
Não te abras com teu amigo,
Que ele um outro amigo tem
E o amigo do teu amigo,
Possui amigos também.
Essa quadrinha do inesquecível Mario Quintana era uma daquelas que constava em uma das agendas do poeta pela Editora Globo. Eu amava me deparar com um verso do Quintana todos os dias!
E, devido aos acontecimentos dos últimos dias envolvendo a mais alta cúpula do nosso país, esse versinho me veio à cabeça.
Em 1948, quando o Quintana escreveu, nem se imaginava ter tantas formas de se comunicar. Hoje, segredos, trocas de mensagens etc. rodam todos os dias pelo smartphone. O aparelho é apenas um meio. O que interessa mesmo é com quem você está se relacionando.
E, claro, conforme a sua posição, seja no prédio, no trabalho ou na família, você vai ter seu circuito de relacionamentos. E cada troca, recebe e envia as mensagens conforme seu interesse.
Cada um conta suas confissões, suas angústias e alegrias conforme a sua configuração energética do momento e de quem está a ouvir, a receber. E isso não vale só para simples mensagens. Também serve para valores. Interesses. E quanto mais alta a ambição, o número de zeros entre outros dígitos em contas bancárias, mais alto é o jet set. O cara que promove experiências com charutos e destilados de décadas de anos tem muito a ganhar com todos aqueles que podem lhe render alguma coisa, em todos os espectros.
E o que rola entre caracteres e bits é um circuito de informações que geram e representam status, dinheiro, interesses, onde transitam informações compatíveis com a estratosfera de poder.
Quem tem noção de onde pisa sabe que precisa calçar o sapato conforme o local em que vai transitar. Ou seja, não dá para ir de salto alto fazer uma trilha nos Aparados, né? Nem ir de bota de borracha cheia de barro no aniversário de uma conhecida de trabalho.
Pois, apesar das obviedades, há coisas hoje que parecem ter deixado de ser óbvias e precisam ser resgatadas. Nessa nossa sociedade do espetáculo, tem surgido cada situação impensável pouco tempo atrás. Hoje qualquer mensagem de quem usa smartphone é rastreável. E aí a transparência, que muitos tentam solidificar, uma hora é desvelada.
Nem precisamos nos esforçar para ver declarações absurdas nos telejornais ou nas redes sociais. A transparência desse mundo cosmopolita e em plena metamorfose tem provocado tantas situações que quem junta o lé com o cré fica pensando onde será que vamos chegar.
Como convivo e procuro me relacionar com pessoas honestas, aquelas que são chamadas de Joãozinho-do-passo-certo, que não aceitam instalar um gato net porque não é correto, fico pensando com meus botões… Onde anda aquela vergonha alheia? Enfim, aquilo que parece que desapareceu das prateleiras dos corredores da vida.
Para uns pode ser culpa, para outros, consciência pesada; não importa. O que me pergunto é em que mundo estamos metidos e onde as insanidades de hoje vão dar. Não podemos esquecer das armações de quem faz as jogadas conforme as regras estipuladas pelo momento. E há tantas intenções por trás de algum movimento…
Pois bem, querida leitora, querido leitor, se você já captou que estamos em um contexto de transformação, com o clima dando a real, com montanhas derretendo, ciclones e tornados levantando telhados e granizo metralhando casas e carros, o negócio é esperar para ver o que vai sobrar dessa conjunção de encontros de massas de ar e Oceano Pacífico quente. E, em meio a esse cenário, não podemos esquecer a sombrinha, a capa e cantar na chuva.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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