
“Guarde a palavra empatia, querida, para suas provas do primeiro ano.
Não faz uma afirmação muito ousada? Acha que pode se infiltrar em outro ser humano como, no filme, os animados fantasmas-meninos se derramam nos ouvidos de homens mais velhos e pomposos?
Não tente. Só Jesus poderia fazer isso e ele provavelmente nem existia.
A ‘simpatia’. Com isso, seu eu isolado pode rasgar uma capa com um mendigo, colocar um travesseiro sob a cabeça do homem preso, abraçar firme o malandro ruivo de dentes tortos.”
Thom Gunn, Save the Word (2000).
Na luz anêmica do anfiteatro da faculdade de medicina, ensina-se o vocabulário das virtudes. A palavra em voga é empatia. Ela aparece em slides coloridos, em manuais de diretrizes humanísticas e nas provas teóricas do primeiro ano. Longe dos muros acadêmicos, contudo, a palavra ganha contornos mais reluzentes.
Pensemos em quem chega atraído pelo glamour da saúde, seduzido pelo status e pelas imagens idealizadas de salvamento. Sob o anel de luz do estúdio, ajusta-se a câmera do celular, posiciona-se o estetoscópio sobre o ombro e grava-se um vídeo curto sobre “a arte de sentir a dor do outro”. O post acumula curtidas, a legenda transborda comoção e a virtude converte-se em moeda de engajamento. Havia o desejo de ajudar, mas houve a captura pela ilusão de que a profissão seria um desfile de almas iluminadas.
Minutos depois, no corredor do hospital universitário, a mesma pessoa passa a passos largos por uma maca onde uma mulher idosa geme de frio. Não há câmeras gravando. Não há legenda para o silêncio daquele corpo vulnerável e assustado. O olhar passa direto, fixo na prancheta ou na tela do celular. A empatia, aprendida como conceito abstrato e performada como mercadoria, evapora no primeiro encontro com a dor real, indócil e difícil. Ninguém estava preparado para o peso de cuidar de verdade.
É a esse teatro de aparências que Thom Gunn desferiu um golpe certeiro: “Guarde a palavra empatia, querida, para suas provas do primeiro ano”.
Gunn captura com precisão o risco escondido no ideal romântico da empatia contemporânea. Vendida pela sociedade terapêutica e pela cultura do espetáculo como um superpoder técnico, a empatia virou a presunção de que um jaleco e um diploma autorizam alguém a “se infiltrar em outro ser humano”. É a fantasia de que o especialista seria emocionalmente impecável e capaz de habitar a mente do paciente como os “animados fantasmas-meninos” que invadem o ouvido dos velhos pomposos no cinema.
Não deixa de ser uma forma sutil de paternalismo. Quando a formação em saúde reduz a empatia a uma habilidade a ser checada em lista de avaliação — ignorando que os currículos falham em preparar os recém-chegados para o impacto emocional da profissão —, o paciente deixa de ser o sujeito do cuidado e passa a ser o cenário: a paisagem sobre a qual o profissional encena a sua própria bondade. O olhar não pousa sobre o doente; reflete-se na tela do próprio ego, conferindo-se se a expressão de compaixão parece autêntica o suficiente para a audiência.
“Não tente”, adverte Gunn com ironia. “Só Jesus poderia fazer isso e ele provavelmente nem existia”.
A ilusão de que podemos nos fundir emocionalmente à dor do outro produz dois resultados desastrosos na prática da saúde. O primeiro é a insensibilidade mascarada: quem discursava sobre humanização nos trabalhos acadêmicos desaba ou se irrita diante da aspereza da rotina diária. O segundo é a exaustão compassiva: o choque de perceber que tentar carregar o peso do mundo em uma empatia teórica e sem limites é uma rota direta para o adoecimento mental.
Em contraposição a essa fantasia invasiva, Gunn resgata uma palavra antiga e despretensiosa, quase esquecida pelos manuais modernos: a simpatia. Não a cortesia superficial de elevador, mas a simpatia da ação concreta e terrena.
Lembro-me de quando, na ATM83, já havíamos cumprido mais da metade do curso de medicina. À época, tão ou mais disputado que o vestibular, havia o lendário estágio de emergências no Pronto-Socorro Municipal de Porto Alegre: um ano inteiro de plantões semanais em que nos deparávamos com a brutalidade dos dias e das noites. Naquela turma, havia um colega que nos servia de antídoto silencioso. Quando todos estávamos exaustos, próximos de fechar as vinte e quatro longas horas, era ele quem se levantava, sem câmeras e sem pose, para atender o contumaz bêbado da madrugada. Dias antes da formatura, ele nos deixou, deixando-nos órfãos de seu exemplo. A disposição que demonstrava naqueles gestos anônimos foi uma lição que ainda guardo e que teria guiado seu futuro interrompido.
Era a personificação exata do que o poema evoca. No cotidiano daqueles plantões, o eu isolado não tentava se infiltrar na alma de ninguém. Fazia algo infinitamente mais simples e revolucionário: rasgar a capa para dividir com o mendigo, colocar o travesseiro sob a cabeça do homem preso, abraçar o sujeito de dentes tortos, ou simplesmente levantar-se para cuidar de quem mais precisava. A simpatia em Gunn — e na vida real — é corpo, é presença, é o gesto discreto que recusa a espetacularização.
A saúde não precisa de profissionais que declarem sentir a dor de seus pacientes, uma promessa frágil que frustra os recém-chegados. Requer, isto sim, quem reconheça, com honesta humildade, a distância intransponível entre dois seres humanos, escolhendo cruzar essa ponte não com discursos vazios nas redes sociais, e sim com atos.
Na maca, ninguém espera que o profissional se infiltre em sua alma ou encene um ensaio poético sobre o próprio sofrimento. O que se busca é o travesseiro ajeitado com firmeza, a medicação na hora certa, a escuta que não julga e não interrompe. É a presença de quem, compreendendo que jamais saberá exatamente como é ser o outro, permanece ali, ajeitando a capa contra a tempestade.
É no resgate dessa simpatia discreta que guardamos a inspiração daqueles que, como nosso inesquecível colega, nos ensinaram a beleza de um gesto verdadeiro antes de partirem cedo demais.
Em memória de Paulo Verissimo.