
Aquele que veio morar entre nós (Jo, 1,14), não tinha onde deitar a cabeça (Lc, 9,58) e nasceu em uma estrebaria (Lc 2,7). Uma situação extrema de vulnerabilidade social, sem amparo e sem contar com a compaixão generosa dos outros. Este homem pobre, doce e amável, aos 33 anos, acabou seus dias assassinado pelo poder romano. Seu crime: amar até o fim! (Jo 13,11). Essa é uma questão central cuja memória os cristãos celebram num arco de tempo que culmina na festa da Ressurreição. Significa que Ele venceu a morte. Representa a esperança vencendo o medo, um desafio para que façamos a vida ser vivida em sua plenitude. Deus conosco! (Mt 1,23).
Mas o instrumento de tortura e morte do Império Romano apenas foi aperfeiçoado e continua produzindo exclusão e morte em todos os cantos do nosso planeta.
A III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, ocorrida de 27 de janeiro a 12 de fevereiro de 1979, consolidou a opção evangélica pelos pobres, identificando as faces sofredoras do crucificado: em crianças, golpeadas pela pobreza ainda antes de nascer; jovens desorientados e frustrados; indígenas e afro-americanos que podem ser considerados como os mais pobres dentre os pobres mais necessitados; em rostos de camponeses submetidos a sistemas de comércio que os enganam e os exploram; em operários que têm dificuldade de se organizar e defender os próprios direitos; em subempregados e desempregados; em marginalizados e amontoados das nossas cidades; e, finalmente, na face de anciãos postos à margem da sociedade do progresso (Cf. Puebla, 32-39).
No ano de 2027, de 13 a 31 de maio, aconteceu, na cidade de Aparecida, a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Neste encontro, são apresentadas novas faces do crucificado, atualizando e referenciando o documento de Puebla. A saber: rostos dos migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxicodependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados/as, os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem-terra e os mineiros (Aparecida 402).
Em mensagem à Igreja que peregrina na América Latina e no Caribe, a 40.ª Assembleia Geral Ordinária do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, realizada de 26 a 30 de maio de 2025, no Rio de Janeiro, declarou que “estamos conscientes dos desafios atuais que afetam nossa região latino-americana e caribenha: a persistência da pobreza e da crescente desigualdade, a violência impune, a corrupção, o narcotráfico, a migração forçada, o enfraquecimento da democracia, o clamor da terra, a secularização, entre outros”.
Nosso povo brasileiro tem uma lista imensa a acrescentar nessa cartilha que nomina os crucificados de hoje. Por exemplo: mulheres, vítimas de feminicídios e violências de toda natureza; negros violentados e excluídos progressivamente; crianças e adolescentes mal-amados e maltratados; pessoas LGBTQIAPN+ vítimas de toda ordem de preconceitos; aqueles e aquelas que professam religiões de matriz afro-brasileira que têm negado seus direitos a um conjunto de práticas religiosas, culturais e espirituais a partir da herança dos povos escravizados do continente africano; gente vítima de tráfico humano para fins de trabalho forçado, comercialização de órgãos e prostituição; no ecossistema dizimado, no aquecimento consequente do abuso com que tratamos a natureza… uma relação, lamentavelmente, interminável.
Leonardo Boff (2017) escreveu que “a Sexta-Feira Santa continua, mas não possui a última palavra. A ressurreição, como irrupção do ser novo, é a grande resposta do Pai e a promessa para todos nós. Hoje diz ele que “a maioria da humanidade vive crucificada pela miséria, pela fome, pela escassez de água e pelo desemprego. Crucificada está também a natureza devastada pela cobiça industrialista que se recusa a aceitar limites. Crucificada está a Mãe Terra, exaurida a ponto de ter perdido seu equilíbrio interno, que se mostra pelo aquecimento global”.
A pergunta que nos toca nesse momento em que somos convidados à celebração cristã da Páscoa de Jesus é: qual seu significado para nós hoje? O que essa festa tão importante e grandiosa representa para os crucificados de agora? Na certa, mais que um evento a ser comemorado, tratamos de uma memória a ser vivida permanentemente, a luta para que a vida não naufrague no mar da cobiça, da inveja, do ódio, da violência, da ambição. Possivelmente, os cristãos estamos convocados a reavivar em nós o ressuscitado, para que tenhamos luz e forças para lutar e superar a morte social, física e espiritual. Precisamos, com determinação e ousadia, compreender que a morte, a dor e a opressão não devem e nem podem ter a última palavra na história humana. A ambição dos donos do capital não nos define.
Em conclusão à reflexão de agora, pensei que nada poderia ser melhor do que partilhar com o/a leitor/a o poema de Bertolt Brecht (1982) Elogio da Dialética:
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante. Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração, se diz em voz alta: “Agora acaba de começar!”
E, entre os oprimidos, muitos dizem: “Não se realizará jamais o que queremos!”
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro.
Como está, não ficará.
Quando os dominadores falarem, falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De nós. De quem depende a sua destruição?
Igualmente a nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação, como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o “hoje” nascerá do “jamais”.
O apóstolo Paulo escreveu aos Coríntios que a palavra da cruz é loucura para a mente carnal e natural, para aqueles que estão perecendo (1Co 1:18, 21, 23; 2:14; 3:19). Pensar na morte de cruz como um ato supremo de amor e ressurreição e saber que esse evento marca para nós a ressurreição, a vitória que nos salva e liberta. De fato, a condenação e execução de Jesus foi um ato político, justificado pelo Poder Romano como mediação de manutenção da ordem imperial. Por seu turno, a ressurreição significou a deslegitimação de tal poder e a proclamação de uma autoridade que supera as estruturas opressoras. Frei Beto (2025) propugnou que “a Páscoa é, por excelência, a celebração da vida que vence a morte. Mais que data religiosa, traz em seu bojo uma mensagem universal de esperança, renovação e possibilidade de recomeço. A ressurreição de Jesus Cristo, há mais de dois mil anos, continua a ecoar como símbolo máximo de superação diante do impossível”.
No livro “Olhares Negros: raça e representação”, encontramos a epígrafe: “mas a militância é uma alternativa à loucura. E muitos de nós estamos diariamente entrando no reino da loucura (Hooks, 2015).” É bem provável que lutar contra essa lógica perversa do capitalismo tenha que ser a loucura nossa de cada dia.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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