
Duas semanas após o Dia das Mães, retorno a um tema sobre o qual já divaguei outras vezes aqui na Sler e, justamente por isso, temo cair na repetição das mesmas inquietações. O problema é que datas comemorativas sempre acabam me conduzindo a reflexões das quais não consigo escapar e, por mais que eu tente ignorar certas ideias quando surgem, elas permanecem me rondando até que eu as despeje, enfim, sobre a página em branco.
A cada ano, tenho me tornado mais impaciente com as propagandas agressivas em datas que envolvem relações parentais. A saudade se transforma em estratégia de marketing, presentes passam a funcionar como medida de afeto, a culpa do filho ausente vira argumento de venda e até a solidão de uma mãe que não recebe visitas parece ser convertida em campanha publicitária. Tudo é cuidadosamente pensado para provocar emoção e, a partir dela, estimular o consumo, como se as relações humanas pudessem ser resumidas a flores compradas às pressas ou presentes parcelados em dez vezes no cartão de crédito.
A romantização criada em torno da maternidade, onde a mãe continua sendo apresentada como símbolo absoluto de amor, entrega e abnegação, também faz parte desse processo. Durante muito tempo, ensinaram às mulheres que a maternidade era quase uma obrigação moral ligada ao simples fato de terem nascido mulheres. Crescemos ouvindo que toda mulher sonha em ser mãe, que o instinto materno surge naturalmente e que a realização feminina passa, necessariamente, pela experiência de ter filhos. Mas a realidade nunca foi tão simples assim. Há mulheres que desejam a maternidade, enquanto outras não querem ou não podem ter filhos. Existem ainda aquelas que se tornam mães sem planejamento e passam anos tentando compreender o lugar que ocupam dentro dessa experiência. Nenhuma dessas trajetórias torna uma mulher mais ou menos completa.
Eu mesma sempre digo que não nasci para ser mãe. Alguém que me conheça mais de perto talvez se pergunte como sou capaz de dizer isso tendo um filho de dezesseis anos. Se eu não tivesse conversado tantas vezes com ele sobre o assunto, talvez até me preocupasse com a interpretação que pudesse fazer dessa afirmação. Mas meu filho sabe exatamente o que quero dizer quando escrevo isso.
Quando era criança e ainda não entendia como os bebês eram concebidos, imaginava que a gravidez surgia como uma doença repentina. Como sugeriam as novelas, bastava um desmaio para que a mulher descobrisse estar grávida, mesmo sem nunca ter tido relações sexuais, algo cuja existência eu sequer compreendia. Com o passar do tempo, fui aprendendo o que realmente acontecia e percebendo que gerar um bebê nem sempre era motivo de comemoração. Também descobri que existiam maneiras de evitar ou planejar uma gravidez, permitindo que cada mulher escolhesse o momento de ser mãe ou até decidisse nunca ocupar esse lugar.
Simone de Beauvoir escreveu em O Segundo Sexo: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” Acredito que o mesmo acontece com a maternidade. Ninguém nasce mãe. A maternidade não constitui uma essência feminina, mas uma escolha, ao menos para aquelas que realmente têm a possibilidade de escolher. Tornei-me mulher e decidi ser mãe. Dentro das minhas possibilidades, tento ser a melhor mãe que meu filho poderia ter, mas não faço isso sozinha. Para isso, compartilho os cuidados com um homem que também quis ser pai. Nem todas as mulheres, porém, podem contar com esse tipo de parceria.
Em seu Manifesto Antimaternalista, a escritora e psicanalista Vera Iaconelli afirma que um dos erros mais recorrentes é acreditar que a gestação, o parto, o puerpério ou a amamentação sejam suficientes para transformar alguém em mãe ou pai. A maternidade não nasce automaticamente junto com o bebê. Ela também é construída em meio ao medo, ao cansaço, à culpa, às renúncias e às tentativas diárias de seguir adiante, mesmo sem saber exatamente o que se está fazendo.
Durante muito tempo, venderam às mulheres a ideia de que o amor materno seria imediato, instintivo e incondicional. Mas mães continuam sendo mulheres. Mulheres cansadas, contraditórias, frustradas, desejantes, inseguras e, muitas vezes, sobrecarregadas por uma expectativa impossível de alcançar. Existe uma violência silenciosa em exigir delas uma perfeição emocional que jamais foi cobrada dos homens da mesma maneira. E essa violência é reproduzida pela própria mulher quando cobra do filho tudo o que fez por ele desde o nascimento.
Por isso me incomoda tanto assistir à maternidade sendo transformada em campanha publicitária todos os anos. Porque, entre comerciais emocionantes e frases prontas sobre amor incondicional, pouco se faz para suavizar a realidade de mulheres que seguem tentando equilibrar maternidade, trabalho, culpa, exaustão e individualidade sem desaparecer completamente dentro do papel de mãe. Quando a falácia do instinto materno deixar de ser uma assombração na vida das mulheres, certamente teremos e seremos mães mais felizes.
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