
Na famosa “Biblioteca de Babel” de Borges (1899-86), estavam todos os livros já escritos e ainda por escrever, inclusive uma “história detalhada do futuro”. No entanto, a existência de um catálogo compendiando todos os livros levantou uma polêmica: se o Catálogo pertencia à Biblioteca, então seria necessário outro catálogo contendo o anterior (num “regressus ad infinitum”); se o catálogo não pertencia à Biblioteca então a Biblioteca não continha “todos os livros já escritos”! No livro “O Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco (1932-2016), se projetássemos o cabo de sustentação do pêndulo ao infinito, então todo o Cosmo giraria à sua volta: ali estaria o “único ponto fixo do Universo”!
No primeiro caso (Borges), somos remetidos ao início temporal, onde surge a pergunta: “quem funda os fundamentos? Qual livro vem primeiro numa suposta biblioteca transcendente e universal” (na verdade, uma representação de Deus para Borges)? No segundo caso (Eco), podemos nos perguntar: “onde está o ponto fixo?”, aquele lugar ou instância que garantirá a estabilidade e a segurança do Universo e, por extensão, de nossas vidas? Ambas as indagações se perguntam por Deus: não um Deus de barba branca, túnica e cajado, mas um Deus que fundaria, ofereceria origem e sentido às nossas experiências, um DEUS FUNDAMENTO. Lembremos que o Deus dos hebreus — aquele mesmo que, no Monte Sinai, indagado por Moisés “Quem és?”, responde apenas “Eu sou o que sou!” (Iaveh), ou seja, nada o antecede, o Sem Causa, o Indeterminado, O Começo.
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Fui professor durante muitos anos de Fundamentos da Educação no Centro de Educação (UFPE) e, claro, sempre tentei oferecer aos meus alunos a ideia de um “fundamento” laico, assentado no social e possível de ser compreendido pela “simples razão”. Mas perguntar “quem funda os fundamentos?” geraria o mesmo dilema de Eco e Borges: um tal ‘fundador’ precisaria, por sua vez, ser fundado e legitimar seu ato educativo com um início que o legitimasse. Pense na confusão!
Como não sou religioso, nem acredito em atos fundadores originais, tal como uma, digamos, “expulsão do paraíso”, em que teríamos que inaugurar um mundo propriamente humano pelo suor do próprio rosto, creio nesse miserável social que nos funda, para o bem ou para o mal! Mas creio, ingenuamente, que talvez haja um fundamento social e humano para o ato de educar, e ele se situa não nas “exigências do mercado” ou na “adaptação às demandas de nossa época”: quem tem que se “adaptar” às demandas contemporâneas é o comerciante, o industrial, o shopping, a tecnologia, o marqueteiro, Mendonça Filho…
A educação deveria nos “DESADAPTAR”, pensar o mundo com estranhamento (o que Brecht chamou de “VerfremdüngsEffekt”). Isso não significa estar fora ou indiferente a seu tempo, ignorá-lo ao ponto de se tornar um exilado ou um esquizofrênico. Significa que as exigências do educar – individualizar socialmente e socializar subjetivando –, internalizando regras de convívio social, essa educação ‘desadaptadora’ seria aquela que permitiria ver a mim mesmo como produto de injunções institucionais: o que fizeram de mim a família, a escola, a sociedade. É desse “estranhamento” que falo: como consciência autointerrogativa e judicativa (crítica). Uma boa e… “fundamental” educação é aquela que me RETIRA, me SUSPENDE, que evita os automatismos do pensar, as respostas prontas, os clichês: “quem repete clichês, apenas pensa que pensa”, dizia meu amigo Lourival Holanda! Assim, o único fundamento laico da educação de que dispomos somos… nós mesmos: a reflexão sobre aquilo que fizeram de nós e aquilo que faremos daquilo que fizeram de nós, para que possamos conviver num Mundo Comum.
No fundo, não dispomos nem de “catálogo” (que nos dirá quais conteúdos se encontram na Vida), nem de “ponto fixo” (que asseguraria que nunca sairíamos do eixo ordenador da existência). Somos seres sem fundamento: apenas começamos algo e não sabemos aonde terminará. Até que chegue o “ponto final”, o fim daquela Angústia heideggeriana: o tempo que temos entre tentar viver uma vida “autêntica” e a consciência inegociável da morte…
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