
Ao longo da história, homens e mulheres encontraram maneiras diferentes de dividir o trabalho. A força física masculina era uma vantagem em determinadas atividades, enquanto a reprodução impunha às mulheres um enorme investimento biológico. Em muitas sociedades agrícolas, o controle da terra, dos animais, dos excedentes, da guerra e da defesa do território ficou predominantemente nas mãos dos homens.
Durante séculos, as mulheres tiveram menos acesso à educação, à propriedade, à política e às decisões sobre a própria vida. Não porque lhes faltasse capacidade, mas porque a sociedade havia decidido que determinadas atividades “eram coisa de homem”.
No Brasil, essa história começou a mudar de forma acelerada no último século. Em 1932, as mulheres conquistaram o direito de votar e ser votadas. Em 1962, o Estatuto da Mulher Casada ampliou sua capacidade civil, mas ainda dizia que o marido era o “chefe da sociedade conjugal”. Em 1977, veio a Lei do Divórcio. Em 1988, a Constituição estabeleceu que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Depois vieram novas conquistas, como a ampliação da participação política, a Lei Maria da Penha e a legislação sobre feminicídio.
Em poucas décadas, uma sociedade organizada durante séculos em torno da autoridade masculina passou a experimentar uma realidade completamente diferente. E talvez aí esteja uma das grandes transformações do nosso tempo. Durante muito tempo, força física, propriedade, guerra e autoridade foram importantes fontes de poder. Hoje, conhecimento, educação, criatividade, comunicação, tecnologia e cooperação têm um peso muito maior. O arado perdeu espaço para a fábrica. A fábrica perdeu espaço para o computador. E o computador já está dividindo espaço com a inteligência artificial.
O mundo mudou e os homens também precisam mudar. Ao mesmo tempo, a contracepção e os avanços da medicina deram às mulheres maior capacidade de decidir se, quando e quantos filhos desejam ter. A mulher, que antes podia passar boa parte da vida adulta grávida ou cuidando de crianças pequenas, passou a estudar, trabalhar, pesquisar, empreender, fazer política e ocupar posições de liderança. E está fazendo tudo isso. Os papéis sociais mudaram mais rapidamente do que a nossa educação emocional. Foi mais fácil mudar as leis do que mudar hábitos, sentimentos e expectativas construídos durante séculos.
As relações mudaram. Mas sentimentos como ciúme, rejeição, frustração, medo de abandono e desejo de controle continuam existindo. Quando esses sentimentos se misturam com uma cultura que ensinou alguns homens a associar masculinidade à autoridade, posse e controle, o resultado pode ser trágico.
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015: em média, um a cada cinco horas e meia. O maior número da série histórica iniciada em 2015. Entre os casos em que a autoria foi identificada, 60,9% foram cometidos por parceiros íntimos e 18,9% por ex-parceiros. A violência não começa no assassinato. Ela começa muito antes: no controle, na ameaça, na humilhação, na agressão, na incapacidade de aceitar a autonomia do outro.
Por isso, algumas frases deveriam ser ensinadas como se fossem matemática básica: ciúme não é amor. Controle não é cuidado. Posse não é relacionamento. E terminar uma relação não é uma declaração de guerra.
Então, o que fazer com os homens? Não precisamos devolver os homens ao arado, nem criar na escola aulas obrigatórias de crochê, tricô e corte e costura, embora aprender a cozinhar, lavar roupa e cuidar da casa talvez não fizesse mal a ninguém. Durante muito tempo, as escolas ensinaram essas coisas às meninas como preparação para serem boas esposas e boas donas de casa.
Brincadeiras à parte, precisamos de algo muito mais eficiente e mais difícil: ensinar meninos e homens a lidar com seus sentimentos. Ensinar que chorar não diminui ninguém. Que pedir ajuda não é fraqueza. Que ser rejeitado faz parte da vida. Que uma mulher pode dizer “não”, tudo o que vem depois precisa respeitar esse “não”. Que uma separação não significa humilhação. Que cuidar dos filhos não é “ajudar a mãe”. E que ninguém pertence a ninguém.
Uma nova masculinidade não significa um manual sobre como os homens devem ser. Significa justamente o contrário: permitir que deixem de estar presos a um único modelo de homem. A construção de relações mais saudáveis exige que homens e mulheres participem dessa mudança. Pais e mães educam meninos e meninas. Professores ensinam. Amigos influenciam. Parceiros e parceiras também educam uns aos outros, pelo exemplo, pelo diálogo e pelos limites.
O homem não precisa ser o provedor absoluto. Não precisa ser o mais forte nem quem deve ter sempre razão. Não precisa esconder seus medos. Não precisa transformar frustração em raiva. Pode ser pai, parceiro, cuidador, cozinheiro, professor, pesquisador, empresário, ou simplesmente alguém capaz de dizer: “Eu não estou conseguindo lidar com isso. Preciso de ajuda.”
Depois de milhões de anos de evolução, já está na hora de descobrir que a mais sofisticada tecnologia que ainda precisamos desenvolver é a capacidade humana de conversar, respeitar e amar sem transformar o outro em propriedade.