
“De pedra, os que não gritam
De pedra, os que não riem
De pedra, os que não cantam
Eu nunca serei de pedra
Gritarei quando precise
Rirei quando precise
Cantarei quando precise”
Rafael Alberti
Algumas determinações são urgentes para a humanidade. A principal é a da sinceridade, do olho no olho, do papo reto, daquela tendência no Direito que é a Justiça Restaurativa (o querido Marcos Rolim lançou um livro interessantíssimo sobre isso). E tem outra, que é a maleabilidade e o bom senso, ressalvada necessariamente uma regra de ouro: não fazer ao outro aquilo que não queres para ti, uma máxima cunhada há mais de 2 mil anos pelo rabi Hillel, conhecido como “o sábio dos sábios” ou “o ancião”, que interpretou a essência da Torá.
Mas o assunto aqui é Jornalismo. Creio que o Jornalismo também tem uma máxima de ouro, a regra pétrea que é a busca da verdade verificável, a verdade objetiva, sem espaço para devaneios. Como dizia Hillel sobre a sua definitiva frase, “o resto é interpretação”. E assim é no Jornalismo. Buscar a verdade verificável (ou verdade objetiva) é a grande regra. No mais, é interpretação. O bom profissional do Jornalismo sabe ter maleabilidade.
Vai aqui um exemplo: nem sempre o jornalista necessita do “outro lado”, um suposto pilar que muitas vezes é mera bengala. É hipocrisia, preguiça e até certa covardia o cara ouvir o outro lado, escorar-se nele e não bancar a informação. São ridículas as seguintes situações: ouvir o outro lado terraplanista, o outro lado anticiência, o outro lado antivacina, o outro lado racista, o outro lado homofóbico, o outro lado misógino, o outro lado antissemita.
Contra a ignorância, informa-se, briga-se, acusa-se (logo adiante você entenderá o porquê desse verbo criteriosamente adotado aqui).
Parênteses: deveria ser terminantemente proibido haver espaço para uma pessoa que nega ao povo judeu o historicamente comprovado e moralmente legítimo direito judaico à autodeterminação no seu lar ancestral. Todas as pessoas que negam aos judeus esse direito límpido depois de séculos sendo perseguidos e segregados em uma diáspora violentíssima deveriam estar presas, porque cometem crime inafiançável.
Mas chego agora a um ponto que é a motivação deste texto: o jornalista tem o direito e o dever de se posicionar em algumas ocasiões. Não estou falando em se filiar a partido político ou coisas do tipo. Não me refiro a formalidades. Me refiro à vida real e à verdade. O posicionamento não necessariamente tira a independência. Pelo contrário. Às vezes, a falta de posicionamento é hipocrisia e pusilanimidade. E jornalista não pode ser pusilânime.
O único pilar inflexível do exercício jornalístico deve ser a busca da verdade verificável, a verdade objetiva ou ao menos a mais objetiva possível. Outros princípios tradicionais da profissão são úteis, mas por vezes engessam e enfraquecem o seu exercício. Eu, por exemplo, assumo time de futebol há anos e escrevi livros sobre o meu com ênfase na diversidade, trazendo fatos objetivos, documentados. Tudo plenamente verificável.
Dou esse exemplo porque ele fica no âmbito desportivo, supostamente algo leve e em tese isento de maiores polêmicas. Quando escrevo um livro sobre a Coligay, estou falando sobre uma torcida LGBT que marcou época, foi pioneira e serviu de exemplo edificante. Alguém já me disse, certa vez, que o livro é “polêmico”. Eu respondi: “Por quê?” E o meu interlocutor ficou mudo por uns instantes até convir que, evidentemente, eu tinha razão.
Sou um cara que se posiciona desde sempre e que não sabe ser diferente. Estudei Direito e Jornalismo. Me formei em ambas na segunda metade dos anos 1980. Quando estagiei no Ministério Público, vivi uma experiência lapidar. O promotor era um cara meio folgado e dado a um trago, ao menos pelo odor de álcool que exalava. O sujeito só assinava, e eu denunciava, arquivava ou pedia diligências (mais investigações) à polícia. Eu, um guri.
Mas tinha um momento em que ele pedia para eu refazer o texto: em casos de violência doméstica. O inquérito policial nos chegava com aqueles casos escabrosos e fotos chocantes de mulheres desfiguradas. Sabe o que o cara me dizia ao ver a denúncia que eu preparava para ser enviada à Justiça? “Hmmm, isso é briga de marido e mulher. Depois eles se entendem. Vamos arquivar.” Lá ia eu jogar a minha denúncia no arquivo.
Cabe sublinhar: a delegacia da mulher engatinhava naquele momento. E arquivar o inquérito que tinha dela significava torná-la inútil. E eu insistia em denunciar. Até que chegou o dia em que este colunista estava especialmente sensível, sabe-se lá por que motivo. O cara me pediu pra arquivar aquilo que eu denunciava e dependia da assinatura dele, e eu o mandei longe, com direito a palavrões, bati a porta e nunca mais voltei.
