
O silêncio da motosserra, no singular, é o título do livro em que o jornalista Claudio Angelo e o engenheiro florestal Tasso Azevedo contam como o Brasil reduziu, entre 2005 e 2012, o ritmo da devastação amazônica. Não houve milagre. Houve uma combinação de instrumentos que já existiam: satélites, fiscalização, áreas protegidas, crédito rural, embargos e pressão da sociedade. A diferença foi fazê-los trabalhar com o mesmo objetivo.
Ao passar do singular ao plural, o título deste artigo inclui outra motosserra. Não é a que derruba árvores, mas uma imagem usada como ferramenta política, bem diferente, porém igualmente perigosa. É a motosserra que Javier Milei transformou em símbolo na Argentina: a ideia de que o Estado deve ser cortado até sobrar o mínimo possível. No Brasil, as duas lâminas costumam aparecer juntas, embora atinjam alvos distintos. Uma abre espaço na mata. A outra corta a capacidade pública de fiscalizar, educar, atender, pesquisar e prevenir enchentes. Uma avança sobre a floresta; a outra, sobre os instrumentos que poderiam protegê-la — e proteger as pessoas. Cortar gastos públicos aleatoriamente pode fazer bonito nas planilhas dos burocratas do governo ou dos investidores em seus escritórios com ar-condicionado, mas afeta a vida de pessoas reais.
Quando a floresta deixa de ser invisível
O Brasil voltou a provar que pode enfrentar o desmatamento. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Prodes registrou 5.731 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, uma queda de 12,1%. Em outubro, o governo divulgou uma estimativa ainda menor para o ciclo seguinte: 3.335 quilômetros quadrados. É importante distinguir os dois números: o primeiro é o resultado registrado; o segundo, uma estimativa. No Cerrado, o desmatamento também reduziu. Mas a queda não apaga a dimensão da perda: foram 5.516,69 quilômetros quadrados de vegetação nativa.
São números relevantes. Mas não basta celebrar a queda; é preciso reconhecer a recomposição dos instrumentos que haviam sido enfraquecidos. Entre eles estão o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, o monitoramento por satélite e a fiscalização. Para se ter ideia da magnitude do desafio: entre 2023 e 2026, segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama realizou mais de 76 mil ações e embargou 18.630 quilômetros quadrados [3].
Mas uma taxa menor não é mata salva para sempre. A queda do desmatamento não significa desmatamento zero. Tampouco esse indicador, sozinho, dá conta da degradação, da grilagem ou do fogo. O próprio governo reconhece que incêndios, áreas queimadas e desmatamento são indicadores distintos. É possível derrubar menos árvores e ainda conviver com temporadas de fogo [3]. Para uma comunidade cercada por fumaça, a melhora de uma taxa não garante o fim do perigo.
É justamente por isso que a expressão “Estado enxuto” deveria causar desconforto quando aplicada à Amazônia. Uma coisa é usar melhor os recursos públicos. Outra é cortar a capacidade de proteger. Monitorar uma área continental custa dinheiro. Fiscalizar atividades ilegais ligadas ao garimpo, à extração de madeira e à criação de gado exige equipes, aviões, barcos, dados e presença em lugares onde a iniciativa privada não tem interesse em chegar.
A outra motoserra
Na Argentina, o ajuste de Milei não é uma hipótese. Em 2024, o FMI registrou queda real de 26% no gasto público nos primeiros quatro meses do governo. A crise argentina tem causas anteriores, e não cabe atribuir tudo aos cortes. Essa ressalva, porém, não elimina o contraste. Houve superávit, celebrado por seus defensores. Mas o mesmo período reuniu desvalorização, inflação e recessão. Entre a população urbana pesquisada, a pobreza chegou a 52,9%, com 18,1% de indigência. Mas para que serve conquistar um superávit se o custo é um sofrimento social dessa envergadura?
Na área ambiental, o corte também ganhou forma concreta. Para 2024, uma análise da FARN, divulgada pelo Chequeado, calculou queda real de 65,4% na dotação da Subsecretaria de Ambiente e de 63,4% na de Parques Nacionais. O Fundo de Bosques, por sua vez, já vinha subfinanciado. Os cortes não inauguraram esse problema. A redução do Estado aprofundou uma insuficiência que já existia.
