desperdiçava nada. Ela tratava o lixo com todo o respeito que ele merece.
Amadureci com a ideia da separação do lixo, quando o tema foi introduzido nas cidades. Minha filha aprendeu em casa pelo exemplo e na escola sobre todas as vantagens e usos do lixo reciclado. Já estudando moda nos Estados Unidos, conheci todo o negócio ao redor da reciclagem e trabalhei ativamente no show itinerante Haute Trash Fashion Show, um evento que percorria as cidades americanas com desfiles de roupas feitas exclusivamente com material reciclado.
Toda essa conversa pra chegar ao ponto que eu, que não puxo saco de ninguém, quero falar: o Programa Caxias Mais Limpa, da prefeitura da cidade. Por meio do programa, com o uso de câmeras, estão multando os queridos que são flagrados cometendo esse tipo de crime ambiental, num valor de R$7.348,50.
Um vídeo da Prefeitura viralizou na semana passada, mostrando um porco desaplaudido (desculpa aos porcos pela comparação) descendo do seu carro mini SUV e largando um monte de lixo num canteiro público. Foi filmado, multado e, espero, tenha aprendido a lição.
Claro que não é só em Caxias do Sul que tem lixo sendo jogado na rua. Onde tem ser humano, tem qualidades, defeitos e falta de noção. Mas se a educação não funcionou até agora, talvez doer no bolso tenha algum resultado.
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