Assim eu sou, e sei que esse temperamento só solidificou a minha trajetória como jornalista. Me vem à memória aquele agosto de 1986 em que a ditadura militar recém havia terminado, mas as sequelas do arbítrio estavam por todos os lados. Era a formatura da minha turma na UFRGS, e nós éramos jornalistas com “j” maiúsculo. Ou seja, claro estava pra nós que alguns valores são essenciais e que a busca da verdade pode ter diferentes caminhos.
Na época, o Geraldo Canalli era ex-professor afastado da nossa federal por suas posições políticas progressistas, que, aliás, sempre foram bastante moderadas. O que fizemos? Pegamos o Canalli pra ser o nosso paraninfo, veja bem, na faculdade de onde ele estava banido. Não demorou muito para ele ser readmitido e voltar a lecionar, e quero crer que a nossa atitude altiva, no alto dos 20 e poucos anos, foi decisiva para esse desfecho.
Orgulho-me da minha profissão e a exerço de forma radical. Nossa formatura não foi mera formalidade. Cravou princípios neste guri que ainda sou, porque, no aperto, sempre recorro à ‘bola de meia, bola de gude’ do Milton. Porque frequentemente na minha vida me posicionei e fui radical. Quando falamos em verdade, o céu é azul, a chuva é molhada, a Terra é redonda, a vacina previne, 3+3=6 e o judeu tem direito ao seu lar ancestral.
O resto é devaneio pueril e irresponsável de falso humanista que nada sabe da vida real e faz das suas relativizações combustível pra empunhar bandeira de grupo terrorista ou apoiar aiatolás obscurantistas. Enquanto negarem aos judeus viver em paz com reconhecimento e segurança, a defesa existencial levará Israel à indesejada militarização, porque, como dizia a Golda Meir, melhor o seu ódio do que suas condolências.
…
Exemplo de verdadeiro homem das letras e intelectual que sabe desempenhar o seu papel com essenciais retidão e honestidade: Émile Zola, caso notório e infelizmente raro de coragem e integridade moral. Deixo com vocês trechos do artigo escrito pelo historiador João Koatz Miragaya na edição de 3 de março do Estado de S. Paulo sob o irônico título “Ninguém acusa”, em referência óbvia ao definitivo, exemplar e lapidar “Eu acuso”:
“Em 1894, o capitão do Exército francês Alfred Dreyfus foi preso sob a acusação de traição à pátria. O oficial foi acusado da venda de informações secretas ao Exército alemão, julgado e condenado por unanimidade num processo que durou apenas três dias. A humilhação também se estendeu numa cerimônia pública, na qual Dreyfus perdeu suas insígnias militares. Não havia qualquer prova que ligasse o acusado ao crime, apenas uma motivação: Alfred Dreyfus era judeu, justamente o judeu que havia alcançado a maior patente no Exército francês desde que lhes foi permitido ser oficiais. Justamente a França, o primeiro país a conceder cidadania plena a judeus na esteira da revolução um século antes, agora condenava um judeu à traição somente por ser judeu. No entanto, nem todos os franceses foram cúmplices de tal perversidade.”
“Em 1898, quatro anos após a infame condenação, o escritor Émile Zola, um dos expoentes do naturalismo e autor de Germinal, publicou uma carta aberta no jornal L’Aurore, intitulada J’accuse (em português, Eu acuso). Nesse texto, Zola saiu em defesa da inocência de Dreyfus e acusava o Exército francês de fraude judicial, mesmo após as investigações apontarem claramente para a inocência do capitão. Zola era um importante intelectual de esquerda e sua militância foi primordial para que o processo fosse revisto e Dreyfus fosse libertado. Setores progressistas da sociedade francesa se manifestaram ativamente a favor de sua libertação, enfrentando no campo das ideias as alas nacionalistas da direita francesa, sobretudo os monarquistas. Dreyfus morreu em liberdade, mas jamais deixou de ser ofendido nas ruas por franceses ressentidos e humiIhados por suas convicções chauvinistas e antissemitas terem sido contrariadas pela verdade. de acusações e perseguições Sob a ótica nacionalista francesa do final do século 19, aos judeus, fosse por motivação religiosa (deicídio) ou não era exatamente uma surpresa que um judeu fosse tido por tramas malignas (libelo de sangue).”
“A obra mais célebre da literatura antissemita moderna é intitulada de Os Protocolos dos Sábios de Sião. Trata-se de um falso livro de protocolos, atribuído a judeus poderosos, que teriam sido traçados num congresso secreto na Basileia em 1898 justamente um ano após o acontecimento do primeiro Congresso Sionista, na mesma cidade) a fim de traçar seus planos de destruição da sociedade ocidental e sua substituição por um ‘poder judeu’. O panfleto influenciou outras produções antissemitas de estilo semelhante, como O judeu internacional, de Henry Ford, e foi amplamente utilizado pela propaganda nazista.”