Comparar com o Brasil requer cuidado, evidentemente. Mas há lições a tirar. O candidato do PL propôs um “Tesouraço”: corte de ministérios, reforma administrativa, desestatização, redução de impostos e novas regras fiscais. Depois amenizou o discurso e passou a prometer também manter programas sociais, ampliar saúde e educação e até mesmo reduzir as queimadas. A equação, porém, continuou sem explicação clara: como reduzir impostos e cortar estruturas públicas, ao mesmo tempo que se mantêm programas e se ampliam serviços? O candidato nunca deixou claro como pretendia fazer essas contas fecharem.
Mas o presidente eleito também acena com maior disciplina nas contas públicas e aumento nos benefícios sociais. O discurso é menos escancarado na defesa de cortes, mas a questão permanece: como conciliar o rigor fiscal prometido com a ampliação dos benefícios? Entre a promessa e sua realização, é preciso explicar de onde virão os recursos. E, se as contas não fecharem, quais estruturas perderão gente, orçamento ou autonomia?
Algo precisa ficar muito claro: não existe ajuste sem escolhas. Quando se reduzem impostos e despesas ao mesmo tempo, a questão é quem fica com a conta. Se os cortes recaírem sobre os serviços públicos e a proteção social, ela chegará ao laboratório que monitora epidemias, à equipe que combate incêndios, à universidade, ao hospital de cidade pequena ou à família que depende de uma política de renda. Ou finalmente teremos a coragem de cortar os subsídios dos poderosos, os benefícios de poucos e as renúncias fiscais de setores ineficientes — e premiar quem é verdadeiramente competitivo?
A motoserra que ainda não parou
Precisamos encarar nossos desafios de frente. Seria confortável encerrar a história celebrando a queda do desmatamento e imaginar que toda a responsabilidade pelo retrocesso caberia à direita, caso ela vencesse. Mas a crítica não pode se limitar a esse cenário. Os fatos não permitem que paremos por aqui.
Em outubro de 2025, o Ibama autorizou a Petrobras a perfurar um poço exploratório em águas profundas do Amapá, a 500 quilômetros da foz do Amazonas. A licença não libera produção nem prova a existência de uma reserva comercial. Ainda assim, abre uma nova fronteira de busca por combustíveis fósseis justamente quando a dependência deles precisa ser reduzida. É essa a contradição que precisa ser discutida. A Petrobras chama isso de segurança energética e transição justa. É a posição da empresa, não necessariamente a resposta adequada para o país. Afinal, quanto tempo temos para fazer a transição brasileira, e como a busca por novos fósseis se encaixa nesse prazo? Essa discussão precisa ser feita por toda a sociedade.
A contradição aparece também na política fiscal. Pela metodologia da OCDE, o apoio público brasileiro aos combustíveis fósseis custou R$ 29,16 bilhões em 2022, sobretudo em renúncias tributárias — recursos que o Estado deixou de arrecadar. O contraste é claro: enquanto se fala em economia de baixo carbono, naquele ano o poder público abriu mão de receitas para sustentar fontes que aquecem o planeta.
O Plano Clima 2024–2035 estabelece metas relevantes de mitigação e adaptação. Mas as metas precisam sair do papel. Plano, por si só, não materializa drenagem urbana, abrigo para desalojados, defesa civil equipada ou encosta estabilizada. Um diagnóstico anterior ao plano ajuda a dimensionar o desafio: estudo sobre os 5.569 municípios constatou que apenas 13% informaram ter, em 2020, planos de redução de riscos. No índice específico de gestão de riscos climáticos, somente 4,9% alcançaram bom desempenho [11]. São dados que mostram o tamanho da tarefa, não uma avaliação dos resultados do novo plano.
Silenciar as motosserras é um trabalho paciente. Mas paciência não significa paralisia. É preciso impedir que as motoserras, reais e metafóricas, avancem sobre a floresta e sobre os instrumentos que protegem as pessoas da desigualdade e dos extremos climáticos. Um país que corta a capacidade de proteger sua população acaba descobrindo, tarde demais, que a conta da destruição sempre volta — e quase nunca é paga por quem lucrou com ela. Não precisamos esperar essa cobrança chegar para decidir de que lado estaremos.