
Estamos imersos em uma sociedade de risco, já sentenciou Ulrich Beck. Se estamos cercados de riscos e possibilidades de cairmos em armadilhas, como podemos conviver com a toxicidade daquilo que nos cerca? De perto, ninguém é normal, já disse o Caetano. Porém, confesso que saber dançar ou sair da pista com a loucura das pessoas que estão no poder é um mega desafio. Aliás, sempre foi. Só que agora parece que estamos à mercê de insanos, de gente que está no comando de retrocessos (seriam civilizatórios?) com tratores e retroescavadeiras. E isso é perceptível em nível global e local.
Antes de continuar, peço desculpa pela ausência nesse espaço nas últimas semanas, mas, devido a demandas acadêmicas, precisei focar nos estudos. No mestrado, tive acesso a pensadores que me mostraram o quanto a compreensão do que nos cerca ajuda a interpretar a roda-viva dos absurdos que tem nos rondado. A começar por essas guerras brutais, fundamentadas em mentiras, desinformação e enganações, que têm feito milhares de vítimas, com vários níveis de impacto. Vocês sabiam que hoje se têm reduzido os valores para se mitigar e adaptar os impactos da emergência climática para destinar mais dinheiro com armamentos?
Se declarações patéticas ocupam as manchetes, os telejornais e afetam a nossa capacidade de discernimento, o que podemos fazer para não entrar nessa órbita de inquietação sobre os rumos da história? Confesso, tenho procurado ver cada vez menos as notícias que me fazem mal. O grau de toxicidade do que anda rolando está provocando danos em várias dimensões.
Na cidade onde vivo, os rumos do planejamento da atual administração ignoram solenemente que estamos numa região altamente vulnerável a desastres. Nem parece que vivemos uma inundação que deixou debaixo d’água estruturas estratégicas de governo e prejuízos incalculáveis para todos atingidos. Caminhar pelas ruas é se deparar com dezenas de pessoas com um saco preto carregando recicláveis. É encontrar calçadas esburacadas, árvores cortadas sem o menor critério e ter que conviver com motoristas afoitos, motociclistas e ciclistas que não têm o menor respeito pela própria vida.
O grau de toxicidade de se viver em uma capital que já foi bem mais alegre tem exigido uma resiliência que tem me feito repensar muitas coisas. Só que ficar reclamando também pouco adianta. Suspeito que hoje um dos maiores desafios da nossa existência é ter discernimento da nossa capacidade de suportar o que devemos lidar. Há uma linha muito tênue entre se indignar, fazer algo para mudar e, ao mesmo tempo, tentar ser feliz.
A vida tem me feito conviver com desafios que jamais imaginei. E isso é do jogo de força de estarmos vivos. Com o passar dos anos, as fragilidades do corpo aparecem, as fases do game da existência vão ficando mais difíceis. Porém, precisamos ter a sabedoria de encontrar brechas e saber degustar os instantes de satisfação e alegria de estar vivo.
Por força da conjuntura, convivo com pessoas de várias faixas etárias e aprendo muito com elas. Amo estar com crianças, morro de saudade de conviver mais com meus sobrinhos-netos. Preciso lidar com paciência e resignação em situações com uma idosa que toda a vida viveu sozinha e se mandou. Tenho um filho adolescente e fico sabendo de coisas. E minha família é uma biodiversidade que rende muito pano pra manga.
Ou seja, em vários níveis, hoje, não está fácil conviver com tanta infodemia, tantos gaps, tantos golpes, tantos ruídos e falta de uma comunicação efetiva, mesmo com avanços tecnológicos, com um aparelho que se tornou uma extensão do nosso corpo na palma da mão. Esses dias vi uma postagem que achei uma baita síntese. Um vídeo de um orelhão, em que estava escrito: “Quando o telefone era fixo, éramos livres.”
Estar toda hora conectado ou sendo bombardeado com estímulos em backlights, anúncios etc. faz mal para qualquer um. Além do mais, essa sensação de loucura reinante, do tudo por dinheiro, é algo recente. No final do século passado, no início dos anos dois mil, o clima era de esperança, de mais respeito à natureza, de melhor convivência entre as pessoas.
Por isso e muito mais, precisamos de mais arte, ver e fazer mais música, ver espetáculos, fazer jardinagem, observar a natureza, reverenciar o céu, o nascer e o pôr do sol, conviver com pessoas que nos nutram, não nos suguem, pois instantes de respiro, de entrega, vivendo o momento presente, longe das telas, são fundamentais para lidarmos com tanta coisa a que somos submetidos todos os dias.
E pra finalizar, dou uma sugestão de filme, que me reforçou ainda mais a convicção de quanto temos a aprender com a história da humanidade. O título é “O Cativo”, na Netflix, que conta a história do Cervantes, antes de ele escrever o consagrado Dom Quixote.
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