
Um grupo de pessoas topa ficar confinado em uma espaçosa casa cenográfica, sendo vigiado por câmeras 24 horas por dia. Sem receber informações do mundo exterior, eles disputam uma série de provas e dinâmicas em busca de um prêmio milionário.
A premissa, que hoje nos parece um produto inofensivo da era das redes sociais e do voyeurismo digital, guarda, na verdade, uma raiz muito mais sombria. Antes do Big Brother, dos feeds organizados e da necessidade visceral de transformar a própria rotina em espetáculo para garantir engajamento, os anos 1930 já haviam descoberto a fórmula de lucrar com a vulnerabilidade alheia. Isso ocorreu no auge da Grande Depressão americana, um período marcado por falências, fome e pelo avanço de sombras autoritárias e fascistas pelo mundo: surgiram ali as maratonas de dança.
É esse o cenário assustador que Horace McCoy eternizou, em 1935, no romance A Noite dos Desesperados (“Eles matam cavalos, não matam?”), mais tarde levado ao cinema por Sydney Pollack em 1969. Na trama, os jovens Robert Syverten e Gloria Beatty (vividos nas telas por Michael Sarrazin e, de forma avassaladora, por Jane Fonda) inscrevem-se em um concurso de dança no cais de Santa Mônica. A promessa não é apenas o prêmio em dinheiro ou a ilusão de serem descobertos por algum produtor de Hollywood, mas algo mais elementar: comida grátis a cada poucas horas e um teto sob o qual se abrigar.
O que se segue não tem nada de heroico ou poético: trata-se de uma verdadeira arena de gladiadores modernos, onde casais exaustos dançam por semanas a fio, arrastando pés sangrentos em troca da sobrevivência. Para entreter uma plateia sedenta por distrações e moralmente anestesiada, os organizadores criam os derbies — corridas em pista onde os competidores, à beira do colapso físico e psicológico, correm para evitar a eliminação. A linguagem não deixa dúvidas: o ser humano é reduzido à condição de cavalo de corrida.
Tanto na obra de McCoy quanto no filme de Pollack, o gosto que fica na boca é profundamente amargo. A “resistência” vendida como espetáculo nada mais é do que o desespero de corpos desprovidos de direitos e perspectivas, transformados em circo por patrocinadores que estampam marcas em suas roupas. Quando o indivíduo perde a capacidade de gerir a própria vida diante de crises econômicas abissais e da falência das instituições políticas, a humilhação pública passa a ser aceita como oportunidade de negócio.
Ao olharmos hoje para a busca incessante por visibilidade, para as provas de resistência na televisão e para a exposição voluntária de nossas misérias diárias nas redes, o alerta de McCoy continua perturbadoramente atual. O espetáculo da dor não nasceu com os algoritmos. Ele é a resposta mais antiga de uma sociedade que, em momentos vulneráveis, prefere aplaudir a degradação alheia a enfrentar as causas de sua própria ruína.