
No dia 1º de abril de 2026, no portal Religión Digital, o espanhol José Manuel Vidal — sociólogo, teólogo e doutor em ciências da informação — lançou um alerta sobre o que define como a “nova heresia do século XXI”: a instrumentalização política do cristianismo.
Vidal argumenta que este “cristianismo político” não brota do amor ou da alteridade, mas do ressentimento cultural. Trata-se de uma inversão sombria das bem-aventuranças: se o Evangelho exalta os pobres, a nova ordem transfere a graça aos ricos, aos fortes e aos armados. A religião abdica de ser uma via de salvação universal para se transmutar em bandeira, fronteira e muro contra o “outro” — seja ele o imigrante, a feminista ou as minorias.
No texto, o autor identifica as correntes que sustentam esse fenômeno: a Teologia da Prosperidade, onde a riqueza é vista como bênção divina e a pobreza como castigo; o Dominionismo, a crença de que os cristãos devem assumir o controle das instituições para impor uma lei bíblica; o Aceleracionismo Apocalíptico, visão fatalista que busca acelerar o colapso do sistema para forçar uma era ditatorial; e o Nacionalismo Cristão, a fusão da identidade nacional com a piedade religiosa sob o pretexto de combater o “marxismo cultural”.
Eis que surge o conceito do “Cristo-César”. O Jesus crucificado entre ladrões cede lugar a um Cristo armado e identitário. É a ressurreição da antiga “teoria das duas espadas”, na qual os poderes espiritual e temporal caminham juntos para impor uma ordem moral pela força de um Estado punitivo.
Vidal termina com uma advertência às hierarquias católica e protestante. Embora cite bispos que resistem ao movimento, como Cupich nos EUA ou Cobo na Espanha, ele fustiga o silêncio daqueles que se calam por medo de perder influência. Para o autor, tal neutralidade é cúmplice: torna as igrejas sócias de quem usa Deus como um mero logotipo de campanha.
Para o teólogo espanhol, o trumpismo cristão e suas variantes globais não são apenas ruídos políticos, mas um desvio doutrinário profundo. Ao trocar a misericórdia pela força e o acolhimento pela exclusão, estão — em suas palavras — “abençoando o contrário de Cristo em nome de Cristo”.
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