Dia desses visitei o perfil de uma influenciadora digital 60+ que apresenta seu make over após os 45 anos como o chamariz de seu feed. Fiquei me perguntando o quanto isso é bom, pois oferece a visão de que a “bela velhice” é aquela magra, esteticamente de boa aparência, enquanto que o foco da boa velhice precisaria estar naquela saudável, física e emocionalmente, com a pessoa funcional, conseguindo realizar suas atividades diárias de forma independente, desvinculada da sua aparência.
A primeira pergunta que me faço é quantas pessoas mais velhas, saudáveis, mulheres em especial, mas fora do padrão estético apresentado no perfil, não devem se sentir inadequadas ao rolar o seu feed. A segunda é a quem serve esse mecanismo, além da própria influenciadora que oferece serviços, seus anunciantes e a uma lógica do consumo que nos coloca como consumidores 24/24h. Tanto na resposta de uma quanto na de outra pergunta, quem sai perdendo somos nós.
Também tenho passado por posts que trazem conteúdos apresentando a “geração prateada”, “maduros”, “ageless” são os 50+ que se reinventam, rejuvenescem, vivem “fora dos padrões”, viajam, estudam, mudam de carreira, … Outro exemplo de post que me chama a atenção é o de pessoas super idosas, de 80, 90, 100 anos, fazendo atividades como correr ultramaratonas, andar de skate, fazer surf, entre outras, percebidas como atividades joviais.
Com relação a esses dois tipos de postagem, percebo uma dificuldade de aceitação do envelhecimento e da própria velhice.
No primeiro caso, é criada uma “maneira certa” de envelhecer. E, quando tratamos de um país desigual e diverso como o Brasil, devemos lembrar de falar em velhices heterogêneas. Temos essa velhice da qual trata esse tipo de post, mas também temos uma diversidade imensa de outras velhices. Algumas mais preservadas do que outras de violências, como veremos a seguir, mas todas precisando de cuidado em alguma medida.
No segundo caso, da superação de desafios, acho perigoso imaginar que podemos julgar um grupo a partir da exceção. Porque uma pessoa super idosa “chegou lá”, realizando um desafio extremo, diminui o valor de tantas outras pessoas idosas que estão trabalhando pela sua funcionalidade*, fazendo um esforço tão grande quanto para se manterem ativas e saudáveis.
Grande parte dessa dificuldade credito ao idadismo, ou etarismo, o preconceito, discriminação ou estereotipagem baseados na idade. Ele pode atingir jovens ou adultos, mas afeta de forma mais severa as pessoas conforme envelhecem.
Para muitos, a velhice é sinônimo de doença, lentidão, atraso, rigidez das ideias, conservadorismo, depressão e morte. É necessário reconstruir esse significado para que esse sentido possa ser transformado. Independentemente das limitações que o envelhecimento possa estabelecer, que se aprenda que ele também pode ser um período de vitalidade, novas experiências, conexões, maior liberdade. Seja em casa, cuidando dos netos e tricotando, seja correndo a maratona e pulando bungee jumping.
*Na fisioterapia gerontológica, funcionalidade é a capacidade da pessoa idosa realizar suas atividades cotidianas, garantindo autonomia (tomar decisões) e independência (realizar ações físicas sem ajuda). O foco não é tratar doenças isoladas, mas preservar a mobilidade e a qualidade de vida.