“O surgimento do Estado de Israel abriu uma gama de possibilidades de roteiros conspiratórios. (…) Recentemente nos deparamos com uma manifestação conspiracionista, em vídeos publicados pelo sociólogo Jessé Souza nas suas redes sociais. (…) Acusou o lobby judeu (depois corrigiu para sionista, e posteriormente apagou o vídeo), a família Rothschild e o Estado de Israel de estarem envolvidos numa trama na qual o vil bilionário pervertidamente criminoso Jeffrey Epstein coagiria figurões e líderes globais, para que esses não se opusessem ao massacre de crianças palestinas pelo Estado judeu. Sem apresentar qualquer prova, Jessé Souza sustentou a existência de uma conspiração envolvendo um bilionário pedófilo judeu, uma família centenária de banqueiros judeus e um famigerado lobby judaico (ou sionista) aos crimes mais deploráveis e perversos envolvendo crianças, em uma espécie de manipulação global. Assim como na França, em 1894, não são necessárias as provas.”
“A triste diferença nota-se quando se observa a reação aos casos: não houve um movimento intelectual dentro da esquerda brasileira que tenha feito ouvir sua voz contra o vídeo divulgado por Jessé Souza. Talvez acovardados por serem tidos como ‘defensores dos sionistas’, ou por qualquer outra razão, o silêncio escancara uma premissa deplorável: a de que o antissemitismo é um problema ‘menor’, ou nem sequer seja um problema. A esquerda, que um dia encontrou em Zola um modelo de coragem, hoje prefere o cálculo ao princípio; e essa escolha não é estratégica, é moral.”
Cadê você, Zola?!
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Tá nas minhas redes
Teve um evento “antifascista” em Porto Alegre. Imagino que tenha protestado contra governos teocráticos que executam gays, adúlteras e opositores, que querem impor um “califado” com as regras que preveem esses horrores medievais numa lógica expansionista, que falam abertamente em aniquilar uma nação que se defende deles e dos grupos terroristas que eles financiam pra matar o maior número possível de pessoas desse povo que odeiam e que, meu Deus, estão na iminência de ter armamento nuclear.
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O rapaz esse que por algum motivo (desconfio qual seja) criou uma fixação com a causa palestina (até aí, ok) e com a absurda e inadmissível negação de Israel foi retido no Aeroparque, em Buenos Aires. Vamos aos fatos mais básicos, geralmente “esquecidos” ou ignorados? Ele tem relações com o Hezbollah (inclusive foi ao funeral do Nasrallah, o líder dos caras), e o Hezbollah promoveu dois atentados terroristas em Buenos Aires, em 1992 e 1994, deixando 114 mortos (115 com o Nisman). Naturalíssimo que não seja recebido com honras e que provoque algum tipo de interrogatório. Naturalíssimo que a sua presença seja mal vista. O cinismo dos ativistas “antissionistas” é exasperante. E como tem figuras que, do nada (ou com bons e muito atávicos motivos), adotaram essa causa com garras e presas!
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Tem um sujeito na Folha de S. Paulo, que frequentemente é interino no principal espaço das crônicas, que ama falar sobre Israel e judeus, um entre tantos que por algum motivos têm fixação com esse assunto. Algumas pessoas têm essa obsessão, e eu sei exatamente quais são os seus motivos milenares, atávicos. O cara fala em “jogo de palavras” no essencial projeto da ótima Tabata Amaral (PSB). Jogo de palavras faz ele. 1) O “apartheid” (sic) que ele alega haver em Israel não ocorre contra uma população onde só há gente inocente e inofensiva, que sofre discriminação. É desses lugares que partem atentados terroristas violentíssimos, pogroms como o 7/10, foguetes, homens-bomba etc. Se dependesse de Israel, haveria 2 Estados pra 2 povos desde 1947, mas os caras rejeitaram e desde então falam abertamente em erradicar o Estado judeu, algo exasperantemente normalizado hoje em dia. O incrível é ver um negro comparar essas medidas protetivas com o Apartheid, que não permitia aos negros pegarem o mesmo ônibus que um branco ou frequentarem os mesmos espaços. A comparação é um acinte a judeus (israelenses ou não) e negros sul-africanos. Sou muito crítico a várias ações de governos israelenses, mas as comparações que fazem são completamente descabidas. 2) Também é “jogo de palavras” ignorar que o que a excelente Tabata (como eu gostaria de morar em São Paulo pra votar nela!) faz é, basicamente, tratar como antissemitismo a negação ao Estado de Israel, seu direito inquestionável, comprovadamente essencial, historicamente irrefutável, de existir e, infelizmente, precisar se defender. O cara fala em “jogo de palavras”. São esses os jogos de palavras -e são dele! Um hipócrita que adota narrativa com verniz de direitos humanos extremamente negadora destes.
Shabat shalom!